realizada por meio digital em decorrência dos problemas de deslocamento. A internacionalidade do movimento marca como a geografia ainda pode criar algumas barreiras de contato entre os indivíduos através da interação face a face presencial. Contudo em decorrência da rápida difusão da informatização e da cybercultura pude ter contato e acesso a questões que anteriormente seriam complicadas de se obter devido à distância.
Aqui me atenho a um evento que é realizado a cada dois anos já descrito no capítulo um chamado de Terra Madre e Salone Internacionale del Gusto. Em outubro de 2014 aconteceu um destes encontros, enquanto realizava meu trabalho de campo. Vários participantes dos dois “Convívios” menézinhos participaram do evento. O facilitador sul e o líder do “Convívio”, inclusive permaneceram por mais tempo em Torino para participar de reuniões e palestras sobre o movimento e os caminhos a serem trilhados.
Este encontro tem o objetivo de reunir todos os países envolvidos no movimento Slow Food. A abertura do evento foi similar a abertura dos jogos olímpicos, em que cada país foi representado por um sujeito que carregava a bandeira de seu país seguido por participantes oriundos de seu continente, sendo separados assim em cinco blocos de apresentações. Muitos vestidos a caráter, em especial os que estavam levando as bandeiras.
O espaço onde estava sendo realizado o evento era um enorme galpão. Afinal abrigaria a comida do “mundo todo”74. Observava-se assim uma divisão continental das barracas em que cada país, muitas vezes possuía mais que uma banca. Na área que era destinada a América Latina havia uma quantidade enorme de barracas. Nos estandes destinados ao Brasil havia gente das cinco regiões de cada facilitador, indo de mel de abelha nativa, produtos derivados de mandioca, temperos, ostras nativas como berbigão, entre outros. A disposição das barracas me remeteu muito a feiras de ciências das escolas e seus estandes, onde as
74 Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=Cl9Q3WzMOsk. Acessado em
crianças apresentam e realizam experiências para o público que passa. Apesar dessa divisão do evento muitos participantes do Brasil nem se cruzaram no evento devido sua amplitude espacial e seu interesse com outros espaços que não o do seu país. Mesmo que muitas das coisas da própria nacionalidade não focem de seu conhecimento.
Haviam outros espaços mais específicos como uns destinados exclusivamente aos queijos e outro apenas para as bebidas. Também tinha separadamente um espaço de palestras em que se apresentavam pessoas de várias partes do mundo para discussão de temas diversos como controle alimentar, obesidade, meio ambiente e recursos naturais (sempre tendo como foco a alimentação, entre os palestrantes estavam duas figuras importantes: Jamie Oliver (britânico) e Alice Waters (estadounidense), ambos cozinheiros conhecidos mundialmente e participantes do movimento75 e Vandana Shiva (indiana) é vice presidenta internacional do Slow Food76. Um espaço para a apresentação e elaboração de comidas típicas, pratos elaborados com produtos da região do cozinheiro e de demonstrações de não desperdício como a demonstração feita pela Senhora Orgânica do Brasil. Além de um espaço para as crianças que além de brinquedos também havia o “Brincar com os Sabores”.
Estas andanças de produtos alimentícios geram estratégia para o fluxo internacional, ou mesmo dentro do país por aeroportos. A alegria era criar estratégias de mobilidade dos produtos do país para Torino e de Torino para o Brasil. Em especial com relação as Ostras e a banana. “Até agora não sei como não pegaram minhas ostrinhas no meio do caminho quando fui fazer o despache das malas ou passar pela fiscalização. ”; “Cara levamos tantas bananas chips na mochila que não sei nem mensurar. Voltamos com mais comida na mala do que roupa. Até deixei umas pelo caminho para abrir espaço. Estouramos a cota permitida. ”.
Ao me narrarem a vigem e o evento a relação dos participantes com a linguagem também estava muito presente. Em especial com relação a linguagem falada. Vozes e expressões do mundo todo eram escutadas no caminhar por entre as barracas, nas palestras, nas apresentações. Havia voluntários que faziam a tradução simultânea das palestras e mesas. Alguns dos participantes do Mata Atlântica tem um pequeno vocábulo
75 As falas tanto do Oliver quanto da Waters, juntamente com Petrini podem ser
assistidos em: https://www.youtube.com/watch?v=p4GySDuoI5c. Acessado em 13/10/2015
76 Sua fala foi realizada na abertura do Terra Madre e encontra-se em duas partes:
https://www.youtube.com/watch?v=K75hq-ZIs_A e
italiano, contudo como falaram “foi tudo na base do improvisation”. Contudo uma palavra italiana que me ensinaram tornou-se palavra oficial do encontro: assaggiare. Palavra traduzida como provar, experimentar, degustar uma pequena porção. Não precisamos quase comer mais nada era só a base do assaggiare.
Não apenas a linguagem os fazia aproximarem-se o distanciarem- se uns dos outros. Em meio a tantos vídeos e fotos que apresentavam pessoas de várias partes do mundo, me aproximei e identifiquei-me logo que vi uma mulher negra vestida todo de branco, turbante na cabeça, colares de contas no pescoço, um vestido rodado e cheio de babados. Logo este pensamento veio a minha cabeça: “olha uma brasileira, uma baiana, me representa”. O cheiro que me lembrava era daquele magnífico bolinho de feijão fradinho frito em azeite de dendê recheado de camarão, vatapá e caruru, vulgo acarajé.
Notei que apesar de não compartilharmos muitas coisas em comum, (como religião, hábitos alimentares, etnia, geração, visões de mundo e estilo de vida, isto é um cotidiano diferente, pois fui a Bahia uma vez e fiquei uma semana como turista), compartilhávamos algo em comum que me fazia sentir representada por ela. Mas afinal o que seria? Apesar de vivermos a mais de 2.600 quilômetros de distância naquele momento quando vi as imagens senti-me de certa forma contemplada, era um Brasil incorporado em uma baiana.
Fonte: Site oficial do Terra Madre
Utilizo-me do termo Estado Nação como trabalhado por Saskia Sassen (2003) como tendo um termo que está em transformação. Este conceito de Estado Nação está diretamente relacionado a maneira como os indivíduos atuam por meio da cidadania e da nacionalidade. Muito relacionada a questões legais de direitos e deveres de cidadão. Criando o que chama de fidelidade exclusiva, muito forte no século XX para convencer as pessoas a lutarem por “seus territórios”.
En términos más generales, la desestabilización de las jerarquías de poder y de fidelidad centradas en el Estadonación ha permitido la multiplicación de dinámicas y de actores no formalizados o sólo formalizados parcialmente. Efectivamente asistimos a una poderosa desterritorialización de las prácticas y de las identidades asociadas a la ciudadanía y a los discursos sobre la lealtad y la fidelidad. (SASSEN, 2003, p. 88)
Este evento já foi trazido em vários momentos da narrativa etnográfica local, regional e nacional. Isto se dá pela importância que este evento possui para o movimento que demonstra a expansão do movimento e seu impacto em várias localidades. É também um forte aproximados dos sujeitos dentro do Brasil. Como aconteceu em várias visitas que fizemos no projeto expedições. Escutei em vários momentos “acho que te conheço, você não estava no Terra Madre deste ano? Eu fui com a Fortaleza do Baru”; “Nossa a gente se conhece fora do Brasil para depois nos encontrarmos aqui. Tinha certeza que seu rosto era familiar foi em Torino em 2012 né. No Terra Madre. ”
Apesar de me focar neste evento a internacionalização do Movimento Slow Food está presente em todas as estruturas anteriormente narradas, o local, o regional, o nacional. No Projeto Expedições um depoimento se tornou muito importante para exemplificar a ideia de fluxos e do que David Harvey (1996) chama de compressão espaço e tempo. Pois foi onde tive acesso a informação de trocas e fluxos de alimentos e matérias primas. E como esse acesso internacional gera informações de um país sobre si mesmo diante ao outro país. Para ficar mais claro o que quero ponderar podemos ver a fala a seguir do Sr. Gabiroba:
Aqui na região do cerrado houve uma migração egípcia e junto trouxeram uma cumbuca com sementes de trigo egípcio, com semente crioula. E eles começaram a plantar e aquilo pegou e espalhou. Chegou uma época 1920, 30 que chegava a exportar para os EUA. E nesse meio tempo foi um pesquisador francês que andou pelo interior do pais foi para lá e em Cavalcante e falou estou com fome vocês tem alguma coisa para mim? A gente tem pão. Pão? Pão do que? De milho? Mandioca? Não é de trigo. Eles plantavam lá. Só que teve uma época que eles misturaram esse trigo crioulo com outro trigo e parece que deu uma praga e contaminou a plantação, da produção. Eles fizeram a festa da colheita um dia e o trigo estava estragado e todo mundo passou mal. Para evitar que continuasse isso, destruíram todas as plantações. E aí parou, acho que na década de 50, 60. E agora retomaram porque o pessoal do assentamento dois produtores descobriram essa história nos arquivos de alto paraíso e Cavalcante. E tem na biblioteca nacional no rio também tem arquivos. E o banco de sementes da EMBRAPA tem essa semente. O Slow Food no Egito está louco para vir. Porque eles falaram que lá eles não têm mais essa semente crioula. Eles estão com dificuldade de produzir e assim pegariam daqui para plantar lá. Ele colheu 100 Kg, mas não conseguiram armazenar e assim perderam. [...] Assentamento Silvio Rodrigues que está realizando isso. Não temos muito contato com os assentamentos esse só do ano passado para cá. O problema é a dificuldade de comunicação. O Colônia 1 é mais fácil porque a UNB já fez trabalho lá tem uma das mulheres que faz parte do convívio. Tem outro em planaltina que tem uma professora da UNB que é do convívio já desenvolve um trabalho lá. Lá é muito forte, desenvolvem trabalhos com frutos do cerrado.
4 POR UM COTIDIANO SLOW
Entre tantas questões, uma em especial me acompanhou em todos os caminhos que percorri: O que leva uma pessoa a engajar-se no Movimento Slow Food e fazer parte desta rede de interação construída através da comida? Foi na busca de responder esta questão que me debrucei neste capítulo. Para isto irei contextualizar meu ingresso e minha motivação de estudar e participar como atuante no Slow Food. Através do que liga minha trajetória a trajetória dos alguns participantes do movimento, podendo assim perceber como os participantes apesar dos conflitos e divergências tem um elo com o movimento que possibilita a criação de uma tribo como diria Michel Maffesoli (2006) e que a barreia espacial, geracional, de gênero, classe social entre outros elementos não justifica a falta de pertencimento nesta tribo. Em que o rodar e o viajar são muito presentes nestas trajetórias. Aqui também buscarei ampliar minha visão sobre o conceito de rede social. Em que os sujeitos e suas interações cotidianas são elementos importantes e fundamentais para os elos da rede.
Para isto me ative nos cinco principais temas que surgiam constantemente a partir de diálogos com os participantes, as descrições sobre suas trajetórias e como se ligaram a rede Slow Food. Ou melhor, os cinco principais “nós” que interligavam os indivíduos a rede Slow Food. O primeiro é a infância e a educação; o segundo é sobre a ecogastronomia; o terceiro sobre a visão de risco; o quarto sobre o prazer; e o quinto e o fundador do próprio nome do movimento sobre o tempo.