No Brasil a nova questão social se mostra a partir do processo de pauperização, mesmo entre os trabalhadores inseridos no mercado de trabalho, como resultado de uma trajetória marcada pela insegurança, instabilidade e precariedade nos vínculos laborais, e ainda agravadas pela ausência de mecanismos de proteção social.
A globalização econômica caracterizada pela grande mobilidade de massas de capitais, pelo crescimento de corporações transnacionais e pela valorização do capital faz acelerar a internacionalização das grandes decisões, das quais o trabalhador enquanto ator social tem estado sistematicamente alijado.
Por outro lado, os imperativos de crescimento econômico e da competitividade no mercado levam a flexibilização das estruturas produtivas e das formas de organização e divisão social do trabalho, estabelecendo várias formas de contratação: desde vínculos estáveis ou com diversos níveis de precarização – terceirizados, temporários, em tempo parcial, por tarefa.
O quadro de reestruturação das empresas e dos sistemas produtivos, inquestionável numa ótica eminentemente econômica, acarreta um pesado ônus expresso, em última instância, na precariedade e na exclusão social, fontes alimentadoras da violência atual. Uma precarização que atinge não apenas as populações consideradas vulneráveis, mas o conjunto da sociedade, embora de
modo diferente (GOMEZ; THEDIM COSTA, 1999).
O aumento das desigualdades sociais, como ocorreu nos primórdios da revolução industrial quando a nascente classe operária constituía uma ameaça à estabilidade social, hoje deriva de diversas formas de exclusão social e conduz a uma violência difusa, forjada no cruzamento do social - político - cultural, que remete a um estado de desagregação, de decomposição social, de individualismo crescente (GOMEZ; THEDIM COSTA, 1999).
As transformações ocorridas nas últimas décadas no mundo do trabalho têm repercutido na saúde dos indivíduos e do coletivo dos trabalhadores. A incorporação crescente de recursos de informática e robótica além de inovações em processos organizacionais modificou profundamente a estrutura produtiva dos países capitalistas. Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, provocou mudanças nas organizações, nas condições e nas relações de trabalho. A insegurança gerada pelo medo do desemprego faz com que as pessoas se submetam a regimes e contratos de trabalho precários, com baixos salários.
Essa nova conjuntura fez crescer em escala global a exploração da força de trabalho feminina transferindo-se a elas as atividades dotadas de menor qualificação, mais elementares e frequentemente fundadas no trabalho intensivo, o que as estaria deixando mais vulneráveis à superexploração (ELIAS; NAVARRO, 2006).
O rendimento médio feminino equivalia, em 1998, a 64% do masculino, as mulheres mantinham taxa de desemprego maior (20%) que a dos homens (14%). Além disso, as trabalhadoras ainda encontram-se expostas aos velhos e, principalmente, aos novos riscos ocupacionais, como as atividades repetitivas e a dupla jornada/carga de trabalho, o que acarreta maiores riscos para sua saúde (SILVA; BARRETO JÚNIOR; SANT'ANA, 2003).
A Constituição brasileira de 1988 (BRASIL, 1988) estabelece que ao Sistema Único de Saúde compete, além de outras atribuições, executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador (art. 200, II). A Lei Orgânica da Saúde (BRASIL, 1990) regulamentou os preceitos constitucionais e definiu a participação do município na execução, controle e avaliação das ações referentes às condições e aos ambientes de trabalho, bem como a execução dos serviços de saúde do trabalhador. Neste dispositivo legal, entende-se por saúde do trabalhador o conjunto de atividades que se destinam, por
intermédio de ações de vigilância epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção, à proteção, à recuperação e à reabilitação da saúde dos trabalhadores que se submetem a riscos e agravos advindos das condições do trabalho, abrangendo:
I - assistência ao trabalhador vítima de acidentes de trabalho ou portador de doença profissional e do trabalho;
II - participação, no âmbito de competência do Sistema Único de Saúde (SUS), em estudos, pesquisas, avaliação e controle dos riscos e agravos potenciais à saúde existentes no processo de trabalho; III - participação, no âmbito de competência do Sistema Único de Saúde (SUS), da normatização, fiscalização e controle das condições de produção, extração, armazenamento, transporte, distribuição e manuseio de substâncias, de produtos, de máquinas e de equipamentos que apresentam riscos à saúde do trabalhador;
IV - avaliação do impacto que as tecnologias provocam à saúde; V - informação ao trabalhador e à sua respectiva entidade sindical e às empresas sobre os riscos de acidentes de trabalho, doença profissional e do trabalho, bem como os resultados de fiscalizações, avaliações ambientais e exames de saúde, de admissão, periódicos e de demissão, respeitados os preceitos da ética profissional;
VI - participação na normatização, fiscalização e controle dos serviços de saúde do trabalhador nas instituições e empresas públicas e privadas;
VII - revisão periódica da listagem oficial de doenças originadas no processo de trabalho, tendo na sua elaboração a colaboração das entidades sindicais; e
VIII - a garantia ao sindicato dos trabalhadores de requerer ao órgão competente a interdição de máquina, de setor de serviço ou de todo ambiente de trabalho, quando houver exposição a risco iminente para a vida ou saúde dos trabalhadores. A instrumentalização dessas diretrizes consolidou-se pela Norma Operacional Básica de Saúde do Trabalhador – Nost/SUS, em 1998, que definiu as responsabilidades dos municípios em cada uma das duas condições de gestão (Plena de Atenção Básica e Plena do Sistema) definidas pela NOB 01/96. Os pressupostos básicos da Nost/SUS podem ser sintetizados em: Universalidade das ações, independentemente de vínculos empregatícios formais no mercado de trabalho; Integralidade das ações, compreendendo assistência, recuperação de agravos e prevenção por meio de intervenções nos processos de trabalho; Direito à informação e Controle social, com a incorporação dos trabalhadores e seus representantes, em todas as etapas da vigilância à saúde; e regionalização e hierarquização, através da execução das ações de saúde do trabalhador em todos os níveis da rede de serviços, organizados num sistema de referência e contra- referência, local e regional (BRASIL, 1990)‡.