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a) A recolha da informação

A técnica de recolha de dados seleccionada contemplou, numa primeira etapa, um questionário dirigido aos vereadores com competências delegadas ou presidentes de câmara que tenham avocado à presidência as competências na área da educação. Enviado por via postal e, nalguns casos por correio electrónico, este instrumento de recolha de informação foi preenchido pelos gabinetes de apoio à vereação ou presidência com a supervisão dos eleitos locais. A sua recolha foi efectuada no momento da realização da entrevista semi-estruturada subsequente ao questionário. Algumas câmaras procederam ao envio postal dos questionários preenchidos, em momento prévio ao do agendamento da entrevista. De um modo geral, o preenchimento do questionário não suscitou dúvidas, apesar da sua extensão e da especificidade de algumas questões. Somente um eleito local, a pretexto de um pedido de esclarecimentos sobre o questionário, agendou uma reunião que nos proporcionou uma avaliação do instrumento em contexto de diálogo, bem como uma interessante preparação à realização da entrevista. A aplicação e respectiva avaliação do questionário pelo eleito local traduziu-se num contacto exploratório para o contexto do instrumento subsequente – a entrevista. No entanto, neste município não foi possível aplicar este segundo instrumento em momento posterior, uma vez que a educação foi, entretanto, avocada pelo presidente do executivo camarário e este não teve disponibilidade para nos receber.

Um segundo instrumento de recolha de informação foi a entrevista semi-estruturada, com questões de resposta aberta, aos responsáveis políticos em nove dos onze municípios. As questões desenvolvidas incidiram essencialmente sobre aspectos que dizem respeito às opiniões e crenças dos inquiridos. Estas entrevistas – que não foram exaustivas e respeitaram a disponibilidade dos entrevistados – procuraram responder às questões do terceiro eixo de análise da investigação: o das representações dos actores sobre políticas educativas municipais.

64 A anteceder o questionário e a entrevista individual, procurámos apresentar aos actores os objectivos da investigação e facultar uma explicação padronizada dos tópicos sobre os quais nos debruçámos.

Apontando para uma situação ideal de economia de tempo, tentámos o agendamento de uma reunião com a direcção executiva da comunidade urbana, onde pudéssemos apresentar sucintamente o estudo, recorrendo à mediação do seu presidente para criação de clima empático de colaboração em torno do projecto. Não tendo havido resposta a um primeiro pedido nesse sentido, considerámos mais eficaz o contacto a cada uma das autarquias e abandonámos a primeira estratégia.

Os questionários foram enviados em Abril de 2008 e os primeiros contactos por via telefónica com os gabinetes de apoio à vereação e à presidência começaram a ocorrer cerca de dois meses depois. Posteriormente foi necessário agendar as entrevistas semi- estruturadas, tendo sido frequente o recurso ao contacto telefónico com os gabinetes de apoio. As entrevistas foram realizadas quase na sua totalidade entre os meses de Julho e Setembro de 2008, altura em que foi publicado em diário da república novo pacote de transferência de competências do Ministério da Educação para as Câmaras Municipais. Uma primeira etapa da análise de conteúdo dos questionários precedeu a entrevista semi-estruturada.

Enquanto o questionário visou tópicos mais específicos e factuais, designadamente sobre a forma como os actores políticos organizam a sua acção – admitindo mesmo que o seu preenchimento tivesse sido levado a cabo pelo responsável técnico imediatamente subordinado ao responsável político; na entrevista pretendemos compreender em que medida as representações dos actores políticos em matéria de políticas públicas na área da Educação são coerentes com a regulação que exercem e com as políticas desenvolvidas.

A utilização do questionário como técnica de recolha de informação, obrigou a uma criteriosa construção do mesmo, antecipando uma primeira categorização das respostas. Não obstante a tentativa de construir este instrumento em momento simultâneo ao da entrevista semi-estruturada – a fim de ter antecipadamente um guião global de tudo o que se pretendia inquirir -, o segundo instrumento foi sujeito a reajustamentos tendo em conta as primeiras respostas dos inquiridos. Não realizando propriamente um pré-teste, tentámos submeter o questionário e o guião da entrevista a actores na gestão municipal da Educação que, não tendo actualmente responsabilidades políticas, pudessem ter um olhar próximo das representações destes. É esse olhar que esteve presente no momento

65 da sua construção uma vez que quem investiga, pela vivência anterior enquanto actor político local, procurou sempre estar no lugar de quem responde.

b) A análise de conteúdo

Para a análise dos dados recolhidos através de questionários e entrevistas semi- estruturadas, construímos uma grelha de categorização centrada nos eixos de análise e nas principais questões enunciados na fase da elaboração deste projecto de investigação. Nesta fase de interpretação dos dados, criámos quatro grandes categorias às quais associámos subcategorias decorrentes, quer das questões de investigação, quer das evidências recolhidas através dos instrumentos utilizados.

Invertendo a ordem dos eixos de investigação enunciados em momento prévio, criámos uma primeira categoria principal que designamos por “Os actores políticos”. Nesta categoria identificamos o estatuto profissional dos eleitos locais anterior às funções actualmente exercidas.

Começar esta grelha pela categoria “os actores políticos” não foi fruto do acaso. Esta opção é intrínseca à própria escolha do estudo em causa. Embora o objecto do estudo sejam as políticas educativas municipais, a perspectiva assumida foi desde o início a dos actores políticos. Assim, partindo do discurso e do olhar destes, faremos a análise daquilo que dizem ser as suas acções, procurando, a priori, conhecer melhor quem são e que representações têm daquilo que fazem.

Para uma primeira subcategoria designada de “estatuto profissional de origem” contribuíram o questionário e as entrevistas. O primeiro instrumento permitiu-nos identificar a origem profissional dos actores; o segundo, através da análise de conteúdo, serviu para compreender em que medida as representações e as lógicas de acção destes actores, estão próximas de uma visão escolocêntrica da educação e se, assim sendo, se esta visão é assumida por quem tem estatuto de docente ou se é indiferente o estatuto profissional de origem e essa visão é globalmente assumida. Interessa-nos também perceber se aqueles que provêm da docência vêm nisso uma vantagem ou um constrangimento.

A segunda grande categoria desta análise diz respeito à acção enunciada – a acção concreta dos actores. Nesta categoria assumem principal relevância os dados recolhidos

66 através do questionário. De natureza mais factual, neste caso pretendemos descrever o que os municípios da Lezíria do Tejo têm feito na área da educação. Assim, a segunda categoria que designamos por “intervenção municipal na educação”, parte da identificação dos recursos – humanos e infra-estruturais - mobilizados para a intervenção na educação, objectivo para o qual criámos uma primeira subcategoria que designamos de “os recursos”.

As outras duas subcategorias dizem respeito às iniciativas e respectivos destinatários e os dados recolhidos provêm essencialmente do questionário.

Nesta grande categoria, destacamos três questões que nos interessam particularmente: como são exercidas as competências, no domínio da educação formal; que destinatários são enunciados quando falamos de intervenção na educação, isto é, falamos da educação de jovens e crianças ou já é assumido pelos actores municipais a necessidade de uma educação formal e informal, com fronteiras cada vez menos definidas e onde se assume o direito dos indivíduos à aprendizagem ao longo da vida?

Por último, interessa-nos particularmente, tendo em conta o momento de realização deste estudo, compreender como são assumidas algumas áreas de intervenção que se encontram a meio caminho entre as competências e as não competências, isto é, sendo no quadro normativo assumidas como competências contratualizadas, como as encaram os eleitos locais?

Com a terceira grande categoria – “ as formas de relacionamento” – pretendemos recolher dados que nos permitam verificar qual o grau de distanciamento ou proximidade dos actores políticos municipais relativamente aos outros agentes educativos.

Nesta categoria pretendemos compreender como os actores locais se apropriam dos conselhos municipais de educação: se cumprem calendários e articulados legais, ou se assumem uma perspectiva de parceria e de debate da agência educativa do território municipal.

Enquanto subcategoria de relevo integrada na dimensão dos relacionamentos, partimos da entidade agregadora da sub-região – a Comunidade Urbana da Lezíria do Tejo – para conhecer essencialmente dois aspectos: a questão da identidade sub-regional, quer no que respeita a uma caracterização territorial, quer no que concerne à descrição das práticas de intervenção municipal da educação; a questão do que já foi feito em comum e a das vontades dos eleitos para a intervir conjuntamente ou coordenadamente na área da educação. Existem somente lógicas que se prendem com a captação de recursos ao

67 nível da negociação com instituições nacionais e europeias ou acrescem a esta lógica intenções de empreender uma rede educativa sub-regional?

Quanto ao território da Lezíria, partindo do conceito de regulação, interessa-nos, mais do que uma mera caracterização comparativa das intervenções municipais, percepcionar em que medida os actores, individualmente, encaram um trabalho concertado tendo como horizonte a sub-região.

A terceira grande categoria diz respeito, como se disse anteriormente, ao modo como os actores encaram o funcionamento dos órgãos formais de regulação da educação, em que os municípios são parte integrante, e ao modo como se apropriam destes.

Numa quarta categoria, procurámos interpretar as representações que os eleitos locais têm da educação, de um modo geral, e da intervenção municipal na educação em particular. Inicialmente pensámos optar pela criação de duas subcategorias: uma que dissesse respeito às representações sobre a educação enquanto agência humana e outra que dissesse respeito à intervenção municipal na educação. Uma primeira avaliação do material recolhido levou-nos a não fazer essa separação na medida em que muitas vezes os discursos dos actores as abordavam de forma intrínseca e indissociável.

A partir da análise de conteúdo da entrevista, procurámos, no discurso dos actores, evidências sobre aquilo que é valorizado na intervenção educativa municipal. Não nos reportamos às acções concretas, mas ao que é valorizado pelos actores.

Por último, nesta categoria, pretendemos conhecer quais os objectivos enunciados pelos actores para a sua intervenção no campo da educação. Criámos uma subcategoria que designamos de “objectivos enunciados” e, através do discurso dos actores, pretendemos saber que valor é atribuído à educação enquanto agência da sociedade, e das comunidades concretas dos concelhos da Lezíria.

Tendo em conta o momento de realização deste estudo, interessa-nos particularmente compreender em que medida é desejado um alargamento de competências das autarquias e o que está em jogo no actual processo de negociações dos municípios com o Ministério da Educação. A questão da subsidiariedade assume também alguma importância na medida em que nos interessa saber como é interpretado este conceito pelos actores.

Em conclusão, ao criarmos a presente grelha de categorização, pretendemos responder aos objectivos do estudo. No início deste, as questões de investigação eram em menor número, mas, à medida que o trabalho empírico foi avançando, fomos assumindo uma postura gradualmente interpretativa e antecipando algumas respostas. Com esta

68 categorização pretendemos organizar as evidências que possam validar esta postura interpretativa face aos dados recolhidos.

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CAPÍTULO IV – OPERACIONALIZAÇÃO DAS COMPETÊNCIAS LEGAIS