• Nenhum resultado encontrado

Qual rural?

No documento CURITIBA 2006 (páginas 55-60)

2 A INTERAÇÃO DOS SISTEMAS NATURAIS E A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO RURAL: BASES CONCEITUAIS

2.1 O rural, a diversidade e o discurso da sustentabilidade

2.1.1 Qual rural?

As grandes transformações sofridas pelo rural nas últimas décadas são certamente responsáveis por sua reconfiguração em várias dimensões (econômica, social, territorial, ambiental) e têm como origem, sobretudo, o processo de modernização na agricultura acontecido a partir de então.

Essa reconfiguração remeteu a necessidade de novas formas de abordagem no intuito de compreender a nova realidade rural. Para entendimento as funções da modernidade e por onde passa a noção de desenvolvimento, da crise ecológica e de

sustentabilidade na construção dessa nova realidade, é necessário constituir um diálogo com alguns dos vários estudiosos16 do rural, indagando o que é o “rural” na atualidade, como ele se constitui e que características definem um espaço “rural”.

Essas questões são, sem dúvida, pertinentes para a situação espaciotemporal dessa problemática de pesquisa.

Admite-se que as políticas de modernização da agricultura brasileira, adotadas entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980 do século passado, representaram a aceitação, por parte dos cientistas sociais, de “um certo”

diagnóstico sobre o rural brasileiro: faltava-lhe “modernidade” (FERREIRA, 2002).

Embora o debate sobre o agrícola e o agrário brasileiro nas décadas de 1950 e 1960 do século XX tenha sido muito mais fértil do que essa análise, a visão (e, conseqüentemente, as propostas) que prevaleceu clamava por uma modernização que aumentasse a produção e a produtividade agrícola.

O objetivo era a mudança de sua base técnica — num processo de apropriação crescente pela indústria de elementos do ciclo produtivo agrícola — e pela transformação das formas de gestão. A mudança da base técnica estava atrelada a um “pacote tecnológico” que previa a motomecanização, os produtos químicos como fertilizantes e defensivos (identificada como “Revolução Verde”) e a pesquisa genética para seleção e melhoramento das espécies animal e vegetal. Fica implícita aí a “modernidade”17 que faltava à nossa agricultura: a artificialização, a mecanização, a produção em larga escala resultante do cultivo em áreas de grande extensão, ou seja, a homogeneização da produção.

Pode-se dizer que “modernidade” transmite a idéia de transição, de ruptura, do contraste entre um passado arcaico, tradicional e um presente (futuro) “moderno”. É a oposição entre o “antigo” e o “moderno”, uma revolução no tempo.

O pensamento dicotômico que fundamenta essa visão se expressava no rural (agrícola) e no urbano (industrial), como coloca Ferreira (2002, p. 2): “a pressuposição segundo a qual o novo mundo era urbano, e o velho era rural, em

16 (WANDERLEY, VEIGA, ABRAMOVAY, FERREIRA, BRANDENBURG, ALMEIDA, MALUF, MARTINS, JOLLIVET, BILLAUD e outros).

17 Para Latour (1994), “a modernidade possui tantas definições, tantos sentidos quantos forem os pensadores ou os jornalistas”. Observe-se que esse autor parte da idéia de que “jamais fomos modernos”, que é, inclusive, o título de sua obra citada nas referências bibliográficas desse artigo.

função dos espaços que historicamente eram base dos modelos societários em expansão e em declínio”.

Diante das perspectivas do desaparecimento acelerado do rural, constituíam-se

...as idéias da urbanização societária geral e da artificialização da agricultura, que liberava crescentemente a produção de alimentos da sua base natural-rural e de seus componentes e agentes sociais arcaicos (LEFEBVRE,1970 apud FERREIRA, 2002, p. 1).

Essas mudanças provocaram a “reconfiguração social do meio rural, que de espaço de trabalho e vida passou a ser predominantemente espaço destinado à produção” (WANDERLEY, 2000). “Foram as finalidades da agricultura que se transformaram, passando progressivamente da gestão dos homens para o controle das coisas” (RAYNAUT 1994, p. 89). Essa “fragmentação do mundo”, que se produz no meio rural modernizado, é parte central da modernidade enquanto concepção e processo da história.

No decorrer das décadas de 1950 e 1960 do século XX, agricultura encontra, nos Estados Unidos da América e na Europa, um terreno aplicativo no qual se estrutura um aparato visando, através de leis impostas, transformar o setor ideologicamente “arcaico”, tradicional e atrasado em moderno, com crescente participação econômica nacional. Para acompanhar o “estágio” urbano da modernidade, a agricultura buscou integrar-se ao crescimento econômico, aumentando a produção e a produtividade, comprando da indústria e a ela vendendo. Essa situação preconizava o desaparecimento do rural e

...pressupunha a hegemonia do industrialismo e da urbanização na civilização moderna, a substituição da comunidade pela sociedade, da solidariedade mecânica pela orgânica, da racionalização do mundo como sentido dos processos sociais em curso, da generalização do modo de produção capitalista de base industrial e urbana, em escala planetária (FERREIRA, 2002, p.1).

Ferreira (2002, p. 2) destaca os sentidos vinculados às teorias de declínio, que se desenvolveram quando os processos de modernização da agricultura e de transformação do mundo rural atingiram o seu auge no contexto histórico:

O “sentido de esvaziamento demográfico”, com conseqüências sociais e ambientais marcantes para os espaços rurais e os espaços das cidades, reforçando o papel secundário do rural no mundo urbanizado.

O “sentido de diminuição de participação da agricultura no PIB e da sua crescente subordinação ao processo de agroindustrialização”, ao padrão agroindustrial, separando-a cada vez mais da base natural, em que se perdia a capacidade de gerar emprego e ocupação nas suas diferentes formas sociais.

O “sentido de proletarização da população rural e generalização do modelo empresa moderna”, em que formas diferenciadas de produção agrícola foram dominadas pelo modelo modernizador e “a idéia de generalização da cultura urbana desqualificando a pertinência do rural como espaço portador de singularidades”.

A sustentação técnica, econômica e política das unidades produtivas mais

“avançadas” e a eliminação das mais atrasadas culmina no fenômeno do êxodo rural, que naquele momento se tornou desejável, porque possibilitaria o desenvolvimento dos agricultores mais dinâmicos e em melhores condições. “Nessa visão, o desenvolvimento é um processo considerado único, que leva do atrasado ao moderno dentro de uma concepção linear” (Almeida 1998, p. 40). Portanto, o estilo de vida urbana pareceu ter triunfado como modo hegemônico de organização de vida.

No Brasil, o que ilustra essa visão modernizadora é a percepção de um urbano como lócus privilegiado da modernidade, o que produziu uma relativa invisibilidade do rural, visto como um espaço em processo de esvaziamento demográfico e de perda da importância econômica, social e política, evidenciado na própria definição do que é rural.

Veiga (2002) e Wanderley (2001)18 criticam a forma como os institutos de pesquisas brasileiros têm classificado o urbano e o rural. Para ambos, o Brasil é menos urbano do que se imagina. Wanderley (2000) afirma que o rural se define muito mais por aquilo que ele não é — não é urbano — do que por aquilo que ele é.

Para a autora, na realidade existe uma grande parcela da população, que é

18 “O meio rural e sua população recebem, no Brasil, uma definição oficial muito particular, da qual decorrem conseqüências importantes para o dinamismo destas áreas. Aqui, toda a sede municipal, independentemente da dimensão de sua população e dos equipamentos coletivos de que dispõe, é considerada cidade e a população é contada como urbana. O meio rural corresponde ao entorno da cidade, espaço de habitat disperso onde predominam as paisagens naturais e os usos atribuídos às terras apropriadas, tradicionalmente, à produção agrícola [...] em conseqüência o ‘rural’ está sempre referido à cidade como sua periferia espacial precária e a vida da população depende direta e indiretamente do núcleo urbano que a congrega” (WANDERLEY, 2000, p. 32).

considerada como urbana “sem jamais ter entrado numa cidade” (Wanderley, 2001, p.32).

Assim, o contato intermitente ou permanente dos ‘rurais’ com cidades deste tipo [pequenas cidades] nem sempre significa o acesso a uma efetiva e profunda experiência urbana, que se diferencie ou mesmo se oponha ao seu modo de vida rural, mas pode significar, simplesmente, a reiteração de uma experiência de vida rural menos precária que, por sinal, nem toda pequena cidade brasileira consegue assegurar a seus moradores, urbanos ou rurais (WANDERLEY, 2000, p. 32 apud DIAS, 2003b).

Apesar das críticas, o rural foi definido como tudo aquilo que não era urbano. A constatação da preponderância do urbano despertou um “movimento de reivindicação” pelo reconhecimento do rural, que se transforma diante das imposições dessa urbanidade, mas que não deixa de existir. Mesmo com todo o processo que parecia anunciar a “morte do mundo rural”, a realidade apontava para a capacidade de parcelas desse rural de suportar mudanças e, assim, transformar-se, construir-se e reconstruir-se.

Esse movimento se deu concomitantemente ao período de modernização da agricultura seguido da crise do modelo modernizador. No caso brasileiro o período entre o início da “modernização” e o diagnóstico da crise do modelo de agricultura moderna se deu em meados da década de 1960 até os anos 1980. Tratava-se de um processo de desenvolvimento subsidiado pelas políticas públicas no rural, com forte presença do Estado como instituição reguladora, conduzindo a uma significativa implementação do modelo modernizador a despeito de diferentes formas de organização social do espaço rural subsistentes.

Formou-se, assim, uma concepção hegemônica de agricultura com a industrialização crescente dos processos agrícolas sob a onda do crescimento econômico. Assim como em outras regiões do planeta, a modernização da agricultura acarretou conseqüências sociais, políticas, econômicas e ambientais:

depredou o ambiente natural e consumiu os recursos não-renováveis com “alegre irresponsabilidade” (WILSON, 2002 apud DIAS, 2003).

Essas conseqüências geradas pelo modelo modernizador de desenvolvimento conduziram à crise de recursos, de produtos e de resíduos, caracterizando o que chamamos crise da modernidade.

No documento CURITIBA 2006 (páginas 55-60)

Documentos relacionados