4. Analisando MUNDOS TRANSMÍDIA
4.2 Psicose e Bates Motel
Psicose é um livro de ficção de 1959, escrito por Robert Bloch. O livro tem duas sequências35 publicadas, porém ganhou evidência com o filme homônimo dirigido por Alfred Hitchcock em 1960. No cinema, a franquia ganhou mais três sequências (Psycho II, 1983; Psycho III, 1986; Psycho IV, 1990) e uma refilmagem baseada no texto original em 1998. Houve uma tentativa de transformar a franquia em série para a televisão no ano de 1987, mas a produção ficou limitada ao episódio piloto de 90 minutos. A série Bates Motel, situada no mundo ficcional de Psicose passou a
ser veiculada pelo canal A&E em 2013 e tem previsão de encerramento em sua quinta temporada no ano de 2017.
O livro inicia descrevendo um final de tarde chuvoso no qual a personagem principal, Norman Bates, lê um livro ao lado de um abajur que havia sido de sua mãe. Nesta pequena descrição inicial há diversos índices do mundo, focados especialmente na construção de Norman. Ao passo que todas as narrativas têm conexão direta com os acontecimentos ou o comportamento de Norman, sua introspecção e o apego àquilo que foi de sua mãe, são elementos importantes, que perduram em todas as obras relacionadas com este mundo.
4.2.1. Entes e inventário
As histórias giram em torno do Motel Bates, de propriedade de Norman, localizado nos arredores de uma cidade chamada Fairvale, na California. O Motel tem, em Psicose, um aspecto decadente e seu estado de conservação justifica-se pela baixa frequência de hóspedes. Um dos principais pontos na construção deste mundo é justamente que o Motel fica isolado da cidade, num local onde poucas pessoas passam. A estrada fora substituída por uma nova, deixando o motel com raríssimos visitantes. O livro explicita esta situação em um diálogo entre Norman e sua mãe em suas primeiras páginas:
Acho improvável alguém vir a passar por estes lados. Todos tomam agora a rodovia nova. » Norman ouviu a amargura se insinua rem sua voz; sentiu-a inchar-lhe a garganta até que ele sentisse o gosto. Tentou segurar, mas era tarde demais; ele tinha de vomitar, eu disse que seria assim, quando nos deram a dica de que a estrada seria transferida. A senhora poderia ter vendido o motel antes que a notícia da mudança se tornasse pública. Podíamos ter comprado um terreno por uma bagatela, e mais perto de Fairvale. Teríamos um novo motel, uma casa nova, ganharíamos algum dinheiro. Mas a senhora não quis me ouvir. Nunca me ouve, não é? É só o que a senhora quer, o que a senhora acha. A senhora me deixa doente! » (Psicose, p. 06, 2013)
Apesar disso, o livro não fornece uma descrição clara e aprofundada de como seriam o Motel e a casa dos Bates. A informação visual surge com o filme de 1960, que mantém a característica de uma instalação precarizada pela falta de manutenção, mas organiza geograficamente a posição do Motel (incluindo o seu luminoso) e da casa, ao fundo (Fig. 36)
Figura 36 - Motel e residência dos Bates em Psicose.
Fonte: Psicose, 1960.
Da mesma forma que visto em Batman, a nova obra insere um cânone que facilita o reconhecimento do mundo ficcional. A partir disso, a casa torna-se referência nas sequências cinematográficas, ao ponto de ser incluída nos cartazes dos filmes (fig. 37)
Figura 37 - Cartazes das sequências Psicose II, III e IV.
Não apenas a casa, mas também o Motel em si recebe este mesmo tratamento na produção de Bates Motel. A diferença está no fato de que os acontecimentos na série retratam a adolescência de Norman, ou seja, o Motel não passou pelo período de decadência proporcionado pela construção de uma nova estrada. (fig. 38)
Figura 38 - Motel e residência dos Bates em Bates Motel.
Fonte: Bates Motel, 2015.
O tema da construção da estrada, por si só, surge nas discussões e nos acontecimentos da narrativa em Bates Motel (fig. 39), de forma a dar conta desta relação temporal.
Figura 39 - Norma Bates reclama sobre a construção da estrada.
Fonte: Bates Motel, temporada 1, episódio 9.
Esta busca por justificativas na construção do inventário do mundo se faz presente na relação entre outros entes de Psicose em Bates Motel. Os animais empalhados presentes no filme, explicados no livro por Norman como um hobby, são apresentados na série com o adolescente Norman aprendendo as técnicas de taxidermia com a personagem Will Decody (fig. 40).
Figura 40 - Animais empalhados em Psicose e Bates Motel.
Fonte: elaborado pelo autor.
Até mesmo o visual da personagem é tratado como cânone e a produção dos atores é tratada de forma ao adolescente de Bates Motel ser verossímil ao Norman adulto de Psicose (fig. 41).
Figura 41 - Caracterizações de Norman Bates em Psicose e Bates Motel.
Fonte: elaborado pelo autor.
Ainda que se perceba relativa importância na estética dos entes do inventário apresentados nos filmes e na série de televisão, é preciso observar que os acontecimentos da narrativa têm direta conexão com o comportamento da personagem Norman Bates sendo, portanto, discutidos a partir da camada de ações e motivações.
4.2.2 Ações e motivações
Por haver uma grande proximidade com o mundo primário, as dimensões de ações e motivações – epistêmica, alética, deôntica e axiológica – são também semelhantes à da realidade vivida. No entanto, é possível dizer que há certa concentração de elementos na constituição das personagens que acentuam as discussões em torno do que é considerado bom ou ruim (dimensão axiológica) e daquilo que é permitido ou proibido (dimensão deôntica). Efetivamente, a composição da relação de poder entre Norman e sua mãe, Norma, é justamente a base de todas as obras no mundo de Psicose/Bates Motel. Nem por isso, os dilemas morais se limitem a eles: a série, em especial, explicita os questionamentos morais nas ações das personagens de forma bastante ampla.
A apresentação do mundo ficcional de Psicose/Bates Motel geralmente fica restrita ao território da cidade - Fairvale ou White Pine Bay – e o inventário, composto em especial pelo Motel, pela casa e pelos itens que os compõem. Apesar disso, o inventário só se faz completo pela presença dos personagens. Percebe-se que o
mundo é incompleto (ou não-totalizante como em Gabriel), em especial em Psicose. Em Bates Motel há uma expansão, com apresentação de novos personagens e territórios.
Como dito, o nível de secundaridade se mantém extremamente baixo, não tendo nenhum tipo de influência da fantasia ou de ficção científica. Um dos pontos chaves para a compreensão do campo de sentido, da secundaridade e também da relação entre narrativas dentro do sistema é a flexibilização da temporalidade, percebida na organização entre as diferentes narrativas da franquia.
4.2.3 Reescrita pós-moderna e sistema de entretenimento
Nas obras de Robert Bloch, temos a data de nascimento de Norman Bates como 1928, situando os acontecimentos de Psicose aos seus quarenta anos, ou seja, 1968. O primeiro filme, produzido em 1969 tem todos índices estéticos para o reconhecimento deste período de tempo, facilitados pela distância de apenas poucos anos entre o que o livro representa e a produção do filme.
Apesar disto, Bates Motel assume uma temporalidade estética curiosa: diferente do visto em Gotham, a série assume a contemporaneidade na sua relação com o mundo primário. Acredita-se que esta seja uma opção de produção, visto que o custo da produção de toda uma série situada nos anos 50 ou 60 poderia dificultar ou ainda inviabilizar o projeto.
O eixo narrativo não se perde, já que na anteriormente citada horizontalidade (Barthes, 1973) a adolescência de Norman antecede os fatos da vida adulta. O que se torna único neste arranjo entre Psicose e Bates Motel é que a adolescência tem índices estéticos dos anos 2010 e a vida adulta, do final da década de 1960 e, nas sequências cinematográficas, dos anos 1980.
Há uma tentativa evidente de dissociar a figura de Norman e de sua mãe deste “equívoco” temporal: suas vidas são simples, fortemente limitadas pelo cotidiano do Motel e de sua casa. Lá as personagens pouco interagem com a tecnologia, a decoração dos ambientes é antiga, bem como os carros utilizados pelos dois, que
ainda utilizam figurinos que pouco assinalam a relação de época com o mundo primário (fig. 42).
Figura 42 - Direção de arte em Bates Motel.
Fonte: http://yvrshoots.com/2012/11/psycho-prequel-series-bates-motel-films-in-steveston-with-losts- nestor-carbonell.html, acessado em 14/02/2017;
Por outro lado, as demais personagens parecem descoladas desta dependência dos anos 1950/1960. A começar por Dylan, meio irmão de Norman, criado para a série. Este, tem um visual bastante contemporâneo, dirige carros com características dos anos 2000 (fig. 43) e faz uso de tecnologias recentes como a do telefone celular.
Figura 43 - Personagem Dylan dirigindo pick-up anos 2000.
Fonte: Bates Motel, 2015.
Dylan e outras personagens criadas para a série – Emma Decody, Xerife Alex Romero, Bradley Martin, Caleb Calhoun – parecem ser índices da contemporaneidade na relação do mundo ficcional com o primário. Não apenas na sua existência, mas nos espaços geográficos que estas personagens costumam estar há uma aproximação da temporalidade que não parece existir quando a narrativa está focada em Norman e Norma Bates.
É preciso deixar claro que esta distorção do tempo é uma percepção da análise na comparação entre os diferentes produtos – Psicose (1960) e Bates Motel (2013) – e não uma particularidade da narrativa ou do mundo ficcional. Não há nenhum tipo de viagem no tempo ou deslocamento temporal como parte de nenhuma das narrativas, apenas na relação entre os produtos.
Isso quer dizer, em última instância, que apesar de parecerem situados em um mesmo mundo, o inventário é diferente: em Psicose, pela data, a tecnologia é diferente de Bates Motel. Os campos de sentido compartilham de aspectos geográficos como a existência do Motel, da casa e das personagens principais.
Seguindo-se o modelo teórico proposto por Doležel (1998) o que a relação entre as obras do mundo ficcional de Psicose e Bates Motel explicitam é uma reescrita pós-moderna de transposição e modificação. Enquanto os livros de Robert Bloch e os três filmes parecem expandir o mundo, a série de televisão apresenta uma nova temporalidade, uma outra localização geográfica – transposição – e diferentes acontecimentos narrativos – modificação (fig. 44).
Figura 44 - Reescrita pós-moderna em Psicose/Bates Motel
Fonte: elaborado pelo autor.
Há nesta relação uma organização curiosa do sistema, ao passo que Bates Motel proporciona uma experiência semelhante à de Psicose, com o mesmo tipo de dilemas morais e relações de poder, porém em narrativas desconexas. Uma desconexão, talvez, imperceptível para o público pela imersão no mundo. O cânone do Motel e da casa, somados à presença das personagens parece tão forte que torna estes desvios, bem como a alteração do nome da cidade, em fatos irrelevantes para a experiência de acompanhar a adolescência de Norman Bates.
No eixo horizontal da narrativa, os acontecimentos propostos por Bates Motel não levariam para os acontecimentos propostos por Psicose. Apesar disso, no eixo vertical, o dos índices, todos acontecimentos em Bates Motel justificam e dão bases para os acontecimentos de Psicose, sua inspiração.
Esta relação parece única quando se comparam produções cinematográficas de prequels36 e sequências. O modelo produtivo da televisão exigiu que a relação entre as produções se tornasse mais tênue e, ao mesmo tempo, mais rico para a análise, favorecendo uma dimensão indicial do que narrativa. Esta percepção abre uma porta para a discussão da experiência no mundo ficcional: de que forma conseguimos identificar e conectar estas obras mesmo quando suas narrativas não o fazem? Em Batman as diferenças de abordagens narrativas remetem à construção mitológica. Será que pode se dizer o mesmo de Psicose/Bates Motel?
O fato é que independente da conexão horizontal na narrativa, a intenção de Bates Motel parece ser uma experiência do mundo ficcional de forma mais empática com relação à personagem de Norman Bates.