2. REVISÃO DE LITERATURA
2.3. Qualidade de vida e envelhecimento
2.3.1. Qualidade de vida no contexto da OMS
Tomaremos por base os estudos do grupo de qualidade de vida, onde o termo QV é considerado algo amplo, composto por diferentes domínios capazes de interferir na percepção de cada indivíduo. Segundo Fleck (1999), os domínios que compreendem a percepção da QV são: o físico, o psicológico, o das relações sociais e do meio-ambiente. E dentro de cada um deles existem subdomínios que podem efetuar interferência em todo o processo de avaliação da QV pelos indivíduos. É importante a identificação de todas as variáveis que estão presentes em cada domínio, para que haja um entendimento maior acerca da QV da população idosa.
No caso dos idosos, a partir das mudanças impostas pelo processo de envelhecimento, devemos considerar tais domínios e a interferência dos mesmos na percepção da QV. Dentro do domínio físico, estão presentes todas as capacidades que os indivíduos necessitam realizar nas suas atividades diárias, compreendendo a capacidade funcional.
O processo de envelhecimento produz inúmeras mudanças físicas nos indivíduos, e uma dessas mudanças é o declínio da capacidade funcional, ou seja, a sua capacidade de realizar as tarefas cotidianas sem comprometimento ou ajuda de outros. A partir dessa dificuldade na realização de suas próprias tarefas, os idosos podem ter uma interferência negativa em seu domínio psicológico, na medida em que acabam por perder sua autonomia, e por sentirem-se incapazes, fator que influencia na percepção de bem-estar e QV (SCHNEIDER; IRIGARAY, 2008).
No domínio psicológico, estão presentes todos os sentimentos dos indivíduos, relacionados à sua vida e suas aspirações para a mesma, bem como, sentimentos positivos e negativos além de sua autoestima (MAZO, 2008). Como citado anteriormente, o processo de envelhecimento, impõe aos indivíduos uma série de mudanças físicas e comportamentais. Os indivíduos tornam-se mais dependentes, devido à diminuição na sua capacidade funcional, proporcionando em alguns casos baixa autoestima e um autoconceito negativo. Devido a isso, alguns idosos passam a se isolar, por não sentirem-se mais úteis e participantes da sociedade, o que pode provocar uma série de sentimentos negativos.
O domínio das relações sociais compreende as relações dos indivíduos com sua família, no lazer e no trabalho, além de seus sentimentos de amparo social e acesso à saúde. A relação com a família é um fator principal para que os indivíduos sintam-se amparados e para que os mesmos não fiquem isolados, como acontece com grande parte dos idosos (MAZO et al. 2008).
O último domínio que interfere na percepção da QV dos indivíduos é o do meio-ambiente, que compreende a sensação de conforto e segurança relacionados ao ambiente em que o indivíduo vive e a adequação do lar às suas necessidades (FLECK et al., 2000).
Os domínios que compreendem a QV (físico, psicológico, relações sociais e meio-ambiente) apresentam inúmeras características que acabam relacionando-se, modificando a percepção dos indivíduos acerca de sua própria vida. Estudos relacionados a essa percepção servem para compreendermos o processo de envelhecimento, e verificarmos toda a subjetividade e heterogeneidade dessa experiência, pois cada indivíduo é único e apresenta uma forma peculiar diante de tal processo (FLECK et al., 2000; MAZO et al., 2008).
Apesar de o termo QV ser bastante amplo e subjetivo, como já mencionado, apresentando diferenças de acordo com as características socioculturais dos indivíduos, alguns estudiosos viram a necessidade de “quantificar”, ou pelo menos entender os fatores que compõem/interferem na percepção dos indivíduos. Com o intuito de mensurar a QV, foram criados alguns instrumentos específicos, nas mais
diversas áreas do conhecimento, porém com um objetivo comum, o bem-estar das pessoas.
Segundo Mazo (2008), a Educação Física enquanto área pertencente às Ciências da Saúde tem um importante papel, relacionado à promoção de saúde da população em geral e, por conseguinte, na avaliação da QV. Este papel de avaliação da QV se torna importante para: avaliar os efeitos da AF; aumentar o conhecimento da população sobre os benefícios de um estilo de vida ativo; incrementar o nível de AF das populações; avaliar os efeitos dos programas de AF e alocar recursos materiais e financeiros de acordo com as necessidades; melhorar a vida das pessoas nos seus diferentes aspectos; entre outros.
A autora ainda explica a funcionalidade dos instrumentos utilizados para avaliar a QV da população, dividindo-os em dois tipos: genéricos e específicos. Os instrumentos específicos são aqueles que avaliam aspectos relacionados ao estado de saúde e são específicos para a área de interesse. Já os instrumentos genéricos se subdividem para atender os perfis de saúde (medem todos os aspectos importantes da QV) e para atender às medidas de preferência (refletir na preferência dos pacientes para diferentes estados de saúde). Existe um número bastante elevado de instrumentos relacionados à avaliação da QV (MAZO, 2008), alguns levam em conta aspectos objetivos e/ou subjetivos para a avaliação da QV. Outros analisam ainda, a satisfação do indivíduo, o estado de saúde, o bem-estar, como fatores influentes na percepção subjetiva dos indivíduos. Desse modo, através da avaliação ampla, o caráter multidimensional do termo é contemplado.
Serão utilizados no presente estudo, dois instrumentos desenvolvidos pela OMS, com o objetivo de avaliar a QV dos idosos envolvidos na pesquisa a partir de diferentes domínios – WHOQOL-BREF e WHOQOL-OLD. Estes instrumentos baseiam-se nos pressupostos de que a QV é um construto subjetivo (porque avalia a percepção do indivíduo em questão) e multidimensional (composto por dimensões positivas e negativas) e ambos derivam de um instrumento principal, o WHOQOL-100 (FLECK et al., 1999; FLECK et al., 2003).
O projeto WHOQOL-100 foi realizado com a colaboração simultânea de 15 centros diferentes países, considerando diferentes culturas. No instrumento constam
100 questões que avaliam 6 domínios: Físico, Psicológico, Nível de Independência, Relações sociais, Meio-ambiente e Espiritualidade/Crenças Pessoais, contemplando a multidimensionalidade do instrumento (FLECK et al., 1999).
No entanto devido à extensão do mesmo e a partir da necessidade de instrumentos curtos que demandem pouco tempo para seu preenchimento, mas com características psicométricas satisfatórias, fez com que o Grupo de Qualidade de Vida da OMS desenvolvesse uma versão abreviada do WHOQOL-100, o WHOQOL-BREF (FLECK et al., 2000).
O WHOQOL-BREF consta de 26 questões, sendo duas questões gerais de e as demais 24 representam cada uma das 24 facetas (domínios) que compõem o instrumento original. Assim, diferente do WHOQOL-100 em que cada uma das 24 facetas é avaliada a partir de quatro questões, no WHOQOL-BREF é avaliada por apenas uma questão. Para cada questão existe uma escala do tipo likert que atribui os valores de 1 a 5 às respostas, sendo 1 a pior resposta sobre a QV e 5 a melhor resposta (FLECK et al., 2000).
No entanto, apesar da utilização dos instrumentos WHOQOL-100 e WHOQOL-BREF, ainda havia a necessidade de elaborar um instrumento específico, capaz de avaliar a percepção da QV dos idosos, levando em conta todos os fatores sociais, culturais, psicológicos e econômicos que interferem no processo de envelhecimento.
Desse modo, foi criado um módulo complementar para ser utilizado juntamente com os outros instrumentos, o WHOQOL-OLD. O instrumento foi testado em vários centros da OMS pela Europa, perfazendo um total de 22 centros, sob a coordenação do Centro de Edimburgo (Escócia). Em 2006, o instrumento foi traduzido e testado no Brasil por Chachamovic e Fleck (2006).
O WHOQOL-OLD é composto por 24 itens que compreendem seis facetas (domínios): Funcionamento do Sensório; Autonomia; Atividades Passadas; Presentes e Futuras, Participação Social; Morte e Morrer e Intimidade. Para cada questão existe uma escala do tipo likert que atribui os valores de 1 a 5 às respostas, sendo 1 a pior resposta sobre a QV e 5 a melhor resposta.
Porém para se escolher o instrumento correto para a avaliação, Mazo (2008), identifica alguns critérios a serem seguidos: trata-se de um bom instrumento genérico ou específico da QV; possui parâmetros subjetivos ou objetivos; método de aplicação flexível (deve ser administrado por alguém; em forma de entrevista ou não); as propriedades psicométricas foram avaliadas; entre outros.
Desse modo, a pesquisa relacionada à QV da população tem se desenvolvido, e diante do crescimento da população idosa, instrumentos voltados especificamente para esse grupo necessitam ser criados. Quando se avalia a QV dos idosos, podemos conhecer mais suas características e as condições necessárias para proporcionar um envelhecimento mais saudável e com bem-estar. Além disso, é possível obter subsídios necessários para o desenvolvimento e/ou implantação de programas voltados a esse grupo.