PARTE III: ANTIPOFF: apropriações autorizadas e mitificação 126
CAPÍTULO 5: PSICOLOGIA DA CRIANÇA E INVENÇÃO DIRIGIDA 160
5.1 PSICOLOGIA DA CRIANÇA E PEDAGOGIA EXPERIMENTAL 160
Psicologia da criança e pedagogia experimental foi o terceiro livro de Claparède publicado no Brasil, saído em 1934 em plena efervescência da recente visita do autor.
O livro comporta o curso que Claparède ministrou em Belo Horizonte, mas não era propriamente uma novidade. Psicologia da criança e pedagogia experimental já era um sucesso mundial, publicado em dez idiomas – romeno, espanhol, russo, turco, alemão, italiano, inglês, húngaro, polaco, tcheco – e já estava em sua 11ª edição no idioma francês.
O livro saiu pela Imprensa Oficial, em Belo Horizonte, na primeira edição (1934); em seguida (1940) em edição revisada pela editora Francisco Alves, tendo como bases Rio de Janeiro/RJ, Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP. Em 1956 o livro é republicado, na Coleção Didática do Brasil, série “Normal”, vol. 18, pela Editora do Brasil.
Os exemplares que analisamos (1934 e 1940) foram encontrados em lojas virtuais. No acervo antigo da Escola Normal de Piracicaba encontramos uma versão espanhola de Psicologia da criança.
Tomamos aqui a segunda edição, publicado em formato brochura capa dura (23,9 x 17 x 5 cm), totalizando 576 folhas divididas em 4 capítulos e apêndice, que seguem a estrutura apontada no subtítulo: capítulos com introdução, histórico, problemas, métodos, e nos apêndices: desenvolvimento mental. O exemplar está numerado em 313.
As edições não possuem orelhas ou notas dos tradutores. Há promoção dos livros do tradutor na edição da Francisco Alves, e uma única propaganda na contracapa da terceira edição, referente à Coleção Didática do Brasil, em rodapé, informa que trata-se de uma Série Colegial e o preço do volume Cr$ 120,00. Nesta terceira edição o tamanho diminui (21,1 x 14 x 2,8 cm), assim como a espessura do papel, e passa a contar com 542 páginas, esta edição possui a numeração de exemplar de 1496. A capa é simples, uma capa dura vermelha com escritos dourados. Lê-se o nome do autor, aportuguesado, Eduardo, o título resumido Psicologia da criança e nome da editora.
A tradução desta obra ficou a cargo de Aires Mata Machado Filho e Turiano Pereira e conta com prefácio de Helena Antipoff, assinado em Belo Horizonte em 1933, e prólogo de Claparède assinado em Genebra em 1915.
Na terceira edição (1956), também capa dura, mas com lombada escura e capa cor de papel, consta o nome, Eduardo, o título estendido, com Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental, em duas linhas em destaque, e nome da editora na parte de baixo. Pequeno, abaixo do título, está o nome dos tradutores e ao centro
entre parêntesis, há a indicação de leitores “para as cadeiras de curso pedagógico dos Institutos de Educação do Brasil”.
No verso da primeira folha da edição da Francisco Alves, com título do livro, a editora promove livros de Aires da Mata Machado Filho: Educação dos cegos no Brasil; Escrever Certo; e Ortografia oficial. Em seguida está publicada uma foto do “Dr. Eduardo Claparède”, de perfil, com os braços cruzados, usando terno.
A página de rosto informa a titulação de Claparède, Professor de Psicologia da Universidade de Genebra. O título por completo, o fato de ser uma segunda edição revista e com 44 figuras (esquemas e gráficos feitos pelo autor). Também informa do prefácio de Antipoff, professora de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte e informações da editora.
A reedição impressa pela Editora do Brasil em 1956 mantém a estrutura do número anterior e repete o prefácio da primeira edição feito por Antipoff e o prólogo de Claparède. No texto inicial Claparède informa a origem do texto: “uma série de artigos de jornais e revistas, reunidos em uma brochura [...]” (CLAPARÈDE, 1956, p.19).
O prefácio desta obra de 1940, feito por Antipoff, é veiculado como uma apropriação autorizada da biografia de Claparède. Helena Antipoff toma este prefácio como uma oportunidade de homenagear seu antigo mestre e amigo. Nesse texto temos um resumo do texto biográfico do autor, que só viria a ser publicado muito mais tarde no Brasil:
Esta publicação se me afigura uma espécie de homenagem prestada a Claparède, que o Brasil conhece muito bem através de toda a sua obra, a qual ele quer difundir ainda mais e introduzir nas mais modestas bibliotecas pedagógicas dos quatro cantos do vasto país. (ANTIPOFF, 1940, p.vii).
Nesta homenagem, Antipoff começa discordando do mestre. Acusando-o de excessivamente modesto quando diz que produziu pouco em condições tão favoráveis. Para a autora condições materiais ruins são mais favoráveis ao dinamismo do pensamento e à produção artística. Em segundo ponto, sobre a produção do autor, em torno de 3.000 páginas de extensão, ainda que pequena ela tem teor e irradiação muito maiores.
Ela reforça seu espírito aberto a todos os domínios da atividade humana “possuindo uma autêntica curiosidade de sábio.” (ANTIPOFF, 1940, p.viii). E relembra fatos de sua vida acadêmica, como seus primeiros estudos sobre o sono ainda como estudante de medicina. Relembra as origens do termo escola sob medida em 1901, como a formulação, nesta expressão, do “princípio essencial da educação moderna”. (ANTIPOFF, 1940, xi). Termos em que ela trata o autor, repetindo a frase do primo Flournoy dotado “clareza e a polidez do sábio” e conclui:
O estilo de Claparède merece atenção especial. Nenhuma prolixidade, frases curtas, nas quais dificilmente se poderia suprimir uma palavra supérflua, sem sacrificar o sentido; ao mesmo tempo, o seu estilo é leve elegante, finamente amenizado por esta ou aquela imagem, realçado por esta ou aquela metáfora original, ávido por um trocadilho chistoso. (ANTIPOFF, 1940, xiii).
A autora escreve sobre a importância da obra que se publicava, não um manual para ela “êsses tratados são, às mais das vezes, completamente inúteis”, mas nasce da tentativa de mostrar múltiplas vias dos caminhos teóricos e práticos para se abordar a psicologia da criança. Ideias estas, fortemente preocupadas com a criança, frutos de dedicação ao Instituto Jean-Jacques Rousseau:
O Instituto, criado por Claparède, dirigido por Pierre Bovet e contando com a colaboração, no comêço principalmente, de homens como Ferrière, Dr. Godin, Mlle Descoeudres, Audemars, Lafendel,
Mme. Artus e mais tarde, Walter, Piaget, Meili e tantos outros obreiros e mestres das ciências da educação, gozou de altíssima reputação e serviu de centro para os educadores do mundo inteiro e de núcleo irradiador dos princípios e dos métodos da escola ativa. O ano passado, o Instituto celebrou seus vinte anos, entrando assim em franca maioridade. (ANTIPOFF, 1940, xiv).
A autora conclui com uma última apreciação sobre o mestre: “desejamos que a esperança de nosso caro Mestre, êsse homem de coração, se realize e que o seu livro, que o leitor brasileiro vai ler na própria língua, possa contribuir para a obra de reconstrução imposta a todos os povos hodiernos.” (ANTIPOFF, 1940, xvii).