2.1. Qualidade de vida
2.1.1. Qualidade de vida na velhice
Sabe-se que o desenvolvimento das sociedades, nos aspectos socioeconômico, cultural e tecnológico, tem contribuído para que as pessoas vivam por mais tempo. De acordo com alguns pesquisadores, avanços da Medicina têm contribuído, em parte, por esse fato e possibilitado o convívio
22 Na psicanálise, desejo é conceito que se alinha à ―rede significante da sexualidade humana‖. Assim, em Freud, há uma ―teoria do desejo como realização espontaneamente alucinatória de seu fim‖ e, em Lacan, ―uma teoria do desejo como falta de seu objeto‖.
com uma forma abrandada ou assintomática de doenças (FLECK, 2008). Nessa linha de raciocínio, Neri (2004) argumenta que a temática do longeviver tem se tornado relevante nos países desenvolvidos porque tem aumentado as chances de se experimentar quadros crônicos patológicos que demandam altos custos financeiros para indivíduos, suas famílias e o Estado. O paradoxo está em que, considerada um triunfo, a longevidade também é vista como problema pela maioria dos governantes, políticos, planejadores e mesmo pelas pessoas, em geral.
A questão de ordem, então, é como evitar que a experiência da longevidade se torne um drama individual e coletivo? Investir na qualidade de vida tem sido a resposta para isso desde a década de 1970 (FLECK, 2008). A esse respeito, tomo como referência a Antropologia Contemporânea, mais especificamente Geertz, acerca da compreensão de que o homem vive imerso socialmente em uma ―rede de significados‖ que não foram criados por nenhum de nós individualmente, mas expressam a existência de uma sociedade e cultura que, ao mesmo tempo em que nos antecedem, nos englobam (VELHO, 1986).
Os aspectos negativos vinculados à experiência de envelhecer, principalmente aqueles ligados à dependência, em razão de vulnerabilidade física e/ou social, têm marcado o discurso e os sentidos imputados à velhice nesses nossos tempos globalizados. Mas não é só isso, nota-se ainda que, na contemporaneidade, outros discursos mais otimistas têm chamado nossa atenção para o lado positivo do longeviver.
Cabe, portanto, indagar como pode, ao mesmo tempo, o envelhecimento ser considerado como um triunfo se os homens quase sempre se amedrontam com a possibilidade de viver os ditos ―anos a mais‖? Talvez Morin (2000, p. 101) nos indique uma direção de resposta, quando afirma:
A noção de homem não é uma noção simples: é uma noção complexa. Homo é um complexo bio-antropológico e bio- sociocultural. O homem tem várias dimensões [...] este complexo que constitui o homem não é apenas feito de instâncias complementares, mas é também de instâncias antagônicas que se encontram ao mesmo tempo, da pluralidade dos imperativos éticos.
Ora, a complexidade inerente ao que é humano diz respeito não apenas ao que nele encontra espaço para fazer complemento, mas também para antagonizar. O desejo de viver mais não é, portanto, incompatível com o temor que ele desperta. Isso ocorre porque o homem, quando confrontado com o sofrimento, dele tenta escapar como pode. A antecipação de uma vida sem qualidade na velhice pode, então, responder pelo temor do longeviver.
Imagens da velhice fortemente associada a atributos negativos (feiura, declínio, tristeza e lentidão) contrapõem-se a imagens positivas também altamente idealizadas da juventude (beleza, alegria, energia) (CAMARGO e FONSECA, 2016). Essa contraposição pode influir diretamente sobre o desejo de se tornar longevo, ainda mais quando levamos em conta o que nos diz Bauman (2007) sobre descartabilidade, noção eixo do capitalismo, que move as sociedades contemporâneas, altamente consumistas do novo. Essa conjunção de fatores negativos pode influenciar diretamente na percepção de que ser velho é viver sem qualidade, ou com qualidade muito ruim.
Quando o temor de envelhecer não é paralisante, o que se faz, então, é buscar meios para enfrentar o que determinaria uma vida com qualidade reduzida. Os estudos sobre qualidade de vida na velhice se incluem nisso. De um modo geral, eles contemplam as variáveis discutidas no item anterior e entre os que se destacam em mensurá-la nessa etapa vital, merece destaque o que foi elaborado por Lawton (1983). Nele, está em causa a avaliação em quatro dimensões inter-relacionadas entre si: condições ambientais, competência comportamental, qualidade de vida percebida e bem-estar subjetivo. De acordo com o autor, seu construto adota tanto critérios intrapessoais, como socionormativos, no que diz respeito ao sistema pessoa/ambiente, implicando relações que cruzam momento atual passado, e futuro.
Para Paschoal (2016), é importante que se leve em consideração o quanto e de que modo os idosos idealizam coisas que consideram importantes para imprimir qualidade às suas vidas e se as vivenciam de fato. Assim, cabe mensurar o quanto, do que almejam, foi ou tem sido concretizado e, finalmente, se estão satisfeitos com o que alcançaram. Observa-se a importância
significativa que se atribuem às experiências subjetivas e se procura encontrar pontos de consonância entre as diferentes perspectivas que emergem de tais instrumentos de avaliação. A esse respeito, Irigaray e Trentini (2009) e Neri (2000) também atentam para o fato de que é preciso que os idosos encontrem boas condições ambientais que lhe permitam desempenhar comportamentos adaptativos. Para tanto, é necessário considerar que a qualidade de vida percebida ou vivenciada pode, muitas vezes, estar associada à sublimação de desejos, tal como foi feita ao longo da vida, indo ao encontro do que afirmam Galvani e Silveira (2016, p. 460), segundo quem:
[...] a qualidade e vida dos idosos depende das aprendizagens adquiridas no enfrentamento de riscos e oportunidades que experimentam durante toda a vida e também da maneira como são incentivados para exercer seu protagonismo na realização de suas necessidades e expectativas. (GALVANI e SILVEIRA, 2016, p. 460)
Nunca é demais lembrar que, no Brasil, o aumento da expectativa de vida, apesar de ser uma conquista importante, não foi acompanhado por manutenção ou melhora na qualidade de vida, principalmente porque a desigualdade social é um fator que contribui para intensificar problemas de saúde, de relacionamentos, entre outros. Nessa medida, Lemos e Medeiros (2016) assinalam que a maioria dos velhos tem sido vítima de desprazer e decepção, sobretudo se considerarmos os rendimentos encolhidos da aposentadoria, que interferem no padrão de manutenção das necessidades básicas, em especial alimentação, habitação e saúde.
Esses Fatores contribuem para que se aumente a chance de que ocorram prejuízos à funcionalidade física, psíquica e social, acarretando dependência, perda de autonomia, isolamento social e depressão. Mas, ao contrário, se os indivíduos envelhecem com autonomia, independência, boa saúde física, desempenhando papéis sociais, permanecendo ativos e desfrutando do senso de significado pessoal, a qualidade de vida pode ser muito boa (PASCHOAL, 2016).
Para Lemos e Medeiros (2016), um dos marcadores mais significativos de uma velhice saudável é a manutenção da funcionalidade. Assim, se a detecção precoce de disfunções físicas é essencial para melhor qualidade de vida, o planejamento do suporte social é fundamental para a manutenção de um idoso participante de seus processos, que usufrui de sua autonomia e independência pelo maior tempo possível, razão pela qual, no próximo item, problematizo a questão do suporte social.
Entre os fatores que podem estar relacionados à dependência, destacam-se os fatores clínicos, psicológicos e sociais. Entre os primeiros estão aqueles que se associam às perdas físicas e às comorbidades, que podem se agravar ao longo do tempo. Já os fatores sociais estão relacionados à perda de entes queridos, dificuldades financeiras, afastamento do trabalho, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e isolamento social por diversas causas que envolvem desde as questões de dificuldades de acessibilidade em seus domicílios até ausência de família ou perda de papéis sociais. Cabe dizer que, diante desses fatores, podem-se recolher prejuízos psicológicos – cognitivos e afetivos. Sobre essa questão Lemos e Medeiros (2016) mencionam que:
[...] as condições de autonomia, independência e dependência envolvem uma relação dinâmica expressa de formas diferentes nas diversas fases do desenvolvimento. Os bebês e as crianças pequenas dependem dos pais para sobreviver e para desenvolvem com seres humanos. À medida que a criança se desenvolve, a dependência física e psicológica aos pais diminui, mas dá lugar a uma dependência aos iguais e às pessoas da família. Com o desenvolvimento paulatinamente aparecem relações de interdependência entre parceiros, mas, de todo modo, principalmente no mundo ocidental contemporâneo, a autonomia e o grande balizador do ajustamento das pessoas. Assim, essa condição torna-se o ideal do desenvolvimento durante todo o ciclo vital. (LEMOS e MEDEIROS, 2016, p. 1405)
A complexidade inerente à vida do ser humano faz da longevidade um fenômeno desafiador (SOUZA e SILVEIRA, 2016). Apesar da multiplicidade de questões nela implicadas, é fato que na velhice podem surgir obstáculos à vida com qualidade, mas envelhecer é viver, e a vida é polaridade dinâmica
(CANGUILHEM, 1960). Oportunidades podem, então, ser criadas para que tal experiência seja também uma experiência positiva para os sujeitos e para as sociedades:
[...] o viver a vida com qualidade na velhice está intimamente relacionado com ―dar novos contornos ao vivido‖. Esse movimento vital de ressignificação tem sido reconhecido a literatura gerontológica atual como uma das bases a partir das quais se pode alicerçar o bem viver a velhice. Ressignificar por meio de um projeto, é necessariamente entrelaçar ao passado, presente e futuro; o que envolve lidar não apenas uma ideia de temo que passa (cronos), mas também, e principalmente, com o tempo marcado em cada um de nós (kairós). (GONÇALVES e FONSECA, 2016, p. 233)
Nesse movimento de ressignificação, ganha importância os vínculos que o sujeito estabelece genuinamente com os outros e consigo próprio. Podemos, então, dizer que dar novos contornos ao vivido pode contribuir também para melhorar a qualidade de vida na velhice.