CAPITULO 4 Contra-hegemonia e fragmentação
4.1 PT e a ascensão da contra-hegemonia
O Partido dos Trabalhadores foi, pelas diversas referências bibliográficas utilizadas nesta pesquisa, um partido com uma concentração considerável de grupos revolucionários brasileiros. Nenhuma aponta que o mesmo foi, de fato, um partido revolucionário ou mesmo, como defendia a DS em 1987, um partido revolucionário em construção.
Para o historiador Eurelino Coelho, no entanto, até 1989 o PT moveu e liderou a classe trabalhadora em torno de um projeto de “contra-hegemonia” ao Estado capitalista brasileiro. A base desta conclusão teórica se dá por entender que o projeto petista, assim como seu principal núcleo de direção teve uma relação com premissas dos grupos marxistas revolucionários para a construção de seu partido socialista.
A presença de alguns elementos e critérios importantes para definir o PT como projeto contra-hegemônico, também será decisivo para a afirmação de que tal projeto sobre uma crise na virada da década de 1990, devido ao abandono destes critérios e características.
Mesmo Coelho trata como “estranho” a inclusão da tendência da Articulação entre grupos que estariam no campo do marxismo e, portanto, atingidos diretamente por uma “crise do marxismo” que ocorreria concomitantemente ao abando do PT de seu projeto contra-hegemônico. Mas, mesmo sendo o grupo responsável por diversas rejeições à inclusão “nos documentos programáticos do Partido dos Trabalhadores afirmações explicitas de filiação do partido ao marxismo” (COELHO, 2005, p. 34).
O contexto histórico é fundamental para compreender a tese de Coelho sobre o PT e seu núcleo político dirigente. Nele encontra-se a localização histórica do partido, do lado da classe trabalhadora na luta de classes brasileira:
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(...) Nas lutas sociais daquele contexto atuam claramente dois contendores principais: setores da classe trabalhadora e representantes do capital. O caráter de classe das lutas é mais evidente no caso das greves, que foram momentos de enfrentamento direto entre patrões e empregados. Mas havia outros movimentos “explodindo” na mesma conjuntura. Assim como as greves não vieram do ar, também estes movimentos têm suas raízes plantadas ao longo dos anos 70, frequentemente associados a organizações da Igreja Católica. (Idem, p. 42)
Coelho argumenta que a “objetividade da sua condição de classe” fazia dos petistas uma ameaça inigualável para o poder capitalista burguês. As experiências de greves e diversas lutas sociais que foram apoiadas pelo novo partido operário, e muitas dirigidas pelo mesmo, seria essencial para formar milhares de novos sujeitos coletivos educados numa forma de fazer política alternativa, ao que era visto na política tradicional hegemônica.
A parte essencial do grupo dirigente do partido que veio a formar a Articulação (o grupo de sindicalistas em torno de Lula) foi também formado a partir das experiências de luta da classe trabalhadora e isso tem relação direta com a persistência do grupo na defesa da “independência da classe trabalhadora”, referencial de sua ação e discurso contra- hegemônico.
Se por um lado a ação motivada pelo PT no seio da classe trabalhadora, a partir das greves do ABC, posteriormente greves gerais, campanhas Diretas Já, e a fundações da CUT eram objetivamente confirmações práticas de enfrentamento de classes, o tema do socialismo não foi exatamente abandonado. E apesar de polemizar constantemente com “correntes de inspiração leninista”, seus discursos defendiam uma “sociedade justa, livre e igualitária” e uma “sociedade sem exploradores” como expressão de sua visão socialista (Idem, p. 62).
Para Coelho, portanto, o que credenciava a Articulação como campo dirigente de um projeto contra-hegemônico era sua capacidade de sustentar “o princípio da independência de classe” da seguinte forma:
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Os três elementos do princípio da independência de classe encontram-se neste texto: a qualificação classista dos sujeitos políticos, o privilégio da democracia interna e a afirmação da independência de classe. O trabalhador é aquele a quem o discurso interpela, o partido é dele, mas aqui encontramos uma modulação diferente da fórmula “Partido sem patrão”: o partido está aberto também para os que aceitam seu programa. Não existe um PT verdadeiro que se coloca de um lado ou de outro desta polêmica em torno do slogan “Partido sem patrão”. Esta tensão é uma das manifestações do conjunto de relações políticas que constitui o próprio PT e, durante os primeiros anos, o próprio grupo hegemônico é atravessado por ela. (Idem, p. 66)
No entanto, a Articulação tinha em seu projeto uma preocupação assoberbada das questões da conjuntura nacional dos anos 1980. Considerava, por exemplo, que em 1988, a luta pela Constituinte não seria decisiva para a conquista do socialismo, mas enxergava que uma vitória na votação da nova Constituição brasileira “proporcionaria espaço para o acúmulo de forças, para lutar pela democratização radical da sociedade”. O grupo liderado por Lula entendia que ao “inscrever direitos como o direito de greve, enfim, para propor medidas que desde já ajudam a realizar a socialização da política”, se abriria espaço para que o PT demonstrasse em processos concretos “a natureza da crítica que fazemos ao capitalismo” e, assim, travariam publicamente o “debate ideológico com a burguesia” (Idem, p. 84).
A perspectiva da Articulação de “acúmulo de forças” era polêmica para a esquerda partidária. Estas divergências aparecem nas discussões do 5º. ENPT, “no delineamento do projeto democrático e popular (PDP), que seria a base da elaboração do perfil da candidatura Lula”, além da “Resolução sobre as Tendências” que “tentava ordenar, segundo a ótica da Articulação, a convivência entre as forças políticas constitutivas do PT”.
A resolução política aprovada pela maioria continua apontando a burguesia como a classe ‘inimiga principal das mudanças e dos trabalhadores’, mas faz duas ressalvas: não estão no ‘campo da burguesia parcelas significativas de pequenos e microempresários urbanos e rurais’ e
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é preciso aproveitar ‘as contradições momentâneas entre os diversos setores da burguesia’ através de alianças táticas ou pontuais. (Idem, p. 86)
Segundo Coelho, o PDP apontava para “acordos pontuais com a burguesia”, uma novidade na defesa política da Articulação naquele Encontro e que somente seria referendado pelas experiências de prefeituras a partir de 1989, influenciando também a linha política da campanha presidencial de Lula.
Além da aliança estratégica, a Articulação propunha uma política de alianças táticas com outras forças políticas na Constituinte, na luta sindical e popular, no parlamento e em eleições. O projeto democrático e
popular e as resoluções sobre tendências e sobre a proporcionalidade
tornaram-se objeto de intensa polêmica durante e após o Encontro. Algumas correntes de esquerda tinham formulações radicalmente contrárias à constituição de frentes populares, outras viram no documento uma reedição da teoria etapista da revolução, quase todas eram contrárias à possibilidade de alianças com partidos burgueses e todas criticavam as resoluções sobre proporcionalidade e sobre a regulamentação das tendências. Em abril de 1988 a Articulação realizou um Seminário Nacional em que uma das questões principais era a existência de ‘uma guerra no partido, contra a linha do 5° [ENPT]’ e, naturalmente, contra a Articulação que a sustenta e aplica. (Idem, p. 87)
Em meio a estas contradições, ainda assim Coelho tratou a mobilização em torno da campanha presidencial de Lula um processo exemplar do enfrentamento entre as classes sociais no país.
Uma porção poderosa da classe trabalhadora estava, mais uma vez, em movimento. Agora não mais, como dez anos antes, fragmentada em greves por categorias ou movimentos sociais específicos, mas unificada através de um projeto político que se expressava na candidatura Lula à presidência do país. Trabalhadores voltaram a encher as praças, aos milhares. Dessa vez, porém, não era para protestar ou para reivindicar direitos: tinham um projeto para o país, construído sobre a experiência
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coletiva de fazer política com independência de classe, a experiência de elaborar um projeto de contra-hegemonia. Com esse projeto, desafiavam seriamente a direção política da burguesia sobre a sociedade. No segundo semestre de 1989 os trabalhadores lutavam pela hegemonia. Fizeram ecoar pelo país inteiro o seu lema: sem medo de ser feliz. (Idem, p. 91)