área de conhecimento necessária para uma sociedade secularizada
2. Qual é a realidade hoje do Ensino religioso no Brasil?
Sintetizando este debate que envolve organismos do Estado, ges-tores e órgãos da área de educação, confissões religiosas e seges-tores aca-dêmicos, podemos estabelecer três grandes vertentes para esta discus-são: 1ª) os que não admitem, em hipótese alguma, o Ensino Religioso na escola pública, escudados na defesa da laicidade do Estado; 2ª) os que advogam o Ensino Religioso claramente confessional, utilizando as brechas originadas da ambiguidade e das contradições da própria lei, que prevê, como já vimos, a matrícula facultativa e um órgão cole-giado integrado pelas confissões religiosas que “será ouvido” na defi-nição de conteúdos a serem ministrados; 3ª) os que admitem o Ensino Religioso na escola pública como área de conhecimento do fenômeno religioso no currículo escolar, privilegiando a escolarização e não os interesses das confissões religiosas, como uma aplicação didática da(s) ciência(s) da Religião.
aqueles que são contrários a qualquer modelo de Ensino Religioso na escola pública ancoram a sua argumentação no caráter laico do Estado previsto em vários artigos da constituição. é uma posição com um forte viés jurídico-político. Ela pode ser encontrada não apenas
em alguns partidos de esquerda ou em tendências deles, em alguns movimentos sociais e sindicatos. Trata-se de uma postura impermeável a qualquer crença religiosa e principalmente à sua presença no âm bito público, como nas escolas. Talvez seja um resquício de uma tra -dição marxista ortodoxa escudada no entendimento tradicional, mas hoje já bastante questionável, da religião como ópio do povo.
assim, a discussão permanece no âmbito legal, constitucional, en -volvendo interesses políticos do Estado e das confessionalidades, mor-mente a hegemônica em nosso país, e não abrange a contextualização do Ensino Religioso na escola pública no âmbito educacional e peda-gógico, na perspectiva de um processo histórico de escolarização.
O Supremo Tribunal Federal (STF) deverá julgar ainda duas ações Diretas de inconstitucionalidade (aDins) sobre o Ensino Religioso na escola pública: a aDin 4439, focada na questão do acordo Brasil-Vati-cano, já aprovado pelo congresso, e por isso tem força constitucional, e a aDin 3268 contra a Lei 3.459/2000 do Estado do Rio de Janeiro que, na prática, instituiu o Ensino Religioso confessional nas escolas pú blicas desse estado. Mas cabe ao STF julgar a inconstitucionalidade das leis e interpretar a constituição, nunca revogar um dispositivo da constitui-ção. Seja qual for a decisão do STF, a previsão constitucional do Ensino Religioso será mantida, a não ser que ela seja revogada por emenda do congresso nacional, o que, no momento, está totalmente fora de cogi-tação. Mas o STF pode julgar o Ensino Religioso na Escola Pú blica como constitucional e estabelecer aditivos, ou seja, normas e limites para o seu funcionamento. afinal, diante da evidente omissão legislativa do con-gresso nacional frente a várias questões de grande relevância para a sociedade brasileira, estamos em plena fase da judicialização da política e, na prática, do STF têm exarado sentenças que são verdadeiras normas de lei, em julgamentos de grande repercussão nacional.
Diante disso, podemos perceber que são duas posições que se excluem, ao ponto da discussão ser levada às barras dos tribunais. O modelo questionado pelas aDins citadas separa os alunos em classes de acordo com as suas confissões religiosas, os conteúdos ministrados pertencem às teologias das mesmas, os concursos de ingresso de pro-fessores supõem também a definição de uma confessionalidade e seu credenciamento e descredenciamento pela autoridade religiosa. não há dúvida que se trata de um modelo que fere frontalmente vários a r -ti gos da cons-tituição, principalmente os que tratam da laicidade do Estado, bem como a própria lei n.º 9.475/97 (que modificou a lei 9394/96 – LDB) que assegura, na parte final do seu caput, o respeito à
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diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo:
art. 1º. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte inte-grante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o res-peito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.
Entendemos a negação do Ensino Religioso na escola pública como a negação desse modelo de Ensino Religioso. a ambiguidade do dispositivo constitucional e da própria LDB, ao deixarem em aberto definições cruciais sobre a disciplina, conduziu a soluções particulares em estados e municípios, flagrantemente ilegais. ao prever o Ensino Re ligioso no currículo escolar, mas sem a previsão de uma área de co -nhecimento correspondente e sem apontar-lhe uma base epistemoló-gica, a legislação permitiu a proliferação de modelos que não levam em conta a diversidade e pluralidade cultural e religiosa da sociedade e que se firma como proselitista e doutrinária, abrindo o espaço pú -blico das escolas à pregação catequética das instituições religiosas.
Mas o que vem ocorrendo no restante do país? além daqueles es -ta dos da federação que ado-tam explici-tamente o ensino confessional, nos demais o Ensino Religioso apresenta muitas variantes, indo do inter-confessional ao Ensino Religioso como aplicação didática das ciências da Religião, esta, portanto, como uma área de conhecimento do fenômeno religioso no contexto do currículo escolar. Levantamento realizado por Débora Diniz (2008, 6) que interpretou diversos do-cumentos legais e regulamentações, encontrou os seguintes modelos:
Resultado semelhante foi encontrado por Giumbelli (2009), reafir-mando a predominância de modalidades de ensino interconfessional. Da mesma época, um levantamento realizado pelo FOnaPER teve como resultado:
Já existem vários estudos acadêmicos que analisam estes diversos mo delos adotados no Brasil. Um dos mais recentes e completos é o de Marislei Sousa Espíndula Brasileiro, na sua tese de doutorado apre-sentada em 2010, ao programa de pós-graduação strictu sensu em ciências da Religião, na Universidade católica de Goiás, sob orienta-ção do Prof. Dr. alberto da Silva Moreira. Segundo esta pesquisadora, o Ensino Religioso interconfessional ecumênico diz respeito ao mundo religioso cristão, mas com abertura ao diálogo com as demais religiões abraâmicas. Este foi o modelo que se desenhou na maioria dos siste-mas de ensino logo após a aprovação da LDB, em 1997. Para Brasileiro (2010), já o Ensino Religioso supraconfessional tem abordagem de na -tu reza científica ao invés de se fundamentar em doutrinas de determi-nadas religiões. Segundo ela, os Estados do Paraná e do Rio Grande do Sul adotam este modelo, enfatizando a preocupação de se trabalhar o Ensino Religioso a partir de conhecimentos científicos sobre as reli-giões e não a partir das doutrinas e teologias adotadas pelas mesmas. Este modelo é capaz, por exemplo, de incorporar ao seu programa as re ligiões indígenas, as de origem africana, como o candomblé, e tradi-ções religiosas e filosóficas orientais. neste modelo, a perspectiva supra-confessional é a que mais se aproxima do princípio da laicidade. além disso, ela busca se articular com os demais aspectos da formação para a cidadania como, aliás, prevê o projeto político-pedagógico da es cola para todas as áreas do conhecimento.
Este modelo dos estados do sul não conta com programas de ciên-cias da Religião, em nível de graduação. é exigida de seus docentes, para lecionarem ensino religioso, a graduação em áreas de ciências hu manas e sociais, como história, Geografia, Filosofia e Sociologia. al -gu mas instituições de ensino superior, como a Pontifícia Universidade ca tólica do Paraná, a Pontifícia Universidade católica do Rio Grande do Sul, a Universidade do Vale dos Sinos e a Escola Superior de Teologia (EST) oferecem cursos de especialização em MetodoTeologia do En -si no Religioso para suprir esta lacuna. O mesmo acontece com a Uni-versidade Regional de Blumenau (URB), em Santa catarina.
Existem também certas nuances entre estes modelos o que difi-culta muitas vezes uma classificação mais rigorosa. Por outro lado, em anos mais recentes, foi possível perceber uma clara tendência de evo-lução da maioria deles para o Ensino Religioso como área de conheci-mento, principalmente nos estados do norte e nordeste, sob os auspí-cios do FOnaPER e de algumas poucas instituições públicas de en sino superior que oferecem cursos de ciências da Religião em nível de graduação, com ênfase na preparação de professores de Ensino Re -li gioso. nos GTs de Educação e Re-ligião dos congressos, seminários e sim pósios mais recentes da SOTER, da aBhR e da anPTEcRE, foi possível perceber claramente aquela tendência.
nossa pesquisa se propõe a investigar justamente este modelo de Ensino Religioso chamado pelos autores citados de supra-confessional ou por outros, numa abordagem mais científica e pedagógica, de apli-cação didática das ciências da Religião. Percebemos que até agora este mo delo, que vai alcançando grande repercussão no exterior, sequer é lembrado aqui no Brasil frente aquelas duas posições que se excluem: ou existe o ensino religioso confessional ou não existe nenhum tipo de en sino religioso. O problema que se coloca é: que papel pedagógico exer ce este modelo de Ensino Religioso aconfessional e não proselitis ta, que se propõe a respeitar a diversidade cultural e a pluralidade re -li giosa da sociedade brasileira, no contexto de um Estado laico, tor-nando esta área de conhecimento epistemologicamente possível, ne cessária e até indispensável no currículo escolar?
a parte inicial do caput do artigo 1.º da lei n.º 9.475/97 (LDB) en -tende o conhecimento do fenômeno religioso como parte integrante da formação básica de todo cidadão e cidadã. Dependendo de que Ensino Religioso se trata, não há nisso nenhuma afirmação confessional e/ou proselitista. O fenômeno religioso é entendido aqui como objeto da
dente de sua afiliação confessional e até mesmo de seu autoproclama -do ateísmo. E vamos além. quan-do se fala de formação básica de to-do cidadão e cidadã, não estamos falando de um processo cognitivo res-trito apenas à aquisição de informações ou técnicas de aprendizagem, mas também à construção do conhecimento que exige uma postura diante da vida, da sociedade e da natureza, uma postura que, eviden-temente, se calca em valores éticos para o exercício pleno da humani-dade e da cidadania dos sujeitos, independentemente de qualquer crença religiosa.
a escola é historicamente um espaço privilegiado de aprendiza-gem, mas esta aprendizagem não se situa apenas no universo cogni-tivo e técnico. é consensual que a escola tem uma função formativa, com prometida com a formação de valores. Um projeto político-peda-gógico deve garantir esta função.
é neste contexto que queremos situar a função teleológica especí-fica do fenômeno religioso como objeto de estudo no contexto escolar. Para que estudá-lo? Outras disciplinas não teriam até melhores con-dições de fazê-lo, sem levantar tantas discussões em torno da plurali-dade cultural e da laiciplurali-dade do Estado? Teria este objeto de estudo um papel que o tornasse necessário e até indispensável ao lado das demais disciplinas?