Nome Marcelo Erika Sara
Mackenzie
João Angel
Idade 20 anos 22 anos 26 anos 21 anos 24 anos Sexo Masculino Feminino Masculino Masculino Feminino
(Transexual) Orientação
Sexual
Homossexual Bissexual Homossexual Bissexual Heterossexua l Naturalidade Brasileiro Brasileira Brasileiro Brasileiro Brasileira Endereço conclusão do ensino superior, por serem oriundos do interior do estado e encontrarem-se em situação de dificuldade socioeconômica. Exatamente como destacado na Resolução 169/2008 – CONSEPE, que dispões sobre “a instituição do programa de bolsas de assistência estudantil e regulamenta os procedimentos de concessão, acompanhamento e avaliação do impacto destas no desempenho acadêmico dos alunos beneficiários”, temos que, uma das causas para a criação das bolsas que compõem a assistência estudantil é
Que dados do Observatório do Estudante da COMPERVE/UFRN indicam que 49,6% (quarenta e nove vírgula seis por cento) dos alunos que chegam à UFRN são oriundos de famílias que têm uma renda mensal de até 05 (cinco) salários mínimos;
que a maioria desses alunos necessita trabalhar para arcar com as despesas pessoais;
que essa necessidade de trabalhar é uma das causas de abandono ou da falta de sucesso na aprendizagem (CONSEPE, Resolução 169/2008).
No entanto, como já assinalamos anteriormente, a vulnerabilidade socio-economica não é a causa exclusiva da necessidade de acesso as residências universitárias, aliada a ela existem outros fatores que levam os alunos a buscarem o apoio institucional. É este o caso da residente que não soube precisar a renda mensal de sua família, justamente por não conviver
com seus parentes e não receber nenhum tipo de apoio financeiro. Neste caso a necessidade dela não é apenas socioeconômica e se formos avaliar a condição financeira da família dela, ela não se encaixaria nos critérios estabelecidos pelo PNAES, embora seus pais se recusassem a ajudá-la. É neste sentido que ela diz:
Estou na universidade pelo simples fato de ser transexual e meus pais não me aceitarem em casa. Então assim, se seu pai não aceita nem quem você é, você acha que ele vai mandar dinheiro, que ele vai lhe manter?! Não vai! Então eu cheguei aqui numa situação deplorável e aí as pessoas se compadeceram e entenderam que eu precisava ficar na residência, até porque eu não tinha pra onde ir. Eu até disse que ia me prostituir pra conseguir dinheiro, porque eu não tinha aonde morar (ANGEL, 24 anos, transexual).
Os demais discentes LGBTs entrevistados não relataram fatos de violência física em casa, apenas uma mencionou afrontas verbais quando assumiu a orientação sexual entre os familiares. Eles assinalam que vivenciaram conflitos familiares, mas não necessariamente em virtude da identidade de gênero ou orientação sexual.
A partir desta fala percebemos que ainda predomina uma visão a respeito dos assistentes sociais como profissionais que se compadecem, que ajudam, corroborando para o fortalecimento da ideia errônea de uma profissão pautada na benemerência, bem como faz transparecer a não existência de uma política institucional que assegure os direitos da população LGBT, no que diz respeito a assistência estudantil, fazendo com que eles precisem do “compadecimento”.
Ao observar a fala de Angel, voltamos a defender a necessidade de criação, dentro do PNAES e nas resoluções internas institucionais, de respostas à essa demanda reprimida e recorrente. Ou seja, para que a universidade seja de fato plural e aberta à diversidade, é necessário pensar medidas/ações/políticas que vão além da necessidade econômica e se voltem para as discriminações e violências para a questão de gênero/sexualidade.
Outro ponto a ser destacado é que as residências, algumas vezes, podem representar para esses discentes LGBTs um espaço de libertação, mesmo que dentro delas se reproduzam atos de preconceito e discriminação. Ao ser perguntado sobre sua relação familiar e seu ingresso na residência universitária um dos entrevistados respondeu:
Eu vim me assumir mesmo já tarde, né pra os meus pais?! Eu vim me assumir acho que com meus vinte... vinte e um anos foi quando eu me assumi de fato. Foi quando eu vim para aqui pra Natal, ai pronto [...] Depois que eu entrei na universidade e que eu sai da igreja também, que eu consegui ganhar meu espaço de independência, porque quando a gente depende dos pais, tudo é diferente, você fica com medo.
Você tem medo de... de... Porque o mundo é muito cruel e os gays são muito perseguidos, né?! Assim, a sexualidade. E pelo menos no meu caso... assim... minha família me ama, mas ninguém quer né?! Eles não aceitavam, nenhum pai aceita.
Depois que vai entendendo, né?! (SARA MACKENZIE, 26 anos, homossexual).
Um dos residentes entrevistados relatou que nunc a conversou com os pais sobre sua orientação sexual e eles não sabem sobre sua homossexualidade, no entanto, na residência ele não “esconde” a sua orientação sexual dos demais residentes. Isto nos leva a observar que as residências universitárias são representativas, para estes segmentos, pois significa contraditoriamente, um espaço de independência e libertação, e ao mesmo tempo reduto de preconceitos, discriminações e opressões, como veremos a seguir. Paradoxalmente, há uma ampliação das universidades através da assistência estudantil, no entanto, esse aumento no número de vagas não significa prestar assistência a todos os alunos, ao contrário, é uma ampliação que restringe a heterogeneidade dos sujeitos.
4.2 HETERONORMATIVIDADE, PRECONCEITO, DISCRIMINAÇÃO E
HETEROSSEXISMO: SUAS EXPRESSÕES NAS RESIDÊNCIAS UNIVERSITÁRIAS
Lopes (2009), acompanhando a perspectiva Foucaultiana, assinala que, a partir da segunda metade do século XIX, passou-se a prestar muito mais atenção à definição da sexualidade, tornando-a uma questão central para os Estados e para os indivíduos. Na realidade, os embriões desse processo histórico estão no século XVIII com o advento da revolução burguesa e, portanto, do industrialismo, das transformações políticas, sociais, econômicas e culturais etc. Até o início do século XIX, nas sociedades ocidentais, o modelo de hierarquia sexual era baseado em um único eixo, cujo vértice era o masculino, isto porque acreditava-se que o corpo das mulheres era igual ao corpo do homem, no entanto, as mulheres contavam com uma “imperfeição” genética, pois os órgãos genitais masculinos se desenvolviam externamente e não internamente, como acontecia com as mulheres.
A partir da instituição dos Estados nacionais e sua preocupação em controlar o crescimento populacional e garantir a produtividade do modo de produção capitalista, passou-se a investir em medidas que garantispassou-sem a perpetuação da vida, ou passou-seja, a família, sua reprodução. Assim, as práticas sexuais passam a ter centralidade na agenda do Estado e ele vai determinar quem tem autoridade para afirmar a verdade sobre o sexo-gênero-sexualidade e quem será o alvo prioritário das ações dos governos.
Ao final do século XIX, serão homens, médicos e também filósofos, moralistas e pensadores (das grandes nações da Europa) que vão fazer as mais importantes
‘descobertas’ e definições sobre os corpos de homens e mulheres. Será o seu olhar
‘autorizado’ que irá estabelecer as diferenças relevantes entre sujeitos e práticas sexuais, classificando uns e outros a partir do ponto de vista da saúde, da moral e da higiene. Não é de estranhar, pois, que a linguagem e a ótica empregadas em tais definições sejam marcadamente masculinas; que as mulheres sejam concebidas como portadoras de uma sexualidade ambígua, escorregadia e potencialmente
perigosa; que os comportamentos das classes média e alta dos grupos brancos das sociedades urbanas ocidentais tenham se constituído na referência para estabelecer o que era ou não apropriado, saudável ou bom. Nascia a sexologia. Inventavam-se tipos sexuais, decidia-se o que era normal ou patológico e esses tipos passavam a ser hierarquizados. Buscava-se tenazmente conhecer, explicar, identificar e também classificar, dividir, regrar e disciplinar a sexualidade. Tais discursos, carregados da autoridade da ciência, gozavam do estatuto de verdade e se confrontavam ou se combinavam com os discursos da igreja, da moral e da lei (LOPES, 2009, p. 88).
Lopes (2009) traz ainda que, a partir desse novo estatuto de importância conferido a sexualidade é que surge a figura do homossexual/heterossexual, bem como uma nova interpretação a respeito das práticas afetivas e sexuais vivenciadas por pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade deixa de ser tratada como um desvio de conduta ou pecado que pode ser cometido por qualquer um e passível de sanções, passando a ser, o homossexual, considerado um sujeito de outra espécie, que requer intervenções específicas, sejam elas reparadoras ou punitivas, de reclusão ou de reabilitação, através de distintas instituições sociais, como as escolas, as igrejas, as entidades jurídicas etc.
Até então não existia referência ou nomeação para a heterossexualidade, entendida como a única forma considerada normal de vivência da sexualidade, baseada em relações afetivas e sexuais entre homens e mulheres (NOGUEIRA, 2013). O termo só passa a ser empregado quando se classifica o homossexual/homossexualidade, ou seja, “o sujeito e a prática desviantes” (LOPES, 2009). Sendo assim, a existência de um é a condição de manutenção do outro.
Maia (2009), ao problematizar as categorias normalidade e sexualidade mostra, que é de extrema importância a percepção de que a normalidade é social e historicamente constituída, ou seja, o que é considerado normal e anormal varia de uma sociedade para outra.
Neste sentido, definir o que é normal e patológico é uma tarefa complicada em termos teóricos, contudo, “parece fácil e corriqueiro atribuir a palavra ‘normal’ a um conjunto de padrões ideologicamente retratados em uma dada cultura, como se este mesmo padrão fosse imutável e inquestionável, ou tivesse para nós um sentido prático irretocável” (MAIA, 2009, p. 266).
Para a autora supracitada, na nossa sociedade, o padrão de sexualidade considerado normal, se traduz na heterossexualidade, em casar-se na maturidade e com uma pessoa que compartilhe da mesma condição econômica e educacional, bem como não praticar crimes sexuais, como o incesto, por exemplo. É interessante observar que, os sujeitos que “fogem” a essas regras sociais e padrões considerados desejáveis, são reprimidos, com punições físicas e psicológicas. Portanto, a repressão sexual, entendida com um conjunto de regras, leis e
comportamentos que assumem características específicas em contextos sociais e culturais distintos, é um fato persistente e fortemente presente na sociedade brasileira, acompanhado da ameaça de isolamento e punições aos indivíduos que não seguem essas regras. Esse processo pode ser explícito ou implícito, evidente ou velado, conforme se evidencia na fala de uma das residentes entrevistadas ao ser perguntada se já havia vivenciado alguma experiência de preconceito31 e discriminação na residência universitária
Às vezes tem algumas meninas que ficam constrangidas de tirar a roupa... tá de toalha, ai ficam... não quer passar... enfim, mostrando o seio ou fica meio assim comigo quando vai usar o banheiro. Eu já percebi, mas eu também não vou ficar me preocupando com isso... Foi muito engraçado porque falaram: Ai, tem uma trans na residência, pra uma das garotas e elas me contaram e essa garota disse que não achava essa trans, e não achava, e procurava essa trans e eu passava assim por ela e depois que ela veio e disse: Angel, é você. Você vê que é também uma forma de preconceito, né?! Porque a pessoa espera alguma coisa e não vem aquela coisa. E por que as pessoas têm que tá falando que eu sou o trans, que eu sou travesti?! Por que quando você chega ninguém fala, né?! Porque quando você chega lá ninguém vai falar: chegou a mulher Allyucha. Não! Mas chegou a travesti Angel. Entende que é uma forma de preconceito ali?! Que tem alguma coisa. Por que tem que me tratar como diferente se eu sou igual, né?! (ANGEL, 24 anos, transexual).
Nesta fala, conseguimos perceber claramente como a repressão sexual se expressa, mesmo que involuntariamente, através dos atos e das falas dos sujeitos. No entanto, mesmo que seja uma atitude “sem a intenção de agredir o outro”, ela deve ser combatida, porque sua aceitação representa um reforço aos padrões de sexo-gênero-sexualidade vigentes.
No entanto, segundo Louro (2009) para que o padrão heterossexual seja perpetrado como normal e natural e para que as hierarquias sexuais e de gênero se mantenham, é preciso que se construam um conjunto de estratégias, que perpassam as mais variadas instâncias como (família, escola, igreja, medicina, mídia etc.) por elas criadas e disseminadas, que divulguem a ideia de que os seres humanos nascem como machos e fêmeas, se comportam de acordo com o que é socialmente designado para os gêneros feminino ou masculino e estabelecem relações afetivas e sexuais apenas com os sexos opostos. A esse processo de alinhamento sexo-gênero-sexualidade dá-se o nome de heteronormatividade que, como assinala Lima (2011, p.166) “é a regra social que estabelece o padrão heterossexual como ‘normal’ e ‘desejável’ para todos os indivíduos”. E esta norma se funde na organização social, na ideologia, que influência as formas de viver dos sujeitos.
31 Rios (2009, p. 54) afirma que por preconceito “designam-se as percepções mentais negativas em face de indivíduos e de grupos socialmente inferiorizados, bem como as representações sociais conectadas a tais percepções”. Podendo ser compreendida também como uma noção pré-concebida a respeito de algo até então desconhecido ou pouco conhecido.
Para Prado e Machado (2008), a heteronormatividade é uma criação ocidental a partir de um julgamento moral baseado em experiências particulares, que em seu surgimento estivera sustentada em um discurso místico e religioso e posteriormente através do discurso cientifico, ambos responsáveis por atribuir papeis sociais negativos aos homossexuais, atribuindo a condição de perversão em um primeiro momento e de doença posteriormente.
Isto porque essa visão unilateral permite a inferiorização de uns e a superioridade de outros, a negação de um, legitima o outro. No entanto, essa inferiorização não estende-se apenas a homens homossexuais, mas também a lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgenêros, na medida em que estes também são sujeitos historicamente oprimidos e vítimas das formas de violências que se “justificam” através do preconceito.
A subordinação e a inferiorização não se expressam unicamente nas relações interpessoais informais, mas também nas instituições públicas, nas práticas governamentais nos mecanismos de inclusão subalternizados dos grupos inferiorizados nos processos sociais.
Isto porque nos últimos duzentos anos na sociedade ocidental imputa-se aos homossexuais atribuições negativas e, portanto,
Os códigos que regulam as relações entre identidades sexuadas não permitem que as hierarquias sexuais e a homofobia, adquiram visibilidade pública na condição de injustiça social, uma vez que foram naturalizadas e assimiladas pela simplificação (PRADO; MACHADO, 2008, p. 74).
Sendo assim, o que percebemos é que as diferenças são transformadas em desigualdades e que na sociedade moderna criou-se o que Prado e Machado (2008) denominam de Monocultura do saber, ou seja, institui-se experiências particulares como legítimas a partir de determinados valores morais, fazendo com que outras formas de sociabilidade sejam negadas e, através das hierarquias sociais, criam-se os lugares ou não-lugares com atribuições negativas para seus comportamentos e modos de vida a partir de uma racionalidade dominante.
Os autores ainda destacam a importância da visibilidade e do combate a heteronormatividade como uma questão política, pública, ou seja, tornar os sentimentos, os comportamentos e as escolhas em questões de debate nos espaços públicos, rompendo com a moralização da política, que separa os heterossexuais como “bons”/fiéis/confiáveis e os homossexuais como “maus”/promíscuos/inconfiáveis. Sendo de fundamental importância a construção de identidades coletivas e do sentimento de pertença a um grupo social, porque são essas relações que permitem a construção de novos valores e formas de combate ao preconceito e discriminação.
É a partir desse sistema normativo denominado heteronormatividade que surge a homofobia32, entendida como uma expressão do preconceito e da discriminação, à medida que, na nossa sociedade, gênero e heterossexualidade são categorias frequentemente confundidas e articuladas (LOPES, 2009). Isto é, é “comum” ver no processo educativo dos meninos, a rejeição ao desenvolvimento de atitudes e comportamentos considerados femininos, como a afetividade, por exemplo. Neste caso, o menino que age de acordo com o papel socialmente atribuído à mulher, é rejeitado. O processo de heteronormatividade incide fortemente na construção da identidade dos sujeitos masculinos, que são proibidos de assumirem práticas atribuídas ao gênero feminino. No entanto,
Evidentemente, sendo esse um processo cultural, é histórico e dinâmico, quer dizer, é passível de transformações. Ao lado dos discursos que reiteram a norma heterossexual, circulam também discursos divergentes e práticas subversivas, e parece notório que esses processos de subversão e desafio da norma vêm se tornando, contemporaneamente, cada vez mais visíveis (LOPES, 2009, p. 92).
Para algumas abordagens psicológicas, o preconceito é a construção por indivíduos e grupos de percepções negativas sobre outros indivíduos e grupos que consideram inferiores.
Sendo assim, para algumas abordagens psicológicas, a raiz do preconceito está na “dinâmica interna dos indivíduos” (RIOS, 2009). Uma das teorias, para a psicologia, que explica o preconceito, é a teoria projecionista, ou seja, o indivíduo que experiencia um conflito interno, tenta solucioná-lo atacando de forma direta ou indireta, determinados indivíduos e grupos que trazem características e comportamentos semelhantes àquilo que ele repudia em si mesmo.
Para as abordagens sociológicas, o preconceito é uma construção social fruto de relações de poder, ou seja, em uma relação intergrupal, se desenvolvem e expressam representações e atitudes negativas e discriminatórias por parte de um grupo a outros grupos com formas de pensar e agir diversas àquelas estabelecidas socialmente como normais e aceitas.
Prado e Machado (2008) trazem a funcionalidade do preconceito social na manutenção das hierarquias e da inferiorizaçao social. Hierarquia entendida como subordinação de um indivíduo ou grupo a outro, em uma relação não politizada, ou seja não reconhecida como uma relação de antagonismo entre os sujeitos sociais. Ela é naturalizada, como se a ordem social não fosse uma construção histórica através da ação humana. A inferiorização aqui entendida diz respeito as relações de opressão, na qual os sujeitos sociais subordinados
32 O termo homofobia é aqui utilizado como referência a todos os tipos de preconceito e discriminação perpetrados contra lésbicas, homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Faz-se essa generalização no intuito de não tornar o texto cansativo.
reconhecem esta posição de rebaixamento como uma injustiça socialmente construída, que ameaça os direitos sociais desses sujeitos, ou seja, são relações sociais que tem refrações na arena pública e que, portanto, precisam ser combatidas através do enfrentamento político, que é possível e fortalecido por meio da construção de identidades coletivas na desconstrução de significados cristalizados.
A hierarquia só será tomada como uma relação de opressão se for reconhecida como uma relação opressora e não natural. As autoras destacam que o preconceito e a discriminação têm a função de não permitir que as relações de subordinação se transformem em objeto de ação política. Isto é, o preconceito é um mecanismo que mascara a discriminação e a inferiorização para que não sejam interpretadas como mecanismos de injustiças entres indivíduos e grupos com diferentes identidades.
No âmbito da sexualidade, o preconceito social produziu a invisibilidade de certas identidades sexuadas, garantindo a subalternidade de alguns direitos sociais, e por sua vez, legitimando práticas de inferiorização social, como a homofobia. O preconceito, neste caso, possui um funcionamento que se utiliza, muitas vezes, de atribuições sociais negativas advindas da moral, da religião ou mesmo das ciências, para produzir o que aqui denominamos de hierarquia sexual, a qual é embasada em um conjunto de valores e práticas sociais que constituem a heteronormatividade como um campo normativo e regulador das relações humanas (PRADO;
MACHADO, 2008, p. 70).
De acordo com Rios (2009), a homofobia é uma expressão dos preconceitos e discriminações discutidos nos debates públicos e nas lutas sociais desde meados do século XX, assim como o anti-semitismo, o racismo e o sexismo. No entanto, a bibliografia e as políticas públicas desenvolvidas para os segmentos LGBTs, em contraposição a estas outras formas de preconceito e discriminação, demonstram o quanto a homofobia é menos discutida, mais aceita, bem como tratada com mais mansidão e suavidade frente a manifestações homofóbicas, do que o racismo e o sexismo, por exemplo.
O termo homofobia foi utilizado pela primeira vez na literatura em 1960, pelo psicólogo estadunidense George Weinberg, ao tentar identificar os traços da “personalidade homofóbica”. Basicamente, homofobia significa uma forma de preconceito que pode desembocar em discriminação33, mais especificamente, “é a modalidade de preconceito e discriminação direcionada contra homossexuais” (RIOS, 2009, p. 59)
Como foi destacado, as abordagens psicológicas e sociológicas divergem na concepção das causas para o fenômeno do preconceito, o mesmo ocorre em relação a
33 Discriminação aqui entendida nos termos jurídicos destacados por Rios (2009, p. 54) ou seja, como “a materialização, plano concreto das relações sociais, de atitudes arbitrarias, comissivas ou omissivas, relacionadas ao preconceito, que produzem violação de direitos dos indivíduos e dos grupos”.
homofobia, enquanto uma expressão do preconceito e da discriminação. Para as abordagens
homofobia, enquanto uma expressão do preconceito e da discriminação. Para as abordagens