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CAPÍTULO V – O QUADRINHO E O ENSINO DE HISTÓRIA

5.3 PRÁTICAS EDUCATIVAS SOBRE A DITADURA CIVIL-MILITAR EM BÉLEM E O ENSINO DE HISTÓRIA SOB A ÓTICA DA ARTE SEQUENCIAL

5.3.2 Quadrinho 2 – Os Antecedentes Históricos do Golpe de

5.3.2.1 Roteiro

Essa narrativa tem como recorte histórico os antecedentes que marcam o golpe, mais precisamente o dia 30 de março de 1964, por ocasião do SLARDES (1º Seminário Latino Americano sobre Reforma Universitária), ocorrido no auditório da Faculdade de Odontologia, no bairro de Batista Campos. Esse acontecimento foi marcante, pois tratou de uma tentativa de repressão direta por parte de militantes de direita, já compactuados com setores militares, liderados por Jarbas Passarinho.

A tentativa de repressão ocorreu na ocasião da abertura do evento, quando a fala de abertura da SLARDES estava com o representante da Nicarágua e, aos gritos de ―vamos acabar com esta merda, bando de comunas, filhos da puta‖, um grupo de jovens, filhos de fazendeiros, liderados por Mickey Lobato (Guilherme Henrique Lobato), invadiram a

cerimônia de abertura com a intenção de empastelar o encontro, envelopados com lenços brancos no pescoço e munidos de porretes nas mãos invadiram o auditório determinados a provocar o fim do seminário.

Usavam lenços brancos no pescoço justamente para se diferenciarem dos demais presentes no evento, devido a um acordo de bastidores feito em conluio com a Polícia Militar, por intermédio de Jarbas Passarinho, a qual usaria de força repressiva contra todos aqueles que não estivessem com o referido lenço; por sorte e habilidade, quando a polícia chegou ao local, a situação já havia sido contornada.

Nota-se, a partir desse dia, que havia uma organização de direita atuante dentro da universidade.

Mais tarde, esse acontecimento demonstraria que, na verdade, a intenção dos setores conservadores era o de censurar as vozes que demonstravam interesse em apoiar as reformas de base propostas por João Goulart. Tal perseguição ficou explícita quando ocorreu a invasão da sede da União Acadêmica Paraense.

5.3.2.2 Objetivos Pretendidos

Aproveitando o assunto da primeira narrativa gráfica, pode-se mobilizar a memória a fim de promover o trânsito entre o empirismo do cotidiano e os conceitos históricos.

Nesse sentido, o objetivo pretendido ao tratar da questão da memória relacionada à Ditadura Civil-Militar é valorizar a pluralidade das memórias históricas proporcionadas pelos mais variados grupos sociais, vislumbra-se mobilizar a consciência histórica, com fins de criar possibilidades de sua utilização como um direito do cidadão e, a partir disso, identificar o papel e a importância da memória histórica para a vida presente da população.

Além do trato com a questão da memória, pode-se objetivar também a discussão sobre as relações classistas de poder nas diversas instâncias da sociedade, como as organizações do trabalho e as instituições da sociedade (sociais, políticas, étnicas e religiosas), orientando os alunos na construção e/ou na apropriação de uma identidade de classe.

5.3.2.3 Opções de aplicação da HQ em Sala de Aula

As aplicações em sala de aula são possibilidades de trabalho do Ensino de História, utilizando a linguagem das HQs em vinculação às proposições sugeridas pelo MEC das orientações curriculares para o Ensino Médio.

Em relação ao trato objetivado referente à questão da memória, vamos aproveitar o tema utilizado no Quadrinho 1, relativo à temporalidade, da exemplificação de uma memória pessoal, intencionando sair desse campo mais micro para uma possibilidade de exemplificação mais macro, entrando em ação a HQ como ferramenta gráfica que pode auxiliar ao intento.

Mesmo não sendo uma narrativa gráfica estritamente autobiográfica, a leitura de seus quadrinhos busca retratar as situações vivenciadas no cotidiano e, ao analisar essas narrativas gráficas, a reconstituição dos fatos presentes narrados carrega certas memórias do autor, do pesquisador, do roteirista e do quadrinista, ou seja, tal narrativa não é uma reconstituição dos fatos a que se refere, tal como aconteceram, mas representa o modo como cada membro desse elo relembra, apreende e reproduz os fatos, tal qual eles gostariam que ficasse registrado para a posteridade.

É possível provocar a mobilização da consciência histórica traçando um paralelo comparativo em relação ao espaço físico, bairro da Batista Campos, onde a ação dos acontecimentos é vivida. Pode-se utilizar a conhecida praça do bairro como referencial de localização espacial, tendo como finalidade aproximar a realidade urbanística atual aos acontecimentos que envolveram a ditadura civil-militar.

Propiciar ao aluno a aproximação da realidade histórica ao seu contexto de vida presente significa construir junto com ele pontes de conhecimento em relação à memória da cidade, incentivá-lo à consciência crítica das suas relações com a memória dos espaços que ele frequenta, dando ao mesmo a possibilidade de saber que aquele determinado local traz consigo uma historicidade que o pertence como cidadão.

Essa formação da identidade visa que o alunado se reconheça como agente que participa diretamente da História e que suas atitudes e posturas contribuem diretamente para a preservação da memória, assim como para sua modificação.

No caso da Ditadura Civil-Militar, o interessado em trabalhar essa temática deve sugerir o avivamento dessa memória com fins de recordar como esse período ficou marcado pelo cerceamento das liberdades democráticas. Nesse caso, devem-se discutir alguns conceitos históricos contraditórios como: O que é democracia? O que é ditadura? O que é revolta? O que é golpe? O que é revolução?

O mediador desse debate deve estar atento para apontar as diferenças entre esses conceitos, haja vista que em 2018, durante as campanhas eleitorais, foi bastante difundida uma narrativa tradicional, tratando o fato ocorrido em 1964 como uma revolução, não como um golpe.

Essa discussão teórica deve ser feita com cautela, utilizando o próprio livro didático de maneira a complementar a pesquisa.

Diante disso, a HQ servirá como uma literatura capaz de exemplificar as relações de poder que existiam na época, seus agentes, seus métodos, enfim, a sequência gráfica traz um conteúdo ilustrativo, oferecendo uma narrativa com início, meio e fim, quadrinizando uma ideia de aspectos da vida social presente na discussão teórica conceitual.