• Nenhum resultado encontrado

QUALIDADE DA AUDITORIA E GERENCIAMENTO DE RESULTADOS

1 INTRODUÇÃO

2.5 QUALIDADE DA AUDITORIA E GERENCIAMENTO DE RESULTADOS

A importância de entender a utilização de medidas para o gerenciamento de resultados

e a parcela dos accruals discricionários é a sua utilização como proxy para mensurar a qualidade

da auditoria. A questão que está inerente a utilização dos accruals discricionários, é que os

auditores independentes possam melhorar a qualidade das informações financeiras por detectar

ou corrigir manipulações oportunísticas realizadas pela administração.

Dang (2004) examina se a má qualidade da auditoria está relacionada com níveis

maiores de gerenciamento de resultado e erros de previsão dos analistas. De acordo com o autor,

é possível afirmar que empresas de auditoria que apresentam má qualidade de auditoria são

aquelas em que as empresas apresentam maiores níveis de gerenciamento dos resultados. Os

achados apontados por Dang (2004) podem sugerir uma associação positiva dos níveis de

gerenciamento de resultados com a qualidade de auditoria.

Abordagem semelhante é trazida por Moraes (2014), ao investigar a relação dos

honorários de auditoria e a qualidade dos serviços prestados. Para o autor, os resultados sugerem

que empresas de auditoria que tendem a permitir maior nível de gerenciamento de resultados

(o que pode ser considerado como qualidade menor) são àquelas que praticam remuneração

inferior. No estudo, Moraes (2014) utilizou os accruals discricionários obtidos pelo modelo

Jones (1991) como variável dependente e a variável honorários de auditoria foi inclusa como

variável independente, sendo uma dummy, na qual é igual a 1 se honorário de auditoria anormal

é negativo e zero caso contrário.

Diferente do estudo de Moraes (2014), este trabalho considera os honorários de auditoria

como variável de interesse e a utilização dos accruals discricionários são baseados no modelo

KS (KANG, SIVARAMAKRISHNAN, 1995) como proxy para qualidade da auditoria.

Khalil e Ozkan (2016) investigam a relação entre a independência do conselho,

qualidade de auditoria e gerenciamento de resultados. Os autores utilizam da premissa que as

empresas denominadas Big Four fornecem qualidade de auditoria superior, de modo que

encontram evidências que as empresas auditadas por firmas Big Four são menos susceptíveis

ao gerenciamento de resultados, o que é devido a uma maior qualidade fornecida por essas

auditorias. A pesquisa, no entanto, não aborda se estas empresas também remuneram melhor

os auditores independentes, o que pode ser explorado em um contexto mais atual.

Na visão de Habbash e Alghamdi (2016), a qualidade da auditoria pode ser associada

com a influência da opinião dos auditores independentes e sua capacidade em restringir o

gerenciamento dos resultados. Na realidade brasileira, o relatório dos auditores independentes

é predominantemente de opinião sem ressalva (DAMASCENA, FIRMINO, PAULO; 2011) o

que pode ser preocupante caso haja um forte gerenciamento de resultados fora dos aspectos

normativos nas companhias brasileiras, como já identificado em pesquisas prévias sobre o tema

(ALMEIDA, 2006; MARTINEZ, 2008; ALMEIDA, LOPES e CORRAR. 2011).

Embora a literatura caminhe no sentido de que empresas de auditoria maiores (com

maior qualidade) apresentem associação significativa com o earnings management pela

capacidade de oferecer serviços da maior qualidade e apresentarem menor grau de dependência

com o cliente, os estudos de Maijoor e Vanstraelen (2006), Piot e Janin (2007) e Yasar (2013)

não evidenciam uma relação significativa entre o tamanho da firma de auditoria e o earnings

management, o que contribui para que estudos futuros sobre honorários e qualidade da auditoria

possam ponderar a questão de maior qualidade em firmas de auditoria Big Four.

Apesar das pesquisas utilizarem o gerenciamento de resultados como proxy para

qualidade de auditoria, a utilização desta medida ainda não é um consenso na literatura

conforme destaca Knechel et al. (2013) ao afirmar que a qualidade de auditoria tem sido um

tema bastante discutido, porém, pouco compreendido, e ainda sem consenso no meio teórico.

Ainda assim, a utilização do gerenciamento de resultados e qualidade de auditoria

também pode ser observada em pesquisas realizadas por Kanagaretnam, Krishnan e Lobo

(2010), Kallapur, Sankaraguruswamy e Zang (2010); DeFond e Zhang (2014), Khalil e Ozkan

(2016) Habbash e Alghamdi (2016).

Portanto, esta pesquisa utiliza os níveis de accruals discricionários como proxy para a

qualidade da auditoria a ser incluída no modelo de análise que visa verificar a possível

associação desta variável com os honorários determinados pelos auditores. Ou seja, a presente

pesquisa incorpora a qualidade de auditoria não como uma variável dicotômica, mas uma

métrica do nível de accruals discricionários na tentativa de identificar a relação entre estes

fatores.

2.5.1 Accruals totais, accruals discricionários e accruals não discricionários

Os accruals ou acumulações podem ser entendidas como a diferença entre o resultado

líquido da empresa e o fluxo de caixa operacional líquido (MARTINEZ, 2008). A partir dessa

definição, os accruals representam as contas da demonstração de resultado (receitas e despesas)

que ocasionam em um lucro/(prejuízo), mas que não implicam, necessariamente, na variação

de caixa e equivalentes de caixa da empresa.

Conforme destacado por Paulo (2007), “o accrual é um conceito contábil empregado

para atender ao regime de competência (accruals basis) e que busca mensurar o resultado no

sentido econômico, independentemente da realização financeira das transações e eventos”.

Portanto, verifica-se que os accruals são situações normais do processo contábil e representam

uma característica inerente ao reconhecimento das transações econômicas.

Entretanto, Martinez (2008) enfatiza que o problema dos accruals consiste em o

administrador influenciar de forma discricionária no seu aumento ou redução com o intuito de

“manipular” o lucro da empresa. A situação se torna ainda mais complexa pelo fato de que o

uso do julgamento profissional é subjetivo e sujeita aos diversos incentivos dos gestores.

Adicionalmente, as oportunidades para interferir nas acumulações também têm consequências

pelas práticas contábeis adotadas em cada país (ALMEIDA; ALMEIDA, 2009).

De tal modo, Paulo (2007) e Martinez (2008) enfatizam a questão de se separar os

accruals em accruals discricionários e accruals não discricionários. Os accruals

discricionários seriam acumulações artificiais, cujo objetivo é a manipulação do resultado

contábil, enquanto que os accruals não discricionários são as acumulações normais do negócio

da empresa.

Portanto, consistente com a ideia de que os accruals discricionários podem fornecer

informações sobre o gerenciamento de resultados com objetivo de “manipular” o resultado

contábil, Dang (2004) afirma em sua tese que empresas auditadas por auditores de menor

qualidade podem fornecer um maior nível de gerenciamento de resultados. Sendo assim, este

estudo utiliza estes accruals discricionários na intenção de estimar a qualidade da auditoria, ou

seja, empresas com maiores níveis de gerenciamento de resultado (maiores níveis de accruals

discricionários) teriam serviços de auditoria de menor qualidade e a partir daí seria possível

verificar a sua influência nos honorários de auditoria.

Entre os principais modelos operacionais de mensuração dos accruals discricionários,

que podem ser utilizados como proxies para o gerenciamento de resultados estão (MARTINEZ,

2001; PAULO, 2007):

a)

Modelo de Healy (1985);

b)

Modelo DeAngelo (1986);

c)

Modelo Jones (1991);

d)

Modelo Jones Modificado (DECHOW, SLOAN e SWEENEY, 1995) e;

e)

Modelo KS (KANG, SIVARAMAKRISHNAN, 1995).

Thomas e Zhang (2000) destacam o bom desempenho do modelo KS em relação aos

demais modelos desenvolvidos. Para Martinez (2001), o modelo KS apresenta melhores

resultados no ambiente das empresas brasileiras, portanto, é previsível que os resultados obtidos

nesta pesquisa consigam captar melhores resultados para estimação da qualidade da auditoria a

partir do modelo KS (KANG, SIVARAMAKRISHNAN, 1995).

Por fim, a utilização dos accruals discricionários não segue um sentido direcional

específico considerando os objetivos desta pesquisa, portanto, o gerenciamento de resultados

pode ser melhor mensurado pelo valor absoluto dos accruals (REYNOLDS, J. K., FRANCIS,

J. R., 2001). Cabe ainda destacar que, de acordo com Paulo (2007), é de se esperar que o modelo

KS para estimar os accruals discricionários apresente baixo poder explicativo.

Documentos relacionados