6. ESTUDOS DE CASO
6.3. Quadro Conceptual – Uma Nova Proposta de Análise
Posto isto, a atenção torna-se então para o quadro conceptual para análise de pro-jectos que englobam tudo o que até aqui tem vindo a ser explicado. Bebendo dos princí-pios, ideias e considerações próprios destes movimentos e tipos de expressão artística verifica-se a existência de algumas características que se repetem, e outras que melho-ram ou ajudam a definir certos projectos e redes de artistas. É em grande parte inspirado na leitura e análise da obra Hackers: Heroes of the Computer Revolution de Steven Levy (LEVY, 2010). Assim propõe-se:
1. Partilha
2. Estrutura aberta 3. Descentralização 4. Intermedia
5. Melhoramento da vida
1. Partilha
Mas porquê estes princípios? Primeiro, partilha porque estes têm de ser e são projectos que vivem do networking, são projectos desenvolvidos em comunidade, vi-vem da partilha de experiências, de visões diferentes, entre artistas de todo o mundo e é isso que os torna trabalhos em rede. Tal como verificámos nos movimentos estudados, esta é uma característica transversal a todos eles. Pode-se verificar essa característica tanto nos trabalhos Fluxus com manifestações como os happenings, ou nos envios e reenvios da Mail Art adicionando sempre algum elemento novo a cada reenvio. A net art, que utiliza a própria rede, e aqui entenda-se rede por comunidade, e o trabalho de-senvolvido na e através da Internet como a sua força motriz. A mesma característica é verificável nas comunidades hackers, as quais só tiveram oportunidade de desenvolvi-mento através da partilha entre os primeiros hackers, uma atitude que se manteve e foi a grande catalisadora da emergência destas mesmas comunidades. No caso do hacktivis-mo e da Hacker Art a questão é similar à verificada nas comunidades hackers, já que como vimos, estas duas manifestações advém directamente destas mesmas primeiras comunidades de hackers do MIT.
74 2. Estrutura aberta
Para poder existir partilha é necessária a presença de uma estrutura aberta no que diz respeito à obra de arte. É necessária a existência de uma facilidade por parte dos intervenientes, e aqui englobam-se não só os produtores mas também os utilizadores que por sua vez se tornam produtores, em aceder, melhorar e/ou modificar a obra de arte. Esta característica tem muitos ecos, na estrutura de trabalho desenvolvida pelas comunidades de Mail Art. A prática de adicionar algo a uma obra de arte pré-existente para depois reenviar para outros artistas retrata perfeitamente o que se entende aqui por estrutura aberta. Outro exemplo que espelha muito bem este conceito é o trabalho de-senvolvido pelas primeiras comunidades hackers do MIT. O facto de guardarem em arquivo todo o seu trabalho, o seu desenvolvimento e melhoramento de código constan-te, também promoviam, nos seus laboratórios, os melhores desenvolvimentos dos traba-lhos para que todos os constituintes da comunidade o pudessem ver e até manipular do sentido de o melhorar. Estas práticas são também visíveis nas comunidades de net art, onde, como já verificámos, o plágio e a modificação dos trabalhos de outrem não são atitudes condenáveis e antes consideradas elas próprias arte em si.
3. Descentralização
Para que um projecto deste tipo tenha realmente sucesso não se pode confinar a uma pequena área geográfica, tem de ser expansível, tem de ser descentralizado. Nesse sentido a Internet, hoje em dia, é sem dúvida nenhuma uma mais valia. Mas ainda assim descentralização neste sentido consiste num alargamento da rede num sentido mais glo-bal. Redes constituídas por pequenos grupos de pessoas num pequeno espaço geográfi-co não são um bom exemplo das capacidades de uma rede artística. Este princípio pren-de-se com o seu antecessor no sentido em que a melhor maneira de promover o livre intercâmbio de informações é possuir um sistema aberto e sem burocracias. Um acesso e um fluxo livre de informação à semelhança da ética hacker. Os processos descentrali-zadores constituem a transferência de autoridade no planeamento e na tomada de deci-sões bem como no desenvolvimento do trabalho, e é nesse sentido que esta é também uma característica transversal a todos os movimentos estudados nesta investigação. É uma característica que se verifica tanto no movimento Fluxus, que se expandiu desde Nova Iorque, à Alemanha, Europa de Leste e Japão mas também na Mail Art, que é co-mo vico-mos, um co-movimento a nível global. A net art, que somente pelo facto de utilizar a
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Internet como medium e como musa inspiradora depreende um multiverso de locais possíveis e portanto totalmente descentralizada. O mesmo acontece com os hackers, a Hacker Art e o hacktivismo, que apesar de não se encontrarem totalmente confinados à Internet, tomam partido das suas capacidades para promover as suas agendas e estraté-gias de relacionamento dentro das suas comunidades conseguindo assim descentralizar-se.
4. Intermedia
Qualquer projecto deve albergar em si uma intermedialidade, ou seja, trabalhos criativos que estão formalmente e conceptualmente estabelecidos entre vários media.
Importante também neste caso é o facto de o termo intermedia abraçar o analógico e o digital; o residual e o emergente. Compreende em si um conjunto de diferentes aborda-gens ao design gráfico e tipografia, ilustração, animação stop-motion, narrativa interac-tiva, motion graphics, web design, etc. Trata-se da capacidade de reconhecer e definir problemas de comunicação, e então desenvolver soluções inovadoras e apropriadas. A melhor manifestação dessas ideias criativas será verdadeiramente intermedial, no senti-do em que dará fruto a soluções híbridas ou liminares. Dick Higgins quansenti-do cunhou o termo, em meados dos anos 60, pretendia descrever o cruzamento das fronteiras dos media reconhecidos ou mesmo a fusão dos limites da arte com media que não tinham sido previamente considerados como formas de arte, incluindo computadores. Esta é portanto, como pudemos ver nesta investigação, uma característica bastante presente nos movimentos estudados.
5. Melhoramento da vida
Melhoramento da vida num sentido mais lato do termo, à semelhança do Fluxus e da ética hacker, é um melhoramento não só no sentido activista de tentar proactivamen-te mudar ou melhorar algo com um deproactivamen-terminado projecto mas também com o próprio processo de criação em rede. Em muitos casos, o espectador é transformado num co-produtor ou participante criativo, conduzindo assim a uma integração, ou fusão, dos processos de produção e recepção que actuam directamente sobre a arte e a vida destes intervenientes sendo nesse sentido também, que melhora a vida dos mesmos e de ou-tros.Como vimos anteriormente, o Fluxus era um movimento muito preocupado com a superação da distância entre a arte e a vida. Também a Hacker Art pretende colocar a arte e a vida no mesmo patamar, e demonstrar que de facto não existe qualquer tipo de
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barreira a ser quebrada. Estes são excelentes exemplos, daquilo a que queremos deno-minar melhoramento da vida.
Será este o conjunto de ideias que irá ser aplicado aos estudos de caso no sentido de os analisar. Obviamente, estes não serão apenas analisados sob a luz destas novas ideias, mas também pelo estabelecimento de paralelismos entre os projectos escolhidos e os movimentos dos quais falámos ao longo desta investigação.
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