CAPÍTULO 01 QUADRO TEÓRICO
1.4 Quadros Interpretativos e Identidade
Para Tarrow (2009) o confronto também permite que sejam criadas estruturas organizacionais, objetivos, metas, ideologias e identidades coletivas, como também cria símbolos e imagens do opositor que ajudam a orientar e sustentar a ação por meio da solidariedade e das interações entre os participantes. É nesse sentido que Alberto Mellucci (2001) alerta que as análises sobre ações coletivas, em
particular, sobre as ações de movimentos sociais, sempre estiveram em volta de uma questão: por que as pessoas se engajam em ações coletivas e se dispõem a enfrentar situações adversas, conflituosas, que as expõem, muitas vezes, à repressão e à violência? As respostas a essa questão perpassam diversas correntes teóricas que buscam compreender o significado das ações coletivas. Deste modo, o engajamento coletivo já foi visto como resultado da irracionalidade das massas, que levadas pela emoção, se agregavam a outros indivíduos. Tal leitura, destarte, refletiria uma determinada patologia social.
No caminho contrário, as ações coletivas também foram interpretadas como uma forma de ação extremamente racional em busca da maximização de vantagens econômicas e políticas. O engajamento de indivíduos em movimentos sociais seria, portanto, uma estratégia para diminuir os custos da ação para o indivíduo, que pegariam carona (free
rider) na mobilização de outros (free riding). Não obstante, a ação
coletiva também foi (é) mediada por interpretações demasiadamente românticas que atribuem a priori às ações coletivas sempre um valor positivo ou uma capacidade de inovação e de transformação social, mesmo quando essas refletiriam processos conservadores8 ou que caminhariam para atitudes autoritárias. Outra característica comum é o caráter totalizante de algumas interpretações que impõem uma determinada essência ou natureza a diferentes fenômenos empíricos, tornando-os referenciais de um processo maior vindouro.
Para Melucci (2001, p.78) tais leituras produzem dois tipos de efeitos ideológicos nas interpretações sobre a ação coletiva: a primeira tende a justificar a ordem social e reduz os fenômenos conflituais a anomia; a segunda busca exaltar cada caso com uma forma de ruptura da ordem social e questionamento do status quo, caracterizando-se a priori como sendo portadora de uma oposição antagonista.
Melucci (2001) propõe que para a análise de ações coletivas seja necessário decompor a (falsa) unidade empírica dos fenômenos coletivos, pois essas não podem ser consideradas de forma homogênea, apresentando diferenças caso a caso. Para o autor, um movimento social se apresenta ao exterior como algo coeso, mas para manter a unidade são investidos esforços significativos para administrar suas diferenças internas, tanto de concepções e projetos como de modo de organização e formas de ação. Dessa forma, antes de se estabelecer relações com outras ações coletivas, é imperativo interpretar as ações particulares e
8 Conservador, no sentido de volta a um passado perdido ou manutenção da ordem ou status quo.
entender que as mesmas são produzidas por diferentes motivações, possuem diversas orientações e formas de se relacionar, para num momento seguinte, compreender se tais ações coletivas contribuíram ou não para a mudança social.
Zald (1999) diz ser essencial trabalhar com os fatores culturais para compreender como se processa a mobilização de atores, a construção de identidades e as interpretações que os atores fazem sobre as situações que buscam modificar. A introdução de aspectos vinculados à cultura para a interpretação das ações coletivas foi uma preocupação central dos teóricos dos Novos Movimentos Sociais, mas que durante certo tempo foi negligenciada pelos teóricos do Processo Político, sobretudo por aqueles que estavam mais próximos às concepções da Mobilização de Recursos. A busca de interlocução entre as variáveis mais exteriores (EOP), com os aspectos relativos aos processos de micromobilização dos movimentos sociais, foi estabelecida principalmente pela introdução do conceito de quadro interpretativo (Frame) elaborado por Goffman (1974) e retrabalhado como uma categoraia de análise de movimentos sociais por David Snow e Robert Benford (1988).
Zald (1999) lembra, contudo, que o conceito de quadro interpretativo se confunde com outros, como cultura e ideologia. Para o autor, todos esses ainda são utilizados de forma muito ampla e frouxa nas análises sobre ações coletivas, uma vez que todos falam dos mecanismos aos quais são dotados de sentido os objetivos e ações dos movimentos sociais. Tentando separar os conceitos, Zald define cultura como compartilhamento de crenças e cosmologias, que é mediada por elementos simbólicos e linguísticos e que se referenciam a determinados agrupamentos sociais, sendo anteriores às estruturas de mobilização dos atores sociais. Ideologia seria todo um conjunto de crenças e motivações que justificam determinada ordem social ou que negam e se opõe a ela. Já quadros interpretativos seriam metáforas específicas, que buscam avaliar e sugerir ações de mudanças, tais quadros podem se inserir em sistemas de crenças mais complexos como ideologias, como ser influenciados por estruturas simbólicas mais amplas, em referência a padrões culturais determinados. Segundo Tarrow (2009), ideologia é um conceito que se relaciona com o descontentamento entre grupos distintos, e é útil para a identificação de um alvo, porém o conceito é vago para descrever o porquê das pessoas se engajarem em determinadas ações. A ideologia, portanto, se apresenta muitas vezes como um resultado ou uma reação automática de descontentamento ou
uma relação direta entre determinada ideologia e determinada forma de ação coletiva. Com isso, Tarrow (2009) diz que a ideologia é um dos recursos mobilizados pelos atores para ação coletiva, porém não é o único nem o mais importante.
Nesse sentido, as interpretações dadas por Melucci (2001) se aproximam de McAdam, Zald e McCarthy (1999, p.06) quando esses se referem aos enquadramentos interpretativos de um movimento, que seriam os esforços conscientes e estratégicos desenvolvidos pelos grupos para formar um entendimento compartilhado do mundo e de si, que motiva e legitima as ações coletivas. Tais significados compartilhados definem uma posição para o movimento, pela qual passará a olhar e interpretar a realidade.
Oberschall (1999) acrescenta dizendo que os quadros interpretativos são mecanismos de avaliação que dão forma ao descontentamento, incluem avaliações morais sobre o bem e o mal, como sobre o que é a justiça e a injustiça. Para Aquilés Chihu Amparán (2000) as principais etapas deste referencial se articulam em torno da construção de quadros de significação, que são organizados primeiramente a partir da seleção ou destaque de objetos e/ou eventos dentro de uma situação determinada, que produz uma leitura sobre o justo e injusto e, posteriormente, envolve a produção de atribuições, em que se busca vincular a responsabilidade (pessoas, grupos, evento, etc) pela produção de justiça/injustiça. Assim, a construção dos quadros interpretativos teria três grandes momentos. O primeiro é a construção de uma situação que precisa ser modificada, inclui a identificação de problemas e a atribuição de causas e responsáveis, essa etapa é chamada de quadros de diagnóstico. O segundo momento é aquele em que são construídas as respostas ou soluções necessárias para se reverter ou modificar uma situação, tal etapa é caracterizada de quadros de prognóstico. As duas etapas são compatíves entre si, contudo não são suficientes para a criação da ação. Amparán diz que é preciso a construção de motivos para o engajamento e para ação (quadro de mobilização), já McAdam, McCarthy e Zald (1999) apontam que tais quadros serão utilizados para julgar e lançar possibilidades de mudanças em relação a situações determinadas, porém o quadro de prognóstico sempre terá que conter minimamente algo de otimista, que justifique os esforços despendidos da ação coletiva.
Para Ganson e Meyer (1999) tais argumentos fazem parte da estrutura de mobilização, contudo, dizem que não bastam quaisquer argumentos para convercer os ativistas a agir. É necessário certo grau de
realismo, ao mesmo tempo em que os movimentos devem ser capazes de fazer diagnósticos e demonstrarem que sua ação levará a mudanças, convencendo outros de que tais possibilidades são reais, o que os autores chamam de “profecias autoverificadoras”. Da mesma forma Amparán (2000) aponta que tais motivos não podem ser demasiadamente fatalistas, pois como dito acima, estimularia a não ação. Diz ainda que um diagnóstico pode ser muito bem elaborado pelo movimento, já o prognóstico pode ser muito vago ou fantasioso, isso produziaria incerteza e também desentimularia a ação coletiva. Portanto, um quadro de mobilização dependeria de um bom diagnóstico, mas também de prognósticos que mostrem que o esforço e os riscos de se envolverem em uma ação coletiva podem trazer ganhos ou modificar a situação indesejada.
Nesse sentido, Ganson e Mayer (1999) classificam que os movimentos estão envoltos em dois padrões básicos de argumentos que mediam a produção de ações coletivas; um seria as retóricas reativas e o outro as retóricas da mudança. A retórica reativa é usual dos atores que optam pela inatividade, quando interpretam oportunidades para ação, ressaltam os riscos, a ação como futilidade e os efeitos perversos. Desse modo, o discurso é pessimista, cada vez que se busca modificar algo se tem, primeiramente, o risco de perder o que já está estabelecido, sendo mais provável perder do que obter algum ganho. O fator futilidade pressupõe que não há oportunidades para mudança, qualquer ação não é nada mais nada menos do que perda de tempo e de recursos. O efeito perverso diz que qualquer ação tende a piorar a situação, os efeitos involuntários negativos superariam as boas intenções desejadas, portanto, seria preferível a inação.
Para superar tais argumentos, os movimentos sociais precisam construir um quadro interpretativo que supere o pessimismo, optando assim por argumentar em favor da retórica otimista da mudança. Tal retórica tem por objetivo convencer os atores de que a ação não só é desejável como é possível. Contra argumentam apresentando novos elementos que anulam os constitutivos da retórica reativa. Anulam o argumento do risco, apontando que a inação também é um perigo, valorizam, portanto, a urgência, dizendo que o não agir coloca em perigo as possibilidades futuras de ação, sendo a posteriori mais difícil e improvável de que ocorram mudanças. Negam a futilidade por meio das janelas de oportunidades; momentos raros e breves em que são claras as possibilidades de obter êxito; não agir significaria fechar as possibilidades de mundaças, como levaria à perda de esperança. Por fim,
anulam o argumento dos efeitos perversos, justificando que a promessa de novas possibilidades advindas pela ação trará uma melhor política, uma sociedade mais justa, sem guerras, sem desigualdades de diversos tipos, enfim, cada movimento argumentará em prol de uma possibilidade de futuro realizável pela sua ação, negando os argumentos a favor da inação ou de que sua ação não tratá resultados concretos.
Zald (1999) aponta que os movimentos passam por uma constante contrução e adequação de seus quadros de interpretação para manter-se em atividade. Para o autor, a contrução de quadros interpretativos é uma atividade estratégica dos movimentos sociais, uma vez que são construídos por meio de debates internos em que visões de mundo, metas estratégias, táticas e repertórios são colocados em discussão e em disputa. Assim, constroem novos significados sobre temáticas específicas ou de como deveria ser a vida social, estabelecem cenários de injustiça como redefinem possíveis consequências devido à omissão ou continuidade em relação à determinada ação estatal, empresarial ou de outros grupos que considerem os responsáveis pela situação que buscam superar.
Para Ganson e Meyer (1999) cada movimento tem um nível de unificação e consenso em torno de quadros interpretativos. Contudo, a criação ou reformulação de novos quadros desencadeia uma série de desacordos e lutas internas sobre pontos de vista divergentes. Nesse sentido, os autores dizem que o grau de consenso é variável, modifica-se em torno de disputas retóricas que justificam a ação. A eficácia da ação precisa ser argumentada, sobretudo, para negar as retóricas que são contrárias ao agir dos movimentos.
Para McAdam, McCarthy, Zald (1999) os quadros interpretativos são diferentes durante as fases de desenvolvimento de um movimento: no início assumem formas menos conscientes, mas com forte capacidade para agregação de ideias, interpretações e atores sociais; em fases mais avançadas são objetos de críticas e avaliações que buscam reafirmar ou estender determinados quadros interpretativos, porém a inclusão de novas problemáticas não é feita sem a existência de grandes embates e disputas internas pela construção de novos significados.
Amparán (2000) sistematiza os elementos constitutivos das teorizações sobre o conceito de quadros interpretativos a partir de Goffman, Snow e Berfort, para investigar o nascimento de movimentos indígenas no México e como esses constróem uma interpretação sobre sua condição. Para Amparán, os enquadramentos interpretativos buscam vincular os indivíduos com as organizações, para tanto, é preciso que
ambos compartilhem de elementos comuns em torno de interesses, valores, metas, objetivos ou ideologias. Esse aspecto é chamado de quadro de alinhamento (frame alignment), sendo construído por múltilplos processos de micromobilização e de netness, que se desenvolvem em torno de processos comunicativos e de interação (espontâneos ou estimulados) que afetam ou promovem a aproximação entre interpretações de indivíduos e de organizações, criando uma ponte (frame bridging) que facilita os encontros entre diferentes quadros interpretativos.
Uma segunda característica dessa aproximação é a amplificação dos quadros (frame amplification), que significa os esforços das organizações para clarificar ou desenvolver certos quadros de interpretação, uma vez que os sujeitos que aderem a um movimento social participam e se inserem de forma diferenciada, tornando comum certa dispersão ou pouca integração a determindos referenciais. Contudo, é possível também que metas, objetivos, estratégias ou ideologias da organização sejam limitadas ou não estejam de acordo com a dos atores sociais, cabendo às organizações estender as fronteiras dos seus quadros interpretativos (frame extension) para agregar novos significados ou interpretações, evitando assim, a fragmentação de significados ou divisões internas. Por fim, um quadro interpretativo também pode ser transformado (frame transformation), quando as metas ou ideologias de um movimento já não correspondem às dos atores, cabendo à organização modificar seus referenciais por meio de novas ideologias, metas, valores, evitanto a dissolução do movimento.
De acordo com Melucci (2001) para compreender o papel dos movimentos sociais na contemporaneidade é necessário resgatar a teoria da ação, entendendo-a como um objeto composto de motivações, sentidos e escolhas, não sendo um produto de leis históricas ou de simples respostas causadas por determinações externas. De tal modo que os movimentos não podem mais ser vistos como uma ação sem ator. O processo pelo qual esses constroem suas lutas e como as mantém ao longo do tempo torna-se fundamental para a compreensão sociológica das ações coletivas. É diante disso que o conceito de identidade, para o autor, é central para a produção de conhecimento sobre ações coletivas.
Segundo Melucci (2001), uma identidade coletiva não é uma essência, ela é produzida por meio de trocas, negociações, decisões e conflitos entre os atores que compõem determinado grupo. Assim, não só as relações internas, face a face, são essenciais como também as relações e conflitos estabelecidos com o ambiente externo, seja por meio
de construção de alianças ou de adversários, como o próprio sistema político e as estruturas de oportunidades ou restrições permitem a construção de identidades. O autor define identidade coletiva como uma capacidade reflexiva que produz consciência da ação, é a capacidade simbólica, pela qual os atores produzem reconhecimento sobre o seu agir.
Para Naujorks e Silva (2010) o conceito de identidade tem sido central para diversas teorias de movimentos sociais, sendo para algumas abordagens um paradigma constituinte e para outras um conceito emergente, principalmente nas perspectivas oriundas da mobilização de recursos, cuja utilização tem por objetivo fechar determinadas lacunas. Para os autores, esse conceito busca responder a importantes questionamentos acerca das motivações que levam indivíduos a se mobilizarem em ações coletivas. Diz respeito também aos microprocessos de recrutamento, de manutenção dos movimentos, como se vincula aos significados atribuídos e veiculados ao engajamento em movimentos. Contudo, diversas críticas são indicadas a essa perspectiva, sendo as principais, como já indicado por Melucci (2001), o demasiado essencialismo presente no conceito, que o atribui como um valor intrínseco; a falta de precisão conceitual; o caráter fortemente normativo, como algo que deve ser encontrado; a noção de conservação, que retiraria a própria ideia de processo presente nas ações coletivas.
A ligação entre quadros interpretativos e identidade se dá, principalmente, vinculada aos processos que permitem aos indivíduos partilharem de uma identidade construída por meio de interações coletivas, dando motivos que justificam a participação e os esforços necessários para o engajamento em movimentos sociais. Esse processo é construído fundamentalmente a partir da interação e dos processos de comunicação entre os diversos ativistas, que influem para que identidades sejam anunciadas ou renunciadas (NAUJORKS, SILVA, 2010, p.10). Nesse sentido, as construções identitárias de indivíduos pertencentes aos movimenos sociais, como a própria identidade do grupo, são resultado da interação social, que permitem o compartilhamento de significados.