3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS
3.1. Quadro geral do Município Eis Juiz de Fora
Viva a Princesa de Minas, Viva a bela Juiz de Fora, Que caminha na vanguarda Do progresso estrada a fora! “omissis”
Das cidades brasileiras Sendo a mais industrial, Na cultura e no trabalho Não receia outra rival.
“omissis”
Demos palmas, demos flores Aos encantos da Princesa! Ela é rica de primores Da poesia e da beleza.
(Hino da cidade de Juiz de Fora)
O trecho acima mostra algumas das características recorrentemente atribuídas à cidade de Juiz de Fora. Situada no interior do estado de Minas Gerais, na Zona da Mata, é conhecida como um importante polo cultural, industrial e educacional. O município, de porte médio – com um pouco mais de 500 mil habitantes, segundo dados do IBGE – encontra-se próximo a duas capitais: Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Apesar de vários indicativos favoráveis à qualidade de vida na cidade, o aumento da criminalidade aparece como tema recorrente em diversas reportagens locais, principalmente a partir de 2012. O jornal “Tribuna de Minas”, mídia impressa de maior circulação no Município, veiculou, em março/abril de 2013, por exemplo, notícias relacionadas à violência local em uma série jornalística denominada “A Escalada da Violência”.
Os dados oficiais fornecidos pela Polícia Militar de Minas Gerais indicam um aumento significativo dos números de crimes violentos na cidade. Série de crimes violentos (incluso homicídios tentados/consumados, estupros tentados/consumados e roubos consumados):
JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ SOMA
2010 120 83 75 76 112 107 91 131 124 88 111 84 1202 2011 106 85 105 93 75 87 67 67 86 98 115 101 1085 2012 74 87 66 95 87 71 69 83 95 106 136 153 1122 2013 160 149 158 119 126 120 123 138 109 116 134 143 1595 2014 155 188 143 162 152 121 146 143 157 135 151 116 1769
Série de homicídios consumados:
JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ SOMA
2010 02 07 06 02 03 02 04 04 02 05 02 06 45 2011 06 04 03 07 02 03 02 03 01 05 06 04 46
2012 02 04 08 04 06 02 08 07 07 10 07 65
2013 08 12 13 07 07 04 09 05 13 05 09 11 103 2014 12 17 08 14 11 04 06 06 08 12 09 10 117
Fonte: 4ª Região de Polícia Militar de Minas Gerais.
Série de homicídios tentados:
JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ SOMA
2010 13 06 04 08 13 09 08 08 18 13 03 09 112 2011 20 12 11 13 02 10 06 05 18 16 15 12 140 2012 07 12 06 17 10 09 11 10 16 11 19 24 152 2013 27 27 24 17 08 23 15 20 12 17 13 24 227 2014 24 21 17 20 13 15 21 17 21 25 14 22 230
Fonte: 4ª Região de Polícia Militar de Minas Gerais.
A partir destes dados, é possível perceber que, em um período de 04 (quatro) anos, a Polícia Militar registrou um aumento de 160% de ocorrências de homicídios. No mesmo período, o aumento foi de 102% em relação às ocorrências de homicídios tentados. Em relação aos crimes violentos, o aumento foi de 47%.
O Ministério da Saúde, através do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), registrou em 2012 o maior número absoluto de assassinatos e a taxa mais alta de homicídios desde 1980. Em 2012, 56.337 pessoas foram mortas, acréscimo de 7,9% se comparado ao ano de 2011. A taxa de homicídios, que leva em conta o crescimento da população, também aumentou 7%, totalizando 29 (vinte e nove) vítimas fatais para cada 100 mil habitantes. Verifica-se que o aumento do número de homicídios em Juiz de Fora, no mesmo período – 2011 e 2012 –, foi superior a 40%, índice bem superior à média nacional. (BRASIL, 2014).
Nesse contexto, as discussões sobre as políticas de segurança pública na cidade se fortaleceram. A Câmara dos Vereadores criou uma Comissão para elaborar um Plano Municipal de Enfrentamento à Criminalidade. A violência virou tema de debate na Ordem dos Advogados e, em março de 2013, foi realizado o Seminário “Violência Urbana em Juiz de Fora: O que deve ser feito?”. Em junho de 2013, 70 (setenta) municípios da Zona da Mata, em conjunto com a Polícia Militar, discutiram parcerias para tentar diminuir a criminalidade, em
um Fórum denominado "Ação para prevenção: segurança global da população". No segundo semestre de 2014, ocorreu o I Fórum Municipal de Segurança Pública, evento que se destacou pela mobilização realizada pelos setores comercial e empresarial da cidade. O discurso pela segurança se populariza.
Não é cabível, nesta proposta, investigar as causas que ensejaram o aumento gradativo da violência nos últimos anos em Juiz de Fora. No entanto, entendemos que a análise empírica dos movimentos ocorridos em Juiz de Fora, principalmente após 2013, é importante por trazer reflexões sobre o envolvimento do poder municipal nos debates relacionados à Segurança Pública.
Para além de eventuais golpes retóricos dos agentes e instituições envolvidos, pensamos que as iniciativas de inclusão ativa do Município nos debates sobre a segurança pública devem ser entendidas, hoje, como alternativas potencialmente consistentes para reduzir os índices de criminalidade violenta. De acordo com esse princípio, a criação de instrumentos em âmbito local – ainda que de forma incipiente, como em Juiz de Fora – pode representar um instrumento importante de alteração paradigmática dos contornos gerais das políticas de segurança no Brasil.
A oportunidade de acompanhar os primeiros passos dos eventos ocorridos em Juiz de Fora pareceu-nos interessante, sobretudo, quando percebemos as iniciativas dentro de um contexto de evolução histórica das taxas de criminalidade na cidade. Isto nos permitiu mapear algumas das visões, dos papéis atribuídos aos agentes, das disputas no campo, bem como alguns aspectos que sinalizam dificuldades para o fortalecimento das discussões na cidade.
Vários aspectos dos fatos observados em Juiz de Fora foram apresentados no capítulo anterior, notadamente em virtude de sua relação com os procedimentos metodológicos aqui utilizados. No entanto, algumas descrições de eventos, fatos e percepções obtidos durante a pesquisa de campo – principalmente durante as reuniões – serão apresentadas a seguir, justamente por auxiliarem na compreensão mais completa do material de pesquisa. A busca por uma percepção holística dos fenômenos estudados é percebida por Godoy (1995a) como uma característica básica da pesquisa qualitativa, que tem como preocupação fundamental o estudo e a análise do mundo empírico em seu ambiente natural, dentro de uma abordagem que valoriza o contato direto do pesquisador com o ambiente e com a situação que está sendo estudada.
Visando a compreensão ampla do fenômeno que está sendo estudado, considera que todos os dados da realidade são importantes e devem ser examinados. O ambiente e
as pessoas nele inseridas devem ser olhados holisticamente: não são reduzidos a variáveis, mas observados como um todo” (GODOY, 1995a, p. 62).
Neste sentido, a própria descrição de alguns pontos observados durante a pesquisa de campo pode ser, como veremos a seguir, elucidativa para compreender a dinâmica dos processos ocorridos em Juiz de Fora.
Como dito no capítulo anterior, durante a reunião da Comissão, que ocorreu no dia 10 de outubro de 2013, foi possível mapear as instituições centrais envolvidas com as discussões em Juiz de Fora: a Câmara dos Vereadores, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Universidade Federal de Juiz de Fora, a Prefeitura Municipal, a Polícia Militar, o Centro de Prevenção à Criminalidade, a Polícia Civil e a Polícia Federal. Nesta oportunidade, alguns dados e informações foram colhidos e organizados.
Inicialmente, foi lido um documento traçando a evolução da criminalidade em Juiz de Fora. Após a leitura do texto, dentre as questões debatidas, destacaram-se: a necessidade de criação de um plano municipal de enfrentamento à violência; as formas de financiamento para a criação de um laboratório de violência junto à Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF; a necessidade de uma convergência programática entre as instituições, bem como discussões para as efetivações dos Projetos “Fica Vivo” e “Olho Vivo”.
O representante da Universidade Federal de Juiz de Fora apontou as dificuldades que a falta de uma liderança estaria trazendo para o prosseguimento dos trabalhos da Comissão, principalmente em virtude da necessidade de articular as demandas apresentadas. A Ordem dos Advogados do Brasil/OAB, corroborando a fala do representante da UFJF, mostrou a necessidade de que alguma instituição fosse indicada como coordenadora da Comissão. Após a sinalização feita pelo legislativo municipal de que a Prefeitura deveria organizar os trabalhos, o Secretário de Governo foi indicado como coordenador.
Outro ponto de destaque foi a convergência no sentido de que as instituições ali presentes não conheciam os trabalhos que as demais já realizavam. Assim, a falta de conhecimento das ações já em andamento estaria dificultando o prosseguimento dos debates. Nos dizeres do representante da OAB, era necessário que todos conhecessem o que já estava sendo desenvolvido para que houvesse uma concorrência de ações. Ficou deliberado que as instituições apresentariam os projetos que se relacionassem, de alguma forma, com a temática da segurança pública, bem como seus órgãos de financiamento.
Além da necessidade levantada por alguns dos presentes de que deveria ser dada publicidade às ações levadas a efeito no Município em prol da segurança pública, nesta reunião ficou também deliberado que seriam incluídas oficialmente na Comissão duas
instituições vinculadas à Secretaria de Estado e Defesa Social: a Polícia Militar e o Centro de Prevenção à Criminalidade. Também foi mencionada a importância de a Polícia Civil e a Polícia Federal indicarem representantes para a Comissão. No entanto, elas não contavam com representantes nesta reunião, ficando, assim, tal inclusão adiada; reforçou-se a importância destas instituições serem convidadas para as próximas reuniões.
Apesar da presença do Comandante da Guarda Municipal nesta reunião, não houve menção à necessidade de o mesmo integrar formalmente a Comissão. É certo que a Guarda Municipal vincula-se ao poder executivo municipal, pelo que poderia estar subentendido que esta já estivesse representada pela Secretaria de Governo. Este aspecto burocrático não alterou a ideia de que a participação do gestor da Guarda Municipal seria importante para a pesquisa.
A reunião plenária ocorrida no dia 25 de outubro de 2013 teve por finalidade discutir as questões relativas à implementação de um laboratório de estudos sobre violência que funcionaria junto ao Centro de Pesquisas Sociais da UFJF, e contou com a participação de representantes de várias instituições. Um dos destaques da reunião foi a entrega a todos os presentes de um documento denominado “Plano Municipal de Enfrentamento à Violência”, no qual eram apresentadas todas as ações levadas a efeito pela Prefeitura Municipal, através de suas diversas secretarias; pelo Centro de Prevenção à Criminalidade, pela Universidade Federal de Juiz de Fora e pelas Polícias Militar e Civil. A organização destas ações em um documento único, como dito, decorreu da deliberação da Comissão na reunião anterior, e visava dar conhecimento aos participantes das ações em andamento na cidade.
Apesar de ser fruto do reconhecimento da importância da informação para o prosseguimento das discussões em âmbito local, não há como reconhecer formalmente este documento como um Plano Municipal de Segurança. Na linha do referencial teórico construído, ele deve atuar no diagnóstico, planejamento de ações e acompanhamento das execuções, em uma linha cronológica e multidisciplinar. Atua, assim, na instituição de instrumentos de planejamento das ações e instâncias participativas, percebidas como elementos estratégicos para uma administração local voltada para resultados mais efetivos na área da segurança pública. A participação da população aparece como fator de extrema relevância para a elaboração de planos municipais de segurança pública, para assegurar a produção de políticas de qualidade e de fato descentralizadas, que sustentem a ação local e viabilizem a sistematização de um programa composto de passos previamente definidos e que atendam aos anseios da comunidade local. (PERRENOUD, 2007, apud PEREIRA, TONELLI e OLIVEIRA, 2013).
O documento apresentado na reunião, como dito, não foi fruto de diagnóstico e planejamento de ações, nem contou com a participação da sociedade civil para a sua sistematização. Sua finalidade era apresentar as ações já desenvolvidas pelas instituições participantes e que poderiam, de alguma forma, ter reflexo no combate e prevenção à criminalidade. Como exemplo, podemos citar “Programa JF Lazer”; “Programa Saúde na Escola”; “Programa Patrulha Ambiental”; “Programa Crack é possível vencer”, todos da Prefeitura Municipal; PROERD – Programa Educacional de resistência a drogas, da Polícia Militar; reforma e ampliação da Delegacia de Plantão, da Polícia Civil.
Apesar da diversidade das dezenas de ações listadas, descritas de acordo com a percepção de cada instituição, não podemos deixar de perceber a novidade da iniciativa, ao agregar ações institucionais através da categoria “enfrentamento à violência”.
Em que pese a divulgação do documento mencionado, foi possível perceber que a maior finalidade desta reunião foi divulgar a criação do Observatório de Segurança Pública em Juiz de Fora, apesar da forma de seu financiamento ainda estar indefinida. Várias foram a notícias divulgadas sobre a instalação do laboratório de estudos sobre violência junto à UFJF. A ideia era que o funcionamento ocorresse junto ao CPS – Centro de Pesquisa Social –, sendo necessário definir uma Comissão para realizar as pesquisas e tomar as decisões. Esta Comissão seria composta por profissionais da UFJF e de faculdades particulares, Comissão de Segurança Pública da Câmara Municipal, Prefeitura, OAB-JF, Polícia Militar, Polícia Civil, Centro de Prevenção à Criminalidade e outros órgãos que atuam, direta ou indiretamente, nas questões relacionadas à criminalidade.
Em umas das notícias divulgadas sobre a reunião, o vereador Presidente da Comissão de Segurança Pública reforçou o empenho do poder legislativo na busca por soluções para a violência na cidade, ressaltando a importância das pesquisas para traçar um perfil da criminalidade em Juiz de Fora. Outro vereador envolvido nas discussões destacou a mobilização da sociedade juiz-forana contra a violência, e o empenho da Câmara Municipal em articular amplos setores da comunidade para debater o tema e enfrentar o aumento da violência. O trecho da notícia abaixo transcrito, divulgado em 29.10.2013 no site da Câmara dos Vereadores de Juiz de Fora, indica a importância que a mídia trouxe para o evento.
A instalação do Laboratório de Estudos sobre Violência junto ao Centro de Pesquisas Sociais (CPS) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é uma conquista de toda a comunidade juiz-forana. Fruto dos debates iniciados em março durante a realização do Seminário Sobre a Violência Urbana em Juiz de Fora, promovido pela Câmara Municipal com o apoio da subseção Juiz de Fora da OAB,
Prefeitura, UFJF e Instituto Vianna Júnior, o Laboratório servirá de apoio a todas as entidades envolvidas no combate à criminalidade na cidade.
A decisão foi definida em reunião da Comissão que prepara a elaboração do Plano Municipal de Enfrentamento da Violência. A Câmara Municipal conclamou a cidade para o debate a respeito do aumento da criminalidade a partir do Seminário, e vem ajudando a articular a sociedade para enfrentar o aumento da criminalidade.12
A narrativa acima, alinhada ao texto da notícia, reforçou nossa percepção de que houve uma intensa publicidade das mobilizações ocorridas em Juiz de Fora, divulgações algumas vezes norteadas por discursos extremamente otimistas das ações. Neste sentido, as informações poderiam estar direcionadas para dar à sociedade a sensação da ausência de inércia das instituições públicas em relação ao aumento da criminalidade na cidade.