2 Revisão bibliográfica
2.3 Usos múltiplos da água
2.3.2 Qualidade de água e problemas relacionados
De acordo com Merten e Minella (2002), “qualidade da água” não é um termo que se aplica ou se restringe somente à determinação do grau de pureza do recurso hídrico, mas
às características desejadas para que seus mais diversos usos sejam atendidos. Von Sperling (2005) distingue a qualidade de água existente, como a qualidade efetiva, relacionada ao uso do solo na bacia e a qualidade de água desejada como o uso previsto para tal recurso.
Do ponto de vista meramente econômico, pode-se avaliar que a queda na qualidade do recurso hídrico tem cada vez mais restringido o desenvolvimento econômico e o progresso social, especialmente em países em desenvolvimento (BU et al., 2010). No entanto, exatamente pela precariedade dos sistemas de saneamento de países em desenvolvimento, as águas superficiais se encontram em estado de risco, tornando-se vulneráveis à poluição causada pela sua fácil acessibilidade para a eliminação de águas residuais.
Uma análise geral sobre as regiões hidrográficas brasileiras permite constatar que é recorrente o comprometimento da qualidade da água para abastecimento público devido ao lançamento de efluentes, sobretudo esgotos domésticos. Diante da importância deste setor, fica explicitada uma demanda nacional que se refere ao saneamento, envolvendo abastecimento de água, coleta e tratamento de efluentes (MMA, 2006b). Este problema não é novo, ou exclusivo de águas brasileiras. Como exemplo, pode-se citar o trabalho de Azevedo-Netto (1988) que comenta sobre degradação da qualidade da água de lagos alpinos, como o Lago Morat (Suíça), onde o florescimento de algas, em decorrência de eutrofização antrópica, já havia sido registrado no ano de 1825.
O comprometimento da qualidade da água também está associado aos lançamentos de efluentes oriundos da indústria, que mesmo ocorrendo pontualmente, apresentam maior diversidade na sua composição (MMA, 2006b). Atualmente, em todas as esferas das atividades humanas, grande quantidade de água é utilizada, geralmente, além do volume necessário. Em função do uso excessivo e descuidado, elevada quantidade de água é retirada dos ecossistemas e tem sua qualidade deteriorada. O crescente aumento da demanda por água doce é uma manifestação do aumento do número de consumidores. Ainda assim, o consumo excessivo e não planejado, o mau uso, a poluição, a eutrofização e a depleção dos reservatórios de água subterrânea, e não apenas o aumento da população consumidora, são as causas reais da degradação da água doce (KHAN e ANSARI, 2005).
No tocante aos usos concorrentes intersetoriais, destacam-se duas interferências principais. A primeira refere-se às interferências de geração de energia elétrica com setores
de navegação, pesca, turismo e lazer. A segunda interferência diz respeito ao elevado consumo de água do setor de irrigação, que influencia na disponibilidade para outros setores e para a própria irrigação (MMA, 2006b).
A relação entre a ocupação agropecuária das terras e características físicas da bacia hidrográfica (solos e relevos) também requer atenção. Verifica-se a ocorrência frequente de ocupação antrópica em terras inaptas à atividade agrícola. Dada a extensão das terras ocupadas inadequadamente, os impactos sobre os recursos hídricos são diretos. Entre os problemas causados pelo uso de terras inaptas está a erosão hídrica, que contribui para a perda de solo e carreamento de sedimentos, afetando a rede de drenagem. A melhoria na condição ambiental, nestas situações depende de reforço nas ações de assistência técnica aos produtores rurais, para estimular a otimização do uso das terras aptas e reverter a condição de degradação dos recursos naturais pela ocupação de terras desfavoráveis à prática agrícola (MMA, 2006b).
Somam-se a estes aspectos a necessária articulação com alguns dispositivos legais a serem considerados para que o planejamento da política de recursos hídricos contemple aspectos do ordenamento territorial e urbano (MMA, 2006b).
A influência do uso e ocupação do solo sobre a qualidade da água de uma bacia hidrográfica vem sendo objeto de estudos (DORNELLES, 2003; MERENDA, 2004; SANTOS, 2006; BONNET, 2007; SILVA, ANGELIS e MACHADO, 2009; RABELO et al., 2009). Pode-se citar, por exemplo, o exposto por Veronez (2011) sobre a retirada de florestas. Tal autor indica que a remoção de regiões florestadas para a instalação de sistemas de produção agrícola, pastagens, ou ainda para criação de centros urbanos afeta, não somente a paisagem local, mas também atua diretamente na modificação das características da qualidade das águas.
Já em centros urbanos, o principal problema de qualidade de água é o lançamento de esgotos domésticos, pois apenas 47% dos municípios brasileiros possuem rede coletora de esgoto e somente 18% dos esgotos recebem algum tratamento. A carga orgânica doméstica do país, medida em DBO, é estimada em 6.389 t.dia-1 (MMA, 2006b).
Um dos principais processos que vem a comprometer os usos da água é a eutrofização. De acordo com Rast e Thornton (1996), a eutrofização é um processo e não um estado, e pode ser definida como o enriquecimento de corpos de água por nutrientes assimiláveis por plantas, como o nitrogênio e o fósforo, e os efeitos subsequentes na
qualidade da água e na estrutura e função do componente biológico. Ainda de acordo com os autores supracitados, eutrofização é um processo de envelhecimento dos lagos, seja por fontes autóctones ou alóctones de nutrientes e matéria orgânica, a partir da bacia de drenagem. Estes aportes gradualmente diminuem a profundidade do corpo hídrico, e aumentam a produção interna, ao ponto do lago tomar forma de pântanos, de pântanos em áreas alagadas, até finalmente um ambiente de características terrestres. Em condições naturais, ou seja, sem a interferência do homem, este processo ocorre ao longo de eras geológicas. No entanto, a influência humana na bacia de drenagem pode contribuir amplamente para acelerar o processo de enriquecimento, diminuindo rapidamente a utilidade do corpo de água, muitas vezes dentro de décadas.
Este processo é chamado de eutrofização cultural (RAST e THORNTON, 1996) e pode ser distinto da eutrofização natural da seguinte forma: a primeira é uma consequência do processo de envelhecimento do corpo hídrico e a segunda é um sintoma do desbalanço provocado pelo homem nos ciclos biogeoquímicos dos nutrientes.
As causas da eutrofização estão geralmente relacionadas às características da bacia de contribuição e seus efeitos são complexos (DWAF, 2002). De acordo com Khan e Ansari (2005), a elevação na concentração de fósforo (acima de 0,05 mg.L-1) e também de nitrogênio (acima de 2,5 mg.L-1), macronutrientes essenciais para o metabolismo e crescimento de plantas e animais, é uma das principais causas do processo de eutrofização.
Outros autores, como Davis et al. (2006), avaliam, por exemplo, que ao menos em ecossistemas australianos, também a radiação solar e a estratificação térmica participam como fatores decisivos neste processo.
Problemas relacionados à eutrofização cultural podem ser elencados em diversas áreas, principalmente ecológica, socioeconômica e de saúde pública. Na esfera ambiental, os prejuízos da eutrofização são muitos. Variam de alterações na paisagem, perda de diversidade específica e modificação da biota dominante, aumento da biomassa de plantas e animais, redução na penetração da luz, restrição da reoxigenação pela ação dos ventos, elevação da turbidez e elevações de pH da água (ESTEVES, 1998; KHAN e ANSARI, 2005; MOTA, 2006; MASON, 19982 apud LAMPARELLI, 2004). Este processo afeta diretamente a
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biota aquática, em função das baixas concentrações de oxigênio dissolvido, podendo levar, por exemplo, à rápida mortandade de peixes.
Entre os problemas socioeconômicos pode-se citar o aumento do custo do tratamento de água com a instalação de sistemas mais elaborados, implantação de políticas de monitoramento, depreciação do valor venal de áreas com rios ou lagos eutrofizados, em função de alterações estéticas e nas características organolépticas da água. Pesquisa realizada no Reino Unido (PRETTY et al., 20023 apud LAMPARELLLI, 2004) mostra correlação positiva entre a eutrofização das águas daquele país e a elevação dos custos associados ao sistema de tratamento, com perdas anuais estimadas entre 75 e 114 milhões de libras esterlinas. Valorando a perda total deve-se ainda adicionar o valor de 54,8 milhões, gastos anualmente em ações específicas de implantação de políticas de controle e monitoramento. Na área da saúde pública, o problema de eutrofização está relacionado à elevação na concentração de células de algas, principalmente, cianobactérias (PITOIS, JACKSON e WOOD, 2001). Potenciais produtoras de toxinas, que além de fazer mal ao homem (inclusive a morte), também podem ser bioacumuladas em diversos níveis da cadeia trófica. De acordo com Chorus e Bartram (1999), os relatos desta ocorrência são diversos, em todos os continentes, com registro de prejuízo à saúde humana, seja pelo uso da água contaminada para abastecimento, seja por recreação de contato primário. Os autores também registram que águas com florações já foram utilizadas para a dessedentação de animais, que padeceram pelo contato com estes microrganismos. No Brasil, a morte de 52 pacientes de hemodiálise ocorrida em Caruaru, Pernambuco, em 1996, foi um terrível registro no histórico de problemas de cianobactérias e saúde pública (AZEVEDO et al., 2002).
Especificamente no caso de reservatórios hidrelétricos, o aporte de matéria orgânica a partir do processo de eutrofização promove o aumento da taxa de sedimentação de partículas, diminuindo a vida útil dos reservatórios. Também não são raros situações de insalubridade em plantas de geração de energia pelo mau cheiro gerado pela decomposição de algas nos picos de eventos de floração. Macrófitas aquáticas, também beneficiadas pelo excesso de nutrientes podem encalhar em grades de proteção de turbinas, aumentando o custo de manutenção, uma vez que a máquina deve ser desligada para limpeza, paralisando assim o processo de geração de energia (LAMPARELLI, 2004).
3 PRETTY, J.N.; MASON, C.F.; NEDWELL; HINE, R.E. A preliminary assessment of environmental costs