2.2 Trajetória metodológica
3.1.1 Qualidade de vida e condições de trabalho
3.1.1.2 Qualidade de vida no trabalho e a realidade vivenciada
enfermagem. O centro das atividades desta equipe é o paciente e a assistência integral pode ser desenvolvida com uma metodologia de trabalho que enfoque o paciente no sentido global, utilizando-se para tal dos recursos materiais que são necessários para a organização do ambiente terapêutico.
Alguns profissionais da equipe relataram que QVT significa ter os recursos materiais adequados para a realização do trabalho, conforme os depoimentos a seguir:
Material bom pra gente trabalhar, as condições que eu posso trabalhar e ajudar o paciente naquilo que ele precisa, isso que é ter uma qualidade de vida (Lorena - auxiliar de enfermagem).
Tem muitas outras coisas [...] que eles falam, ‘cê tem que fazer isso’ e não te dá um material [...] exige aquilo de você [...] às vezes não tem aquilo que exige [...] a gente fica impotente diante desses problemas, é nesse caso a qualidade que eles têm que dar pra você fazer aquele serviço como exige [...] não é assim (Arlete - técnica de enfermagem).
Percebemos nesses depoimentos que a equipe de enfermagem se sente segura quando tem em mãos os recursos materiais necessários ao bom desempenho de suas atividades. A responsabilidade dos profissionais, diante de um ser humano a ser cuidado, passa pela competência, mas também por recursos apropriados, que são facilitadores e oportunizam uma assistência de qualidade.
A realidade vivenciada com relação à estrutura física das dependências também é significativa para a equipe de enfermagem, afinal ela permanece durante grande parte de sua vida no local de trabalho e este deveria proporcionar-lhe oportunidade de desempenhar suas funções num ambiente que tivesse estrutura física apropriada, de modo a evitar prejuízos à saúde dos mesmos. Para fundamentar essa compreensão, fazemos referência à Resolução RDC nº 50 de 21 de fevereiro de 2002, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que dispõe sobre o regulamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde (BRASIL, 2002):
Todas as cidades mandam gente pra cá e quando precisamos do hospital não tem espaço [...] aqui é sobrecarregado [...] o pronto socorro daqui é muito
pequeno, sem nenhum banheiro, não tem como dá um cuidado lá no pronto socorro [...] quando o paciente chega se tá sujo, ele vai permanecer sujo, não tem um banheiro, não tem espaço (Ian - técnico de enfermagem).
E as condições também do local de trabalho, um lugar pra você assentar corretamente pra fazer suas anotações [...] altura das bancadas pra você tá trabalhando, preparando sua medicação, altura do leito, geralmente isso não é visto e acarreta danos físicos [...] na enfermagem a gente tem que ter condição física pra estar trabalhando senão a gente não consegue, e a gente vê isso [...] as camas são muito baixas, são as dificuldades que a gente enfrenta, além de uma pressão muito grande (Débora - enfermeira).
Em relação ao espaço apropriado, para que os profissionais possam realizar o seu descanso, com segurança e tranqüilidade, Débora (enfermeira) argumenta:
O que eu vejo aqui é o contrário, por exemplo, tem uma hora de descanso, nem o pessoal do plantão diurno nem do noturno tem um local para o descanso.
No tocante a isso, vivenciamos situações, em que os trabalhadores colocavam um colchão de maca no chão do vestiário, ou mesmo em uma cadeira no posto de enfermagem para o descanso noturno. Como esperar uma assistência adequada de profissionais que não têm pausas no serviço ou, se as têm, falta um local apropriado para que possam descansar e se preparar para a continuidade da jornada de trabalho?
Débora (enfermeira) enfatiza que QVT para a equipe de enfermagem é a possibilidade de um local específico para realizar suas refeições:
Não temos refeitório, tem um refeitório em péssimas condições, tá até construindo um, mas os funcionários comem em pé, as cadeiras são poucas. Quem traz a refeição de casa [...] a maioria deles, oitenta por cento, na hora de aquecer eles não têm o banho Maria, cai água dentro do almoço deles, dentro da vasilha deles, a comida fica horrível.
Os sujeitos do estudo revelaram que os horários das refeições oferecidas pelo hospital não são respeitados, além de a alimentação, oferecida pela organização não ser equilibrada. O que acabamos de explicitar está exposto nos depoimentos:
Se é que o salário não aumenta, ter tipo uma cesta básica pra ajudar, um lanche melhor, isso tudo ia ajudar. Não é o meu caso, mas tem colega que depende disso, que às vezes não tem nem o almoço pra trazer, muito
funcionário que dependia se aqui fosse oferecido um almoço ou se oferecesse um lanche melhor, muita gente conta com o café daqui da manhã, então poderia ter uma qualidade de vida melhor (Amanda - técnica de enfermagem).
Penso que o lugar onde você trabalha tem que te dar condições de você fazer aquilo como tem que ser feito [...] deixa muito a desejar com a gente [...]. Então pra mim fazer o melhor, eu tenho que receber condições minhas física, tem que ter um horário certo pra alimentar [...] você fica horas e horas sem alimentar, porque às vezes fica cuidando tanto do doente e esquece de você [...] então se você fica muito tempo sem alimentar, cê vai ter condições de fazer aquele serviço bonito? Não vai (Arlete - técnica de enfermagem).
Ribeiro (2001), em sua obra “A semente da vitória”, afirma que a alimentação e a forma com que a mesma é realizada têm uma importância muito grande para a saúde das pessoas e elas não se dão conta desse processo. É necessário que essa se dê de maneira tranqüila, pois é um momento em que o organismo se prepara para absorver os nutrientes para sua subsistência.
Os trabalhadores da equipe de enfermagem revelam esse desejo de uma condição mais humana e apropriada para alimentarem-se, afinal exercem um trabalho desgastante conforme já mencionamos. Além disso, almejam por uma alimentação de melhor qualidade conforme percebemos neste depoimento:
A maioria a noite são todos hipertensos [...] aqui o lanche noturno é gratuito, mas é péssima a qualidade, comida salgada, o pessoal reclama muito. Nós temos funcionários aqui diabéticos e assim faz separado o café sem açúcar, mas deixam frio [...] então cê vê que não se preocupa em nada com o funcionário, com a força de trabalho (Débora - enfermeira).
Corroborando essas vivências, Freitas (1999, p. 118) relata:
“Preocupa-me sobremaneira a relação de trabalho que vem sendo descrita [...] nas instituições que possuem em sua função principal cuidar do outro [...] e que no redemoinho do sistema, fazendo jus ao adágio ‘casa de ferreiro espeto de pau’, esquecem de vincular uma ideologia que fomente o cuidar de si”.
Os profissionais da equipe de enfermagem, muitas vezes, orientam os pacientes, prescrevem cuidados relativos à alimentação que eles próprios não têm condições de
vivenciar; orientam um determinado cuidado e não podem ser coerentes com o seu próprio cuidado por falta de suporte da própria organização hospitalar onde trabalham.