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QUADRO 5 – EXEMPLOS DE TRANSFERÊNCIA: ESTRANGEIRISMOS

SEGUNDO ATO, CENA II

[…]

NICIA: Bona dies, domine magister.

CALLIMACO: Et vobis bona, domine

doctor.

[…]

NICIA: […] Ma torniamo ad rem nostram. […]

CALLIMACO: […] Nam cause sterilitatis

sunt: aut in semine, aut in matrice, aut in instrumentis seminariis, aut in virga, aut in causa extrinseca.

[…]

NÍCIAS: Gude mórningue, sêr.

CALÍMACO: Good morning to you, too, sir. […]

NÍCIAS: […] Mas voltemos tchu áur

bísnesse.

[…]

CALÍMACO: […] In fact, there are several

causes for sterility, that may depend on semen, female reproductive system, testicles, penis or other extrinsic causes.

Enquanto nossa tradução entre duas línguas que utilizam o alfabeto romano não envolveu nenhum processo de transliteração, ou seja, de substituição de uma convenção gráfica por outra, os exemplos introduzidos há pouco mostram também o recurso à aclimatação, procedimento de transferência em que “os empréstimos são adaptados à língua que os toma” (BARBOSA, 2004, p. 73). Como é possível observar, o inglês nas falas de Nícias foi aclimatado à fonética do português brasileiro, coerentemente com o processo de adaptação da peça, em que o mesmo personagem alega ter sofrido muito para aprender “o verbo to be”. Enfim, não foram utilizadas explicações para os estrangeirismos através de notas de rodapé ou da diluição do texto.

4.2.11 Explicação

Neste tipo de procedimento os estrangeirismos são eliminados, e substituídos por sua explicação, de forma que a compreensão seja imediata, como pode acontecer nas peças de teatro (BARBOSA, 2004, p. 75).

As caraterísticas prevalentemente domesticantes do processo de tradução analisado neste trabalho, em que muitos termos e situações relativos à língua e à cultura de partida foram adaptados à língua e à cultura de chegada, tornaram desnecessário o recurso ao procedimento da explicação.

4.2.12 Decalque

Segundo Barbosa (2004, p. 76), o decalque “consiste em traduzir literalmente sintagmas ou tipos frasais” da língua de partida no texto da língua de chegada. A pesquisadora (ibidem) distingue entre o decalque de nomes frasais, – por exemplo, task force e case study, traduzidos respectivamente como “grupo tarefa” e “estudo de caso” – e o decalque de tipos frasais concernentes nomes de instituições, como The People’s Republic of China, traduzido como “A República Popular da China” (BARBOSA, 2004, p. 76).

Como no caso da explicitação, as estratégias predominantemente domesticantes utilizadas no presente trabalho tornaram dispensável o uso do decalque.

4.2.13 Adaptação

A adaptação é definida por Barbosa (2004, p. 76) como “o limite extremo da tradução”, já que se utiliza quando a situação à qual se refere o texto na língua de partida “não existe na realidade extralingüística dos falantes da LT”, ou seja, dos falantes da língua de chegada. A pesquisadora (ibidem) ressalta que é possível recriar tal situação através de outra equivalente na realidade extralinguística da língua de chegada.

O procedimento de adaptação utilizado neste trabalho será analisado mais detalhadamente na próxima seção deste capítulo; o objetivo da presente seção foi o de mostrar que vários procedimentos tradutórios podem – e, em alguns casos, devem – ser usados dentro da mesma tradução, sendo que todo texto possui suas peculiaridades e seus desafios específicos no que diz respeito ao processo de tradução.

4.3 UMA TRADUÇÃO HÍBRIDA

No capítulo anterior, dedicado aos pressupostos teóricos, a estratégia de tradução utilizada no presente trabalho foi definida como híbrida e prevalentemente domesticante. Nesta seção, com a exceção de algumas escolhas tradutórias de teor estrangeirizante, serão ilustradas e comentadas as opções de tipo domesticante usadas na tradução da peça La

Mandragola que justificam tal definição, e que comprovam também a presença constante do

procedimento de adaptação ao longo do texto de chegada.

4.3.1 Os nomes dos personagens da peça

Os nomes dos personagens da comédia no texto de partida – Callimaco, Nicia, Ligurio, Siro, Lucrezia, Timoteo e Sostrata – foram mantidos no texto de chegada: contudo, tratando-se de nomes de origem grega ou latina, a grafia foi adaptada à forma com que estes são geralmente escritos em português – Calímaco, Nícias, Ligúrio, Siro, Lucrécia, Timóteo e Sóstrata. Vale a pena ressaltar que tal escolha, que consideramos estrangeirizante, o era também no texto de partida, não se tratando, na maioria dos casos, de nomes típicos da Florença renascentista, e sim de uma espécie de elo intertextual estabelecido por Maquiavel entre sua comédia e as comédias gregas e latinas da antiguidade.

4.3.2 A língua de prestígio

No texto de partida, o latim possui o papel de língua de prestígio, o que reflete a situação sociolinguística da Europa renascentista. Como mostramos na seção anterior deste capítulo, a estratégia tradutória escolhida foi a de substituir o latim pelo inglês, idioma cuja função na contemporaneidade é também a de língua de prestígio em relação aos outros idiomas.

A nosso ver, embora tal escolha seja domesticante, em seu adaptar o cenário sociolinguístico às exigências da contemporaneidade, por outro lado pode ser também considerada estrangeirizante, no que diz respeito ao introduzir novos estrangeirismos – não mais ligados à língua latina, mas sim à língua inglesa – no idioma do texto de chegada.

4.3.3 As canções na peça

As cinco canções presentes na peça, e o prólogo – que será analisado na próxima subdivisão desta seção – a nosso ver caracterizam La Mandragola como gênero textual híbrido, em que traços líricos misturam-se com os traços dramatúrgicos predominantes. Na tradução das canções, diferentemente do prólogo, optamos por manter o mesmo tipo de versos e a mesma distribuição das rimas presentes no texto de partida, como é possível observar nos dois exemplos do seguinte quadro:

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