5.4 Espaços públicos qualificados
5.4.1 Calçadas qualificadas
5.4.1.2 Qualidade das fachadas e divisas de lotes
Outros fatores que podem influenciar a qualidade ambiental das calçadas relacionam-se ao tratamento dado às fachadas frontais das edificações e às divisas de lotes, elementos que se caracterizam pela interface do espaço público com o espaço privado. Sob este ponto de vista, parâmetros urbanísticos das Leis de Uso e Ocupação do Solo e Códigos de Obras tornam-se instrumentos decisivos para a qualidade das calçadas.
Recuos frontais muito generosos sem nenhum tipo de uso humano fazem com que a vida que ocorre dentro dos lotes esteja totalmente dissociada da vida das calçadas, o que gera insegurança e falta de estímulos sensoriais aos pedestres. A LC 101 (Art. 20) isenta de recuos frontais os subsetores cuja topografia é mais acidentada e os lotes são menores, entretanto, determina para as outras áreas da OUC um recuo mínimo e obrigatório de 7 metros.
Sobre sentidos e comunicação, Gehl (2013) afirma que muito pouco ocorre a distâncias de 100 a 25 metros, medida considerada pelo autor um limiar significativo, pois é quando se pode começar a decodificar emoções e expressões faciais.
A uma distância de 20 a 25 metros, é possível trocar mensagens curtas, mas uma conversa de verdade ocorre apenas quando se está a menos de 7 metros um
do outro. Quanto mais curta distância, na faixa de 7 metros a meio metro, mais detalhada e articulada pode ser a conversa (GEHL, 2013, p. 35).
Para o subsetor E1 composto por lotes com frente para a Av. Presidente Vargas foi previsto estímulo à criação de galerias (7 m L x 7 m A), permitindo a isenção do recuo frontal no caso da construção desta, de forma a criar um ambiente mais agradável para o pedestre (sombreado e protegido da chuva) e estimular o comércio local. Segundo a CDURP, este instrumento foi utilizado apenas para este setor, com o objetivo de preservação da tipologia característica da Av. Presidente Vargas, “fruto de uma intervenção urbana datada. Para os outros setores da AEIU, considerou-se o afastamento frontal, livre de obstáculos, como forma de liberar não só visualmente e paisagisticamente como também de liberar o fluxo de pedestres.”18
Figura 76 – Av. Presidente Vargas.
Fonte: Google Street View, em janeiro de 2015.
A arquiteta se refere a uma regulamentação que consta não na LC 101, mas sim no Projeto de Lei Complementar da Lei de Uso e Ocupação do Rio de Janeiro (LC 33/2013), que estabelece que intervenções na área do recuo frontal não poderão exceder a 50% da extensão da testada do terreno, isoladamente ou em conjunto, por exemplo: rampas, escadas, torres de elevadores, guarita estacionamentos.
As entradas e saídas de veículos na testada dos lotes são elementos que se caracterizam por interrupções à caminhada dos pedestres nas calçadas. A LC 101 não restringe para a zona portuária um parâmetro menor que esses 50% da testada
18 Entrevista por escrito, concedida à autora por Leslie Loreto – Supervisora de Urbanismo da CDURP, respondida em 27/01/2016.
do lote destinados à entrada e saída de veículos. Para a certificação LEED ND, a entrada e saída de veículos no lote não pode representar mais do que 20% da medida linear da sua testada.
Outra característica que impacta na qualidade do percurso dos pedestres refere-se ao número acessos às edificações comerciais. Grandes empreendimentos com poucos acessos obrigam o pedestre a caminhar mais desnecessariamente. Na certificação LEED ND V3, existe um crédito que atribui pontos para urbanizações que apresentem fachadas comerciais com entradas funcionais distando em média 22 metros ou menos. Outra forma de se pontuar nesse crédito é garantindo que os elementos opacos na fachada não excedam 40% da testada do lote ou 15 metros (qual for menor).
Nenhuma dessas regulamentações foi encontrada na cidade do Rio de Janeiro. Já o PDE 2014 de São Paulo, estipula que novos empreendimentos, em glebas com área superior a 40.000 m² nas áreas de influência dos Eixos, deve ser respeitado o limite máximo de 25% de vedação da testada do lote com muros.
A figura 77 demonstra o quanto os lotes privados podem interferir na qualidade das calçadas e na sua atratividade para pedestres. Os grandes lotes ocupados por galpões, compostos por fachadas opacas, quase sem nenhum tipo de abertura e interação com a calçada, produzem uma paisagem direcionada para a escala e velocidade do automóvel.
Os longos muros contínuos são concebidos para a velocidade do carro (aproximadamente 60 km/h). Somente essa velocidade permite que o percurso configurado por longos muros contínuos não seja desagradável para o observador (GEHL, 2013).
Figura 77 – Foto da nova calçada do Via Binário do Porto.
Fonte: Fotografado pela autora em 26/08/2014. “Perspectiva cansativa do percurso” (GEHL, 2013). A LC101 (Art.19) ainda possui um instrumento que pode prejudicar a interação entre os espaços público e privado, ao permitir que áreas do pavimento térreo com até 1,5 metros de desnível em relação à cota da calçada não sejam computáveis. Este desnível pode ser considerado como prejudicial para a qualidade ambiental das calçadas, pois diminui a possibilidade de interação entre o transeunte e as dinâmicas no interior dos lotes.
Uma estratégia de sustentabilidade urbana promovida pela Lei Complementar 143/2014, que incentiva a produção habitacional na Região do Porto do Rio de Janeiro (Art. 6), é a obrigatoriedade do afastamento frontal ser integrado ao logradouro público, de modo a propiciar área pública de convivência no nível do pavimento térreo (estratégia também conhecida por Faixa de Gentileza Urbana). Segundo Leslie Loreto da CDURP (em entrevista), essa regulamentação cabe para qualquer tipo de empreendimento e não apenas aos residenciais. Entretanto, a obrigatoriedade de ajardinamento desses recuos não foi uma estratégia incorporada e, na contramão, o Projeto de LC 33/2013 determina que, quando existirem, os jardins também não poderão exceder os 50% da testada do lote.