ENQUADRAMENTO TEÓRICO
CAPITULO 2- QUALIDADE DE VIDA DA MULHER COM IU
A QDV corresponde a um conceito mais abrangente e explicativo das componentes subjetivas e idiossincráticas da doença, numa tentativa de encontrar uma definição centrada no bem-estar global do sujeito (Pesta, Esteves & Conboy, 2007). O conceito de QDV difundiu-se após o terminus da II Grande Guerra Mundial. Inicialmente a QDV era referida e estudada num contexto social e político, referindo-se sobretudo às condições de trabalho e ao desenvolvimento económico (Ribeiro, 2005).
Com o decorrer do tempo, os indivíduos foram dando menor importância aos fatores económicos, enquanto fatores determinantes do bem-estar da população, focando-se nas questões da doença, concretamente da doença crónica, no funcionamento físico e psicossocial dos doentes. A QDV mantém-se como objetivo prioritário dos serviços de saúde paralelamente à prevenção das doenças e efetivação da cura e alívio dos sintomas ou prolongamento da sobrevida (Rodrigues, 2007).
Este conceito entrecruza-se, embora não seja equivalente, com os conceitos de saúde e de bem-estar. Representa a perceção individual sobre a posição de vida em que os aspetos culturais e as particularidades do meio ambiente biológico, social e cultural contribuem de modo decisivo (Ribeiro, 2005).
Levine e Croog (1984, cit. in Pimentel, 2003) definem a qualidade de vida como sendo a capacidade do sujeito para interagir com o meio, nos seus vários domínios: social, físico, emocional e intelectual, bem como a perceção subjetiva que o sujeito tem quanto à (in)satisfação da sua própria saúde, comparativamente com a saúde das pessoas que o rodeiam.
Apesar da multiplicidade de definições existentes na vasta bibliografia, parece que este conceito envolve componentes subjetivas (funcionalidade, competência cognitiva e interação com o meio) (Conde et al., 2006); sentimentos da satisfação e perceção da saúde, que engloba características como a perceção pessoal, os aspetos físicos, psicológicos e sociais, as estratégias de coping utilizadas (Ribeiro, 2005), bem como outras dimensões incluindo a religiosidade e as relações com o meio ambiente (Pestana et al., 2007).
Parece igualmente unânime que o conceito de QDV é dinâmico, pois altera-se ao longo do tempo e de acordo com as situações vivenciadas. Apesar da abrangência do conceito em estudo, optou-se, neste trabalho, por uma delimitação do mesmo às suas componentes mais direcionadas com a saúde ou com a saúde percebida, pois esta corresponde a um dos indicadores que permitem avaliar a QDV (Ribeiro, 2005).
O WHOQOL Group (1995) define que a QDV se refere à perceção do indivíduo da sua posição na vida, no contexto da sua cultura e no sistema de valores em que vive e em relação às suas expectativas, aos seus padrões e às preocupações. Esta será a definição utilizada na condução da presente investigação, por se tratar de um conceito de abrangência mundial que
tem implícitos três aspetos fundamentais: o primeiro é a subjetividade na qual a perspetiva do indivíduo é que está em questão; o segundo, multidimensionalidade, enfatiza que a QDV é composta por várias dimensões, e o terceiro a bipolaridade que sugere a presença de dimensões positivas e negativas (Ribeiro, 2005).
Como já se referiu, o termo QDV tem um enfoque multidimensional e o seu conceito é subjetivo. Apesar de possuir muitas definições, é sabido que tem o intuito de avaliar o efeito de determinados acontecimentos e aquisições na vida das pessoas. Entre eles, estão incluídas as condições de saúde física, funções cognitivas, a satisfação sexual, as atividades do quotidiano, o bem-estar emocional e a vida familiar e social. Quando esses acontecimentos se relacionam com a saúde, baseiam-se em dados mais objetivos e mensuráveis e dizem respeito ao grau de limitação e desconforto que a doença ou a sua terapêutica acarretam ao doente e à sua vida, enfim, o quanto o adoecer altera a QDV (Pestana et al., 2007).
A QDV das mulheres com IU é afetada de diversas maneiras. Passam a preocupar-se com a disponibilidade de casas de banho, envergonham-se com o odor da urina e sentem-se frequentemente sujas, chegando a apresentar lesões cutâneas, como a dermatite amoniacal e infeções urinárias repetidas. Muitas apresentam dificuldade no domínio da sexualidade, seja por perda de urina, pelo medo de interrompê-lo para urinar ou simplesmente por vergonha perante o parceiro. Alguns sintomas associados à IU afetam a qualidade do sono das mulheres, como a noctúria e a enurese noturna. A privação de sono pode levar ao cansaço e à diminuição da energia (Auge et al., 2006).
A IU constitui-se como um sintoma com implicações sociais, causando desconforto e perda de autoconfiança, além de interferir, negativamente, na QDV e na função sexual da mulher. Esta patologia traz consequências tanto na vida pessoal, como no desempenho profissional destas mulheres, causando um grande impacto na sua QDV (Higa & Lopes, 2005).
Os estudos atuais têm demonstrado uma grande preocupação com a interferência da IU na QDV dessas mulheres. Os episódios de IU durante as atividades desenvolvidas diariamente são causadores de constrangimento social, disfunção sexual e baixo desempenho profissional. Estas alterações são causas determinantes de isolamento social, stresse, depressão, sentimento de vergonha, condições de incapacidade e baixa autoestima que resulta numa significativa morbidade (Higa, Lopes & Reis, 2008).
Temml et al. (2000, cit. in Faria, 2010) estudaram o impacto da IU sobre a QDV em 1.262 mulheres com idade igual ou superior a 20 anos. Nesse grupo de mulheres, 34,3% não apresentavam alteração da QDV, 47,4 % consideraram o problema como leve, 11,6% referiram que o problema era moderado enquanto 6,7% das doentes consideraram o problema acentuado. Para Kelleher (2000, cit. in Faria, 2010), a IU é um problema comum que pode afetar mulheres de todas as idades. Constitui-se como um sintoma com implicações sociais, causando
desconforto e perda de autoconfiança, além de interferir, negativamente, na QDV de muitas delas.
Em suma, a IU na mulher é um importante problema de saúde pública quer pela sua epidemiologia, quer pelo elevado impacto físico, psíquico e social que a mulher afetada sente, interferindo, por consequência, na sua QDV, sendo uma das áreas afetadas a sexualidade, conforme se demonstra no item seguinte.