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1.2 PENSANDO O PROCESSO DE PESQUISA

1.2.3 Quadros e enquadramentos

A partir dos diferentes discursos que circularam a partir de junho de 2013 sobre a violência nos protestos, o que busquei foi identificar os quadros de referência em que esses discursos eram construídos, tanto os discursos da mídia, quanto os dos próprios atores, e contrapor esses quadros que permitem que diferentes discursos sejam mobilizados sobre o mesmo acontecimento. Demonstrando, assim como Goffman, que “quando os papéis dos que participam numa atividade são diferentes – o que ocorre frequentemente – a visão que uma pessoa tem daquilo que está ocorrendo será provavelmente muito diferente da visão de outra” (GOFFMAN, 2012, p.31).

Assim, meu esforço foi o de tentar isolar alguns dos esquemas primários de compreensão dessas situações a fim de compreender e analisar estes quadros de referência que permitem diferentes percepções e leituras sobre os mesmos fatos. A combinação entre Foucault e Goffman implica reconhecer que as “molduras”

estabelecidas pelos quadros da experiência social não apenas estabelecerão o alcance e os limites das práticas discursivas dos sujeitos envolvidos, mas irão regular e direcionar implicitamente a interpretação dessas situações sociais.

Essa articulação entre os dois autores, é algo que tenho trabalhado de diferentes maneiras em meus trabalhos, buscando encontrar o equilíbrio entre essas duas perspectivas tão ricas de compreensão e interpretação da realidade social, de uma forma que dá menos ênfase à descrição das interações em si, e mais às regras implícitas que definem a situação e configuram os significados dentro delas,

justamente onde entra essa dimensão relacional dos “quadros”, a partir dos quais podemos analisar o impacto dessas regras e princípios não declarados sobre a forma como as interações são determinadas, e também sobre o esforço dos sujeitos envolvidos para modificar ou manter estes quadros (GOFFMAN, 2012).

Essas regras implícitas e princípios não declarados que definem a forma como uma situação será interpretada são chamadas por Goffman de “esquemas primários”, que nada mais são do que formas de interpretação das situações sociais, que direcionam nossa atribuição de significado aos fenômenos observados de acordo com uma leitura de certa forma legitimada, uma prática discursiva que já foi aceita, que permite tanto aos envolvidos quanto aos observadores “localizar, perceber, identificar e etiquetar um número aparentemente infinito de ocorrências concretas, definidas em seus termos” (GOFFMAN, 2012, p.45).

Assim, um dos passos para a realização desta pesquisa foi isolar alguns desses esquemas que foram acionados para compreender e analisar a instrumentalização política da violência no contexto das manifestações de junho de 2013 e, especialmente, nas ações da tática black bloc, buscando encontrar os limites impostos por esses quadros de referência, mas também suas vulnerabilidades, e os elementos que foram deixados de fora desses quadros, influenciando diretamente a percepção sobre essas situações sociais, fortalecendo certas práticas discursivas em detrimento de outras, e direcionando, para a chave da cultura do medo, a interpretação dos eventos e dos sujeitos envolvidos.

No entanto, quando se parte dessa perspectiva é importante reconhecer que, assim com definimos elementos que serão o foco de atenção principal dentro dos quadros de referência e que estes apontarão para os esquemas que darão significado à situação, estamos também deixando outros elementos de fora, que acionariam outros significados e permitiriam outras interpretações sobre a mesma situação.

Como Goffman deixa claro em sua obra:

Dada uma corrente de atividade enquadrada de uma determinada maneira e que fornece um enfoque de atenção oficial central aos participantes ratificados, parece inevitável que ocorram simultaneamente outros modos e linhas de atividade (incluindo a comunicação em sentido estrito) no mesmo cenário, segregados daquilo que domina oficialmente, e sejam tratados, se é que o serão, como algo à parte. Em outras palavras, os participantes seguem uma linha de atividade – uma trama narrativa – ao longo de uma série de acontecimentos que são tratados como fora de quadro, subordinados desta maneira particular àquilo que veio a ser definido como a ação principal.

(GOFFMAN, 2012, p.254).

É nesse sentido que outro passo desta pesquisa é justamente o de buscar analisar também essas atividades e significados que ficaram fora do quadro da atividade principal, graças às práticas discursivas que foram acionadas nessa situação. Como demonstrarei nesta tese, quando os discursos sobre a tática black bloc tomam como atividade principal o “vandalismo” e a “violência” das ações da tática, seu conteúdo político, sua mensagem pretendida, acaba sendo ignorada, como uma atividade fora de quadro, algo que recebe pouca ou nenhuma atenção dos observadores, e assim, se perde nas narrativas que são construídas sobre a instrumentalização política da violência, mesmo que, para os sujeitos envolvidos – os adeptos da tática black bloc – essa corrente de significados tem um caráter fundamental e estruturante para suas ações.

É nesse sentido que Judith Butler, em seu livro Quadros de Guerra (2015), traz contribuições riquíssimas a esta análise. A autora faz uma espécie de desenvolvimento do conceito goffmaniano de quadro, ao apontar para um “foco nos modos culturais de regular as disposições afetivas e éticas por meio de um enquadramento seletivo e diferenciado da violência” (BUTLER, 2015, p.13). Foco esse que permite repensar a precariedade, a vulnerabilidade e as reivindicações sobre linguagem e pertencimento social na medida em que ressalta normas e formas de

Esse sentido de que a moldura direciona implicitamente a interpretação tem alguma ressonância na ideia de incriminação/armação como uma falsa acusação. Se alguém é incriminado, enquadrado, em torno de sua ação é construído um “enquadramento”, de modo que seu estatuto de culpado torna-se a conclusão inevitável do espectador. Uma determinada maneira de organizar e apresentar uma ação leva a uma conclusão interpretativa acerca da própria ação. (BUTLER, 2015, p.23).

Tomando essa articulação entre os três autores como base para minhas análises, não apenas intento demonstrar os alcances e limites dos discursos e quadros que nos oferecem diferentes interpretações sobre a legitimidade – ou não – do uso da violência enquanto ferramenta de ação política, mas também questionar esses enquadramentos, demonstrando que eles de fato nunca contiveram a totalidade

da cena que se propuseram a ilustrar, sempre deixando elementos de fora, nunca demonstrando, portanto, de forma precisa todos os elementos dessa instrumentalização política da violência. No limite, busco questionar e problematizar os enquadramentos da violência política.