PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO-CONCEPTUAL
3.1. Qualidade de Vida e o Envelhecimento Bem-Sucedido
As mudanças ocorridas após a Segunda Guerra Mundial geraram um aumento exponencial da esperança de vida, fruto da crescente preocupação de todos os países em assegurar um desenvolvimento mais sustentável e alcançar o bem-estar social. Contudo, nem todas as franjas da sociedade têm acesso às mesmas condições de saúde. O acesso à saúde é um fator importante no processo de envelhecimento e isso implica uma tarefa: dar qualidade ao tempo das pessoas de idade.
3.1.1. As condições de saúde
Alcançar uma velhice bem-sucedida depende essencialmente da conjugação de três categorias. “A primeira é a reduzida probabilidade de doenças, em especial as que causam perdas de autonomia. A segunda consiste na manutenção de um elevado nível funcional nos planos cognitivo e físico, o que por vezes se denomina velhice ótima. A terceira é a conservação de empenhamento social e de bem-estar subjetivo” (Fontaine, 2000, p. 147).
Figura 1. Condições de uma velhice bem-sucedida
Prevenção das doenças
Velhice bem-sucedida
Empenhamento social
Alto nível cognitivo e físico Fonte: Fontaine, 2000, p. 48
O esquema acima apresentado representa as condições de uma velhice bem- sucedida. Tais condições reúnem-se em proporções diferentes e dependem do tipo de influências de desenvolvimento que cada individuo sofre durante a sua vida. Segundo o mesmo esquema, poderemos constatar que a saúde é o principal condicionante de uma velhice bem-sucedida. As doenças de risco e a perda de autonomia são as principais ameaças para as pessoas de idade.
“A doença mobiliza as capacidades de coping dos indivíduos para a recuperação, focaliza toda a sua atividade e recursos nesse problema e pode, secundariamente, fazer com que haja diminuição de poder económico, perda de autonomia, alteração das atividades diárias e das relações sociais, desconforto generalizado e, por vezes, medo da morte” (Fonseca, 2006, p. 128). Esta citação de António Fonseca retrata bem a importância da dimensão da saúde e como, a mesma, afeta todas as dimensões sociais e psicológicas de cada individuo. Neste contexto, o estilo de vida de cada pessoa de idade tem um papel
predominante na dimensão da saúde: podemos escolher o tipo de alimentação a seguir, em que atividades participar e que comportamentos diários poderemos escolher. É necessário falar numa medicina preventiva e passar a mensagem de que aspetos como a alimentação, o exercício físico são importantes mas que, mesmo na ausência de sintomas de doença, devemos ter em conta todos os comportamentos de risco que condicionam a probabilidade de adoecer. Se esta mensagem estiver presente no quotidiano de cada individuo, irá construir um conjunto de experiencia favoráveis e desfavoráveis, que irão modular o próprio comportamento do indivíduos ao longo da vida e refletir-se na forma como se envelhece (Fonseca, 2006).
A saúde é uma determinante de peso na satisfação de vida e da forma como se envelhece. Combater o envelhecimento é impossível, mas podemos modular a forma como se envelhece, potenciado o estado de saúde e aumentar os níveis cognitivos e de atividade. “A promoção e prevenção da saúde são temas que devem fazer parte da educação para o envelhecimento e que constam das propostas programáticas das Universidades Seniores“ (Monteiro & Neto, 2008, p. 41).
3.1.2. A educação, aprendizagem e atividade no combate à solidão
A educação e a aprendizagem são outros dos fatores a ter em conta para um envelhecimento bem-sucedido. A manutenção da atividade cognitiva depende muito da aprendizagem e dos níveis de estudo. Por outro lado, a personalidade da pessoa de idade é um fator delicado: “trata-se da perceção da sua eficácia pessoal ou autoconfiança” (Fontaine, 2000, p. 153). Aqui, é necessária a construção de uma crença positiva para que a pessoa de idade consiga uma elevada manutenção das atividades cognitivas e comportamentais durante o envelhecimento. A educação aqui descrita, diz respeito à aquisição de comportamentos e de atitudes da pessoa de idade sobre a fase de vida que está a vivenciar e as mudanças ocorridas na sociedade em que está inserido. Vandenplas- Holper (2000, p. 308 apud Monteiro & Neto, 2008, p. 41) refere precisamente que a “educação e formação ao longo da vida visa promover o desenvolvimento pessoal e o sentido de iniciativa das pessoas, a sua integração na vida ativa e na sociedade, a sua participação no processo de decisão democrática e a sua aptidão a adaptarem-se às mudanças económicas, tecnológicas e sociais”. Assim, as Universidades Seniores podem promover este desenvolvimento pessoal, potenciar a iniciativa das pessoas, integrá-las
socialmente e acompanhar a sua adaptação às rápidas mudanças do quotidiano social, promovendo também o seu nível de atividade e combatendo o perigoso isolamento. Conseguir que as pessoas de idade saiam de casa, larguem o televisor, comuniquem e se relacionem umas com as outras é essencial. Este promover de relações sociais, a partilha de experiencias, de gostos e de saberes adquirido ao longo da vida, devem ser transportados para as atividades de tempos livres e das Universidades Seniores.
Fonseca (2006) diz-nos exatamente que o envelhecimento bem-sucedido está ligado à satisfação de viver. No mesmo sentido, um envelhecimento produtivo (Simões, 2006) é aquele que orienta a pessoa de idade para a atividade, podendo ser remunerada ou não. Staudinger (1993, apud Fontaine, 2000) e os seus colaboradores de investigação, a propósito dos níveis de atividade nas pessoas de idade, utilizam os conceitos de plasticidade e de restauração (elasticidade). Por restauração entende-se a capacidade de recuperação e manutenção de comportamentos após um declínio inicial ou de uma situação de acontecimento traumático ou stressante. Por plasticidade entende-se às reservas que cada individuo tem para otimizar o seu funcionamento. A plasticidade, ou seja, as reservas que cada individuo dispõe para melhorar e potenciar o seu funcionamento, diminui ao envelhecer. A perda de capacidades cognitivas pressupõe uma subutilização das reservas, por um lado, e um envelhecimento cerebral, por outro. “A atividade evita os fantasmas do envelhecimento, o aborrecimento, a rotina e a terrível solidão” (Monteiro & Neto, 2008, p. 41).
Como diria Durkheim (2007), o isolamento é um dos fatores de risco para a saúde e pode levar ao suicídio. A verdade é que pelo mundo fora, existem idosos que se sentem inúteis e excluídos socialmente.
Um facto é verdade: assistimos a reformados cada vez mais novos. Neste campo, Guillemard (1970, apud Fontaine, 2000) propõe uma classificação baseada em cinco tipos de práticas. O primeiro tipo é a reforma-retirada, no qual o qual o individuo limita o seu campo social e espacial: dedica mais tempo ao sono, distancia-se de novos projetos, os dias são monótonos, a participação social nula, como se estivesse em “morte social”. O segundo tipo é a reforma terceira idade. Aqui, a reforma é integrada num tecido social com atividades produtivas, associando-se a uma velhice bem-sucedida. O terceiro tipo é a reforma de lazer ou família. O reformado integra-se através de atividades familiares e de lazer, centrando-se na família e focado nas relações familiares (com os ideias de ajuda financeira e auxilio aos filhos). O quarto tipo é a reforma-reivindicação. Aqui, o reformado contesta o seu estatuto na sociedade. Defende que as pessoa de idade deveriam constituir um grupo social ativo e participativo em sociedade. O quinto e último tipo é a reforma-participação. O reformado
alcança elevados níveis de sedentarismo e integra-se socialmente através do seu televisor. Não realizando atividades produtivas, o seu sentimento de velhice bem-sucedida é fraco e o sedentarismo representa um risco para a sua saúde. Esta classificação procura demonstrar a importância da integração das pessoas de idade em sociedade e a necessidade de serem tomadas e criadas medidas e políticas de apoio para estas franjas etárias da população.