ÍNDICE GERAL
ESTUDO DOIS – MODELO DE ACOMPANHAMENTO DE ENFERMAGEM
IV. DISCUSSÃO FINAL 119 V CONCLUSÃO
1. Qualidade de Vida
1.2. Qualidade de Vida no cancro da próstata
A QdVRS inclui a forma como as pessoas percebem a sua saúde, e decorre de fatores relacionados com incapacidade e disfunção. Por este motivo a sua avaliação é importante, pois a disfunção e incapacidade dos doentes, não se refletem em medidas estandardizadas de morbilidade e mortalidade (Pimentel, 2006).
O cancro é uma doença crónica que representa elevada morbilidade e mortalidade (Oliveira & Pimentel, 2008). O avanço tecnológico da Medicina tem conseguido que, doentes com patologias crónicas, embora não alcançando a cura, vivam durante mais tempo do que outrora (Pimentel, 2003).
A avaliação da QdVRS de doentes com cancro tem sido relacionada a diferentes temas que envolvem o seu tratamento, contribuindo para uma otimização dos recursos disponíveis e para melhorar os diferentes aspetos da qualidade de vida (Franzi & Silva, 2003; Seidl & Zannon, 2004).
A QdVRS complementa os objetivos da terapêutica oncológica, cujos propósitos não podem limitar-se à redução da massa tumoral ou à sobrevivência (Jones, Fayers, & Simons, 1987). Oliveira e Pimentel (2006) acrescentam que atualmente os tratamentos possibilitam aumentar a sobrevivência dos doentes oncológicos, porém, na maioria de vezes, à custa de grande sofrimento face aos efeitos adversos, daí que, para além do prolongamento da vida, é primordial a manutenção de uma vida com qualidade.
Para que o doente com cancro consiga obter um bom índice de qualidade de vida é importante que o seu estado emocional, embora abalado, se mantenha saudável. No entanto, estudos referem que é frequente o aparecimento de transtornos psicológicos após o diagnóstico de uma doença grave, como o cancro (Baptista, Dias, & Santos, 2006; Carvalho et al., 2007; Garcia, Tafuri, Nogueira, & Carcinoni, 2000).
O risco do desenvolvimento de transtornos, nesses doentes, deve-se a diferentes fatores, tais como estigma da doença, dificuldade para enfrentar o tratamento (quimioterapia, radioterapia, etc.) e seus efeitos e a readaptação após o tratamento (Pimentel, 2006).
O doente oncológico sofre, ao longo do curso da sua doença, uma deterioração progressiva, limitações físicas, funcionais e psicológicas que aumentam dia após dia e levam a uma dependência cada vez maior dos seus familiares, cuidadores e equipas de saúde, relatando o impacto da sua doença na QdV (Paredes et al., 2008).
Se anteriormente as implicações da doença oncológica e o seu tratamento eram avaliadas mediante os resultados biomédicos (resposta tumoral, tempo de remissão da doença e o nível de toxicidade associado ao tratamento), atualmente tem aumentado o interesse em expandir os parâmetros desta avaliação, tendo em conta, o impacto da doença e do seu tratamento na QdV dos doentes (Santos & Pais-Ribeiro, 2001).
A QdV do doente oncológico depende muito das expectativas pessoais, que por sua vez variam em função de uma série de fatores, como, por exemplo, as experiências de vida. Por isso, perante um mesmo diagnóstico oncológico, as expectativas entre os indivíduos poderão ser totalmente diferentes. Qualquer doente com patologia oncológica terá um nível de QdV tão elevado quanto menor for a distância entre as suas esperanças, ambições, desejos e a sua realidade atual (Rodrigues, 2007).
Nesta linha de pensamento, e segundo Leiberich et al. (1993), valores altos de QdV encontrados no doente oncológico devem-se às elevadas perceções de perigo e reduzidas aspirações, bem como ao apoio emocional recebido pelos familiares, companheiros e amigos.
Pais-Ribeiro (1999) corrobora com a opinião supracitada, considerando que o suporte social constitui um fator importante para o alívio do stress podendo retardar o desenvolvimento da doença e melhorando a QdV.
No decurso da doença, por norma, não só a QdV do doente, mas também das pessoas com quem vive, é muito alterada, na medida em que o cancro invade o doente, mas penetra também na família e no seu meio ambiente (Moreira, 2001). A família acaba por vivenciar momentos de stress, tal como o portador da doença oncológica (Dias, Leal, & Reis, 2002). Para além da doença, outros componentes podem afetar a QdV dos doentes oncológicos (Santos & Pais-Ribeiro, 2001). Existe um conjunto de sintomas e de complicações a nível funcional que se apresentam em muitos tipos de neoplasias, tais como a dor, a fadiga, a sonolência, as insónias, a xerostomia, a anorexia e outros mais associados ao grau de funcionalidade, nomeadamente, alterações no autocuidado ou dificuldade em manter as tarefas familiares, ocupacionais e sociais que têm um impacto na QdV do doente. Alguns trabalhos referem que a avaliação da QdV se relaciona muito com a presença ou ausência destes sintomas sendo que a dor constitui um dos sintomas mais importantes na avaliação da QdV do doente oncológico (Santos & Ribeiro, 2001).
Faithfull e Wells (2003) salientam que os sintomas físicos contribuem, de forma óbvia, para a QdV, todavia são meros componentes, que aumentam ou diminuem o stress. As crenças culturais, o significado da doença e os aspetos do bem-estar emocional e social são a chave para influenciar as perceções do doente, sendo estes aspetos muito mais difíceis de avaliar (Cotrim, 2007).
Pode-se, desta forma concluir que os fatores que afetam mais significativamente a QdV dos doentes oncológicos são os sintomas físicos e psicossociais característicos da doença oncológica, a impressibilidade associada ao diagnóstico e tratamento, bem como as opções de coping (Santos & Ribeiro, 2001).
Com o envelhecimento da população e o aumento do número de novos casos de cancro da próstata, aumentam também o número de tratamentos realizados. Das várias opções existentes, nenhuma se encontra isenta de efeitos secundários. Os doentes com cancro da próstata relatam alterações ao nível da função sexual, da função urinária, alterações intestinais, ansiedade, entre outras. Sendo o impacto na QdVRS um fator importante ao considerar as opções de tratamento (Cuypers et al., 2018).
Uma vez que a doença oncológica afeta várias dimensões da qualidade de vida é emergente a sua avaliação, contudo, e como já foi referido, trata-se de um constructo complexo e não existe um modo único nem perfeito de o medir (Venâncio, 2005). Desde longa data que o conceito de QdVRS tem vindo a exigir o desenvolvimento de instrumentos adequados para a avaliação de parâmetros mais subjetivos da saúde das populações (Venâncio, 2005). Presentemente, os instrumentos de avaliação existentes, tornam possível definir o que pode prejudicar ou melhorar a QdV dos doentes, o que possibilita uma intervenção mais ajustada por parte dos profissionais de saúde (Pimentel, 2003).
A monitorização da QdVRS é extremamente importante no tratamento do cancro porque aumenta a conscientização dos profissionais de saúde para antecipar melhor as mudanças nas necessidades dos doentes e melhora os resultados clínicos (van Roij et al., 2018). A OMS, na procura de um instrumento de avaliação, dentro de uma perspetiva genuinamente internacional, organizou um projeto colaborativo multicêntrico, sendo o seu resultado a elaboração do WHOQOL-100, um instrumento de avaliação da QdVRS composto por 100 itens. O WHOQOL Group teve como principais objetivos: decompor a definição da QdV nos aspetos ou fatores considerados necessários para uma medição compreensiva, operacionalizar esses fatores e desenvolver escalas de respostas em diversas versões linguísticas. Os domínios e itens escolhidos para estes instrumentos são sensíveis para avaliar o impacto da doença e do tratamento no quotidiano do doente (Venâncio, 2005). O WHOQOL-100 é composto por 100 questões que avaliam seis domínios: Físico, Psicológico, Nível de Independência, Relações sociais, Meio-ambiente e Espiritualidade /Crenças Pessoais (Rugiski, Pilatti, & Scandelari, 2000).
Existe, ainda, outro instrumento de avaliação da qualidade de vida validado para a população portuguesa, o Medical Outcomes Study 36-item Short-Form Health Survey (SF-36). O instrumento SF-36 inclui oito sub-dimensões que avaliam diferentes áreas do estado de saúde: função física, desempenho físico, dor física, saúde em geral, saúde mental, desempenho emocional, função social e vitalidade. As oito sub-dimensões podem agrupar-se em duas dimensões gerais de estado de saúde: física e mental. A dimensão física compreende a função física, o desempenho físico, a dor física e a saúde em geral, e a dimensão mental é constituída pela saúde mental, desempenho emocional, função social e vitalidade. A opção pelas duas medidas sumárias permite reduzir o número de comparações e consequentemente de inferências estatísticas na análise dos resultados (Severo, Santos, Lopes, & Barros, 2006).
Os instrumentos existentes para a avaliação da QdV podem ser divididos em genéricos e específicos. Os genéricos procuram avaliar de forma global os aspetos importantes relacionados à QdV (físico, social, psicológico, espiritual) como os exemplos acima referidos. Os instrumentos específicos podem ser direcionados para avaliação de determinada função (capacidade funcional, sono, função sexual, aspetos sociais), população (idosos, jovens, mulheres) ou doença (cancro da mama, cancro do ovário, cancro da próstata).
De entre os instrumentos específicos para a doença oncológica, destacam-se o Quality of Life Questionary Cancer (QLQ-C30), da European Organization for Treatment of Cancer (EORTC), um dos instrumentos que será utilizado neste estudo e a sua versão direcionada para o cancro da próstata (QLQ-PR25).