visões sobre as mulheres
TABELA 2 RESULTADO DOS PROCESSOS DE SEDUÇÃO DA VARA CRIME DE SERROLÂNDIA
20. Qual a sua opinião sobre o divórcio?
21. Gosta de crianças? Que vê nelas?153
151 HAZER William C. Relações sexuais no matrimônio. Rio de Janeiro: Editora Universo, s/ data, p. 5.
152 Como esse caderno não possuía nenhuma data, pesquisamos vários elementos presentes nele, a exemplo de nomes de novelas, para chegarmos a esta conclusão.
Destacamos algumas respostas que estão diretamente relacionadas ao tema estudado:
Questão 4 - “Condeno, matar uma vida no ventre de uma mulher é doloroso.” Questão 6 - “Muito evoluído, mas temos que aceitar a realidade dela”. Questão 14 - “Jamais, ninguém merece um tipo de humilhação dessas.”
Questão 15 - “Na verdade eu não sei definir o que é casamento, mas deve ser um passo muito decisivo da pessoa.”
Questão 16 - “A personalidade, o jeito de se vestir, a maneira dela agir consciente.” Questão 17 - “A honestidade, responsabilidade, compreensão, maneira de se vestir e agir.”
Questão 20 - “Sou a favor, mas faria o possível para não chegar a esse ponto.”154 É significativo observar que já em 1978 começava a haver uma certa inquietação em razão de o mundo estar “muito evoluído”, parecendo-nos que as transformações discutidas acima começaram a influenciar Serrolândia. A determinação dos papéis tradicionais de homens e mulheres, em que o feminino estaria associado ao privado e o masculino ao público, mantiveram-se de alguma forma. Quando se admiravam no homem características como honestidade e responsabilidade, talvez se estivesse relacionando-o às atividades tradicionalmente masculinas. As características admiradas na mulher (personalidade, modo de vestir e de agir) apareceram de forma muito vaga, mas podemos perceber um certo distanciamento do modelo anterior, mais tradicional, visto que não apareceram os atributos “tipicamente femininos” como delicadeza, bondade e compreensão, esta última admirada no homem. As respostas às perguntas sobre aborto e divórcio serão analisadas mais adiante na comparação entre os cadernos.
O segundo caderno, provavelmente escrito em 1983155, é bastante extenso, contendo oitenta perguntas; trata de temas variados, mas há uma predominância de questões sexo-afetivas. Diferentemente do questionário do caderno anterior, que estava incompleto, este foi respondido por vinte pessoas, todas mulheres; a maioria tinha entre 16 e 23 anos, sendo que apenas uma tinha 33 anos. A maioria dos temas abordados no primeiro caderno apareceu no segundo e embora seja difícil fazermos uma comparação entre os dois, visto que a análise sobre o primeiro é bastante limitada por conter apenas uma resposta, tentaremos traçar um rápido paralelo entre ambos. Não apresentaremos aqui todas as perguntas e respostas deste caderno, devido a sua extensão, já que elas constarão em anexo, no final da dissertação. Uma comparação entre as observações acima sobre o caderno de confidências de 1978 e os
154 Idem.
resultados que apresentaremos a seguir relativos ao de 1983, dá-nos indicações sobre mudanças no período estudado.
As respostas à questão “Como você vê o mundo hoje?” do segundo caderno não se diferenciaram muito da resposta do primeiro, analisado acima. A maioria lamentou o fato de o mundo estar “difícil, tumultuado, louco, mudado, evoluído e desgraçado”, sendo que apenas em uma resposta o mundo foi visto como “maravilhoso”. Essa visão pessimista parece estar relacionada a uma tentativa de demonstrar rejeição às mudanças ocorridas nesse momento no Brasil e também em Serrolândia.
Sobre o tema casamento, a dona do caderno elaborou uma questão interessante: “Você seria capaz de se casar sem amor? Para nossa surpresa, cinco das entrevistadas responderam: “depende / quem sabe?”, fugindo completamente das representações sobre amor e casamento presentes no caderno. A resposta à maioria das perguntas nele contidas (até quando não eram questões ligadas ao tema) se reportavam a um ideal de amor romântico. Em resposta à questão “Você já pensou em se casar algum dia?”, 85 % das entrevistadas responderam sim, sete delas afirmando ser “o sonho de toda mulher” e apenas duas responderam negativamente à questão.
Para discutir a importância do casamento para essas mulheres analisamos também as respostas à questão: “O que deseja ser no futuro?”: das vinte entrevistadas, nove responderam que pretendem ser esposas, mães e/ou donas de casa, sendo que quatro destas afirmaram também o desejo de terem uma profissão, considerando o casamento e o trabalho como funções compatíveis; seis entrevistadas, ou seja 30 % delas citaram apenas a profissão que desejam seguir no futuro, dentre elas: atriz, advogada, médica, assistente social e psicóloga. Essas respostas sugerem que o casamento não era mais o único objetivo das mulheres nessa sociedade. Apareceu ainda a resposta “pretendo ser amante”, que consideramos ousada, levando em conta que o caderno era lido por várias pessoas.
O caderno trouxe duas perguntas sobre maternidade: “O que você entende por ser mãe?” e “Você gostaria de ter filhos?”. Em resposta à segunda, 85 % das entrevistadas disseram que sim; em relação à primeira questão a maioria considerou a maternidade “linda, maravilhosa”, sendo que duas afirmaram que “ser mãe” pode “trazer muita tristeza”, pois “ser mãe é padecer num paraíso”, indo de encontro às representações idealizadas sobre a maternidade.
Quanto ao divórcio, as opiniões se dividiram: das vinte mulheres, sete disseram que o divórcio é “bom, normal” e foram a favor dele, seis o consideraram “ruim, errado,
terrível” e foram contra, enquanto o restante não respondeu a essa questão ou disse não saber o que pensa. No caderno de 1978, a única confidente que o respondeu foi a favor do divórcio, embora tenha dito que “faria o possível para não chegar a esse ponto”. Consideramos essa resposta significativa, visto que o Divórcio havia sido aprovado um ano antes (1977), o que indica que provavelmente as discussões em torno desse tema que estavam se dando no Brasil nessa época, influenciaram, de alguma forma as mulheres em Serrolândia.
As representações sobre o masculino que apareceram nesse caderno fugiram um pouco das visões tradicionais, visto que quase 50 % das entrevistadas disseram que “o mais importante em um homem” era o físico, parecendo-nos menos preocupadas com os valores morais, estando mais voltadas para o seu desejo como mulheres. Entretanto, as representações sobre o feminino reproduziram visões tradicionais, sendo a honestidade, o respeito e o comportamento os atributos mais admirados em uma mulher.
É muito significativa a quantidade de perguntas referentes ao tema amor no caderno de 1983, sendo que das oitenta questões, 12 mencionaram de alguma forma este sentimento. Em resposta à pergunta “O que você acha do amor?”, a maioria, ou seja 70 % das entrevistadas associaram o amor a sentimentos positivos, sendo que os principais adjetivos citados foram “maravilhoso” e “lindo”. No entanto, cinco delas mostraram uma visão mais pragmática sobre o amor ao afirmarem que este sentimento “só é bom quando correspondido”, fugindo um pouco da idealização do amor romântico, apenas uma pessoa associou amor com dor. Essa idealização foi percebida na maioria das respostas às questões relativas a esse tema. A grande maioria das entrevistadas revelou um romantismo nos seus discursos, afirmando que já amaram, sofreram e declararam seu amor, mas o que nos chamou a atenção, ainda nesse caderno, foi a dicotomia entre amor e paixão. Embora algumas entrevistadas tenham associado amor com paixão, a maioria a via como um sentimento “ruim, triste, péssimo, horrível” oi ainda “passageiro e irreal”, o que sugere uma hierarquização desses sentimentos, o amor sendo visto como superior à paixão.
Na comparação dessas opiniões com o caderno de 1989, que apresentaremos a seguir, não vimos muitas diferenças quanto a este tema, os adjetivos mais apontados pelos entrevistados foram: inexplicável, lindo, puro, respeitoso. O amor apareceu neste caderno, de uma forma mais geral, associado à relação homem / mulher e em algumas respostas percebemos uma preocupação com a possessividade, vista como negativa, ao contrário de valores como o diálogo, a compreensão e a troca, considerados fundamentais em uma relação de amor.
O último caderno, de 1989, foi respondido por vinte e uma pessoas, das quais onze eram do sexo feminino e dez do masculino, com idades que variaram entre 11 e 23 anos. Estão listadas abaixo todas as perguntas156 contidas nele, porém nossa análise se restringirá às que julgamos mais relacionadas ao tema estudado, que estão em negrito:
1. Qual o seu nome? 2. Qual o seu endereço?
3. Qual a sua data de nascimento e qual o seu signo? 4. Qual a sua opinião sobre amizade?
5. O que você acha da natureza? 6. Quem é Deus para você?
7. O que é sexo para você? Você ainda acha a virgindade importante?