A democracia no Brasil, ao longo das décadas, tem sofrido duros golpes que a enfraqueceram num processo contraproducente. Getúlio Vargas é um exemplo, seguido do Golpe Militar de 1964. Getúlio com seu Golpe de Estado em 1937 colocou uma trava na democracia, impedindo as eleições de 1938, desviando a conturbada democracia da época e implantando a ditadura.
Constituição de 1934 representou uma enorme conquista: pela primeira vez, tornavam-se eleitoras e elegíveis. Mas a Constituição durou pouco. Três anos depois, antes mesmo que a primeira eleição que elegeria o novo presidente se realizasse, Getúlio Vargas deu um golpe para manter-se no poder e instaurou uma ditadura, conhecida como Estado Novo. Assim, em
10 de novembro de 1937, foi outorgada uma nova Constituição, idealizada e redigida pelo ministro da Justiça. Francisco Campos. A nova Carta incluía vários dispositivos semelhantes aos encontrados em constituições de regimes autoritários vigentes na Europa, como as de Portugal, Espanha e Itália. Com o Congresso Nacional fechado e com a decretação de rigorosas leis de censura, Vargas pôde conduzir o país sem que a oposição pudesse se expressar de forma legal. (BRAGA, FGV, 2012)
Por necessidades muito particulares, os governantes manipulam o Estado Democrático de Direito, desqualificando-o, cortando suas raízes, acidificando um processo social e político em desenvolvimento, modificando a Constituição e deliberadamente desrespeitaram a democracia.
Sendo a democracia uma forma de governo, onde a maioria exerce o poder, com respeito aos direitos civis, sociais e políticos, estabelecendo direitos e deveres ao Estado e a própria sociedade, então:
Por democracia entende-se uma das várias formas de governo, em particular aquelas em que o poder não está nas mãos de um só ou de poucos, mas de todos, ou melhor, da maior parte, como tal se contrapondo às formas autocráticas, como monarquia e oligarquias (BOBBIO, 2000, p. 07. Apud CONSCIÊNCIA POLÍTICA)
Traçando uma linha entre o desenvolvimento democrático até aqui abordado com o que disse o governador Geraldo Alckmin, quando foi indagado sobre quem realizou, ou quem estava realizando o movimento de 2013, percebe-se que a evolução democrática no Brasil sinaliza precariedade, pobreza, mesmo após décadas do golpe de Vargas. Geraldo Alckmin, um representante do governo do povo, declarou, segundo o documentário “Junho – O mês que abalou o Brasil” (Wainer, 2014): “O movimento foi realizado por um grupinho de vândalos com ação evidentemente criminosa”.
A democracia formal, insculpida na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 1º, inciso III, trata da dignidade da pessoa humana, que contribuem para fundamentar o Estado Democrático de Direito, que deve ser respeitado e exercido pelos atores sociais. Para a ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, a polícia reprime o povo seguindo a cartilha da ditadura:
Continuamos com um modelo de polícia que herdamos da ditadura - e os manuais com os quais os policiais são formados, bem como as práticas de abordagem das pessoas nas manifestações e nas ruas, são resquícios daquele regime. (ROSÁRIO, UOL NOTÍCIAS, 2013).
Desta forma, exercer a democracia requer conhecimento prévio do funcionamento de um sistema que deve estar voltado para beneficiar a sociedade e principalmente os menos favorecidos.
Uma das questões que merece análise e reflexão foi a explosão de violência nas ações policiais, mostrando que a polícia militar ainda é uma herança da ditadura, voltada para a repressão da população e defesa do Estado. A truculência policial que é cotidianamente vivenciada nos bairros pobres das periferias e favelas transbordou esses limites, mostrando-se sem rebuços nas imagens que se espalharam pelo país. Por outro lado, assistiu-se a um fenômeno novo, que foi a presença de grupos de manifestantes que enfrentaram a polícia e destruíram bens públicos e privados em torno das manifestações, majoritariamente pacifistas. Identificados genericamente como vândalos pela mídia, a composição desses grupos começa a ser investigada tanto pela polícia como pelos cientistas sociais. O termo vandalismo é definido no Dicionário do Aurélio como “Destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito”. Talvez aí encontremos a principal pista para desvendar o fenômeno inusitado em uma sociedade que se quer crer ser formada por homens e mulheres cordiais. Em outros termos, a crise de confiança que atravessa o conjunto das instituições permite que diferentes fatores e atores se responsabilizem pela erupção da violência entre os manifestantes [...] A tensão entre o aprofundamento da democracia proposto nas manifestações e a radicalização das ações de violência que desestabilizam a democracia mostra que são caminhos distintos, porém se encontraram nessa conjuntura, de forma algumas vezes sinérgica, outras vezes contraditória. Não nos resta, no entanto, outra saída que não seja a radicalização da democracia, com a socialização dos instrumentos de poder, da riqueza e da própria segurança [...] (FLEURY, FUNDAÇÃO HEINRICH BÖLL, 2013)
Os anseios dos movimentos por mais democracia em 2013, permite outra análise do processo de redemocratização na década de 80. Após a derrubada do Regime Militar em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves, o país abriria suas portas para a promulgação da CF/ 88 a qual brindou o país com a redemocratização.
Ampliar a democracia exige esforço constante e diário do Governo e cidadãos, que pode ser alcançados com vontade política e conhecimento profundo do seu significado, o que trará para sociedade uma ampliação real de seus direitos,
sem que as instituições públicas imponham, corrupção e repressão, ceifando parte do direito civil e político em ocupar espaços públicos e participar do governo mais efetivamente.
Não é mais possível que se utilize frente aos movimentos sociais uma estrutura repressiva, que se concretiza em força policial, ataque midiático e fórmulas jurídicas [...] Há que se lembrar que vivemos em uma sociedade de classes, típica do modelo capitalista, e mudanças sociais concretas, no sentido de diminuição da desigualdade e da construção de um Estado efetivamente voltado a questão social [...] (MAIOR, 2013, p. 84)
Neste ponto, observa-se dois autores e suas perspectivas, unir-se-á Maior a Fleury. O primeiro cita uma “estrutura repressiva, onde a polícia concretiza ações repressivas”, enquanto Fleury (2013) aborda: [...] “assistiu-se a um fenômeno novo, que foi a presença de grupos de manifestantes que enfrentaram a polícia e destruíram bens públicos” [...] Ao somar-se estas abordagens, verifica-se um despreparo no exercício democrático tanto por parte dos manifestantes de 2013 quanto do governo que comanda uma polícia que reage com excesso de violência, repressivamente, sem diálogo, que atira para depois pedir identificação. Como foi o caso da repórter Giuliana Vallone, anteriormente mencionado. Através destas informações constata-se a falta de vivência e experiência no exercício democrático, pois a repressão leva ao desequilíbrio democrático e consequentemente leva a ações radicais praticadas pelos atores.
Cabe no presente trabalho a opinião técnica de um estudioso dos diversos movimentos sociais que acontecem no mundo, incluindo o ocorrido no Brasil em 2013. Manuel Castells, sociólogo de origem espanhola, concedeu entrevista à Folha de São Paulo. Ao ser questionado se “está em risco o Estado Democrático de Direito no Brasil” (COLOMBO, FOLHA DE SÃO PAULO, 2015), o sociólogo respondeu:
No Brasil, não há Estado de Direito. No Brasil há uma classe política corrupta que utiliza o Estado para seus próprios fins. Faz isso como classe, ainda que como governantes concretos às vezes não o sejam. No Brasil não há Estado de Direito, há a manipulação do Estado de Direito para manter um Estado patrimonial. (CASTELLS, 2015, FOLHA DE SÃO PAULO).
Em percepção similar a de Manuel Castells, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) - Projeto apoio aos diálogos setoriais união europeia – Brasil, declarou o seguinte:
Especialmente no Brasil, um país com grandes e urgentes demandas sociais, essa concepção de democracia e participação política limitada, aliada a uma igualdade estabelecida apenas formalmente, esconde e mantém estruturas de dominação e opressão forjadas historicamente e perpetradas pelo próprio Estado, que nunca foi democrático ou realmente público, mas patrimonialista, escravocrata, patriarcal, com uma burocracia constituída estamentalmente, vinda das elites políticas tradicionais. (IPEA)
As Ruas em 2013 expuseram sentimentos de uma democracia comprimida por interesses particulares que vão muito além de uma representação democrática.
A compressão surge do particularismo que quanto maior, mais estreita é a faixa de representatividade democrática social, o que ao longo dos anos vem se tornando mais intensa e/ou mais evidenciada pela mídia e redes sociais, disparando a revolta popular, a insatisfação de uma população que apenas “em um dia de manifestação preencheram as ruas com mais de 1,25 milhão de pessoas”. (G1 BRASIL, 2013). A falta de representatividade e a constrição da democracia podem ser expressas neste trecho:
Nas ruas, observamos a revolta contra um tipo de democracia que não se parece em nada com a representatividade popular. Vivemos um simulado de representação em que o cidadão foi desmoralizando a política, insinuando a sua falência. Ser contra tudo é uma opinião genérica que não nos dá um caminho preciso, mas chama a atenção pelo seu intenso grau de insatisfação. (FERNANDES; ROSENO, 2013, P. 71).
Diante destas constatações, cabe verificar a qualidade dos avanços democráticos no Brasil, vistos pelo lado da governança e governabilidade, que formam um sistema que interage com a sociedade, e se há atendimento das demandas sociais de forma efetiva.
Durante três décadas de redemocratização vividas no Brasil, o despreparo político, a falta de governança e governabilidade têm deixado marcas profundas na sociedade, pois a desigualam amplamente:
A governança pública tem implicância para que os governos sejam mais eficazes, visto o ambiente de economia global, atuando com capacidade máxima de gestão, respeitando as normas e valores de uma sociedade democrática [...] Mesmo com todo o aprofundamento nos debates a respeito de governança e suas boas práticas, o Brasil não tem ainda esse traço como característica marcante na gestão pública. (HORA; OLIVEIRA; FORTE, 2014, p.5)
E segundo o Tribunal de Contas:
Desde 2012, o Tribunal de Contas da União (TCU) realiza estudos sobre gestão em importantes áreas para o desenvolvimento econômico e social do País, como educação e saúde [...] Na maioria das áreas, o dinheiro público não é bem aplicado. A falta de governança não é exclusiva à União, está em todos os níveis. O Brasil tem dificuldade no crescimento porque não tem um bom planejamento como um todo”, afirma o presidente do TCU, ministro Augusto Nardes. (GASTIM E OLIVEIRA, ESTADÃO, 2014)
A ineficiência administrativa em gerenciar as políticas públicas do Estado, em atender as demandas sociais, e ampliar a participação da sociedade nas decisões governamentais, afetando o planejamento.
O presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Augusto Nardes, afirmou nesta quinta-feira que a falta de planejamento e de avaliação de riscos no Estado brasileiro leva à corrupção e citou a Petrobras como exemplo. "O fato de não existir governança facilita a corrupção no Brasil, porque não tem planejamento, não tem metas, não tem avaliação. Nem avaliação de riscos, como o caso do que aconteceu na Petrobras", [...] (VALOR, 2014)
Para melhor compreensão optou-se por distinguir esses princípios gerenciais que são bases para os avanços democráticos, para que o planejamento, a ampliação da eficiência e eficácia administrativas, participação social, e tomadas de decisão sejam expandidos de forma eficiente. Diversos autores definem os dois conceitos, Eli Diniz, por exemplo, diz que:
Governança, na acepção aqui utilizada, diz respeito à capacidade de ação estatal na implementação das políticas e na consecução das metas coletivas. Implica expandir e aperfeiçoar os meios de interlocução e de administração dos conflitos de interesses, fortalecendo os mecanismos que garantam a responsabilização pública dos governantes. Governança refere- se, enfim, à capacidade de inserção do Estado na sociedade, rompendo com a tradição de governo fechado e enclausurado na alta burocracia governamental. (DINIZ, 2003, p.22)
Governança não é somente sinônimo de gerir os recursos econômicos da sociedade. De acordo com o secretário da ONU que define governança da seguinte maneira:
[...] o governo é considerado “bom” e “democrático” [...] se a governança promove a igualdade, a participação, o pluralismo, a transparência, a responsabilidade e o Estado de Direito, de forma efetiva, eficiente e duradoura. Ao pôr em prática estes princípios, vemos a realização de eleições livres, justas e frequentes, legislaturas representativas que fazem e supervisionam as leis e um judiciário para interpretá-las. As maiores ameaças à boa governança vêm da corrupção, da violência e da pobreza, que prejudicam a transparência, a segurança, a participação da população e suas liberdades fundamentais. A governança democrática traz avanços ao desenvolvimento, ao juntar esforços para lidar com tarefas como a erradicação da pobreza, a proteção ao meio ambiente, a garantia da igualdade de sexos, proporcionando meios sustentáveis de subsistência. Ela assegura que a sociedade civil desempenhe um papel ativo no estabelecimento das prioridades e torne conhecidas as necessidades das pessoas mais vulneráveis. (KI-MOOM, 2009]
Evitando-se colapsos urbanos, econômicos e sociais.
Quanto à governabilidade, esta faz parte de todo o processo de gestão porque traz legitimidade as ações, a tomada de decisão, a transparência e ao planejamento. É através da governabilidade que se legitima a governança conferindo mais democracia ao país. Segundo Junquilho: “A governabilidade incorpora à articulação do aparelho estatal ao sistema político de uma sociedade, ampliando o leque possível e indispensável à legitimidade e suporte das ações governamentais em busca de sua eficácia.” (JUNQUILHO 2010, p.32).
A corrupção e consequentemente a falta de governança afetam diretamente a governabilidade, pois existe uma hierarquia legal que não está sendo respeitada pelo Poder Executivo e instituições a ele ligadas, tem-se como exemplo o mensalão, que altera a legislação, corrompendo legisladores e alterando o curso da lei, gerando crise de governabilidade. De acordo com o MPF:
“Os ministros entenderam que foi implementado um esquema de desvio de recursos de órgãos públicos e de empresas estatais para pagamento de parlamentares em troca de apoio político. O caso foi concluído depois de 53 sessões, com total de 25 condenados”. (MPF, MENSALÃO)
É através dessa inversão que se vive desgovernos, ou governos voltados para si, pouco ou nada democráticos, longe da sociedade, e que cumpre mal as leis constitucionais, estaduais e municipais. É nesse aspecto que as insatisfações democráticas se instalaram nas diversas camadas da sociedade gerando convulsões humanas pelas ruas do país, como as ocorridas em 2013. Segundo Moises e Meneguello (2013, p.110): “[...] os cidadãos são insatisfeitos e críticos sobre seu funcionamento no país, [...] Apenas 21% afirmam estar satisfeitos com a democracia, mais de 70% consideram que a democracia brasileira tem grandes problemas [...]”. Essa é uma pesquisa que aponta que a insatisfação democrática contribuiu para impulsionar a formação dos corredores humanos pelas ruas do Brasil em junho de 2013 e ao analisar as manifestações revelou:
O mal-estar decorre do fato de que as pessoas perceberam que algumas coisas próprias da democracia estão funcionando mal. O que gera insatisfação, desconfiança, descrença, principalmente das instituições de representação, Congresso Nacional, partidos políticos. Exatamente porque elas nasceram sob a égide da democracia, elas estão cobrando a promessa da democracia. (MOISÉS, REVISTA SESC, 2014).
Tais promessas podem ser mais bem entendidas através do teólogo brasileiro (BOFF. 2013):
[...] em primeiro lugar, se trata de um efeito de saturação: o povo se saturou com o tipo de política que está sendo praticada no Brasil, inclusive pelas cúpulas do PT (resguardo as políticas municipais do PT que ainda guardam o antigo fervor popular). O povo se beneficiou dos programas da bolsa família, da luz para todos, da minha casa minha vida, do crédito consignado; ingressou na sociedade de consumo. E agora o que? Bem dizia o poeta cubano Ricardo Retamar: “o ser humano possui duas fomes: uma de pão que é saciável; e outra de beleza que é insaciável”. Sobre beleza se entende educação, cultura, reconhecimento da dignidade humana e dos direitos pessoais e sociais como saúde com qualidade mínima e transporte menos desumano.
Apontando a necessidade, por parte do governo, de um olhar mais humano para o povo brasileiro.
O movimento Protesta Brasil evidenciou a crise de governança, de representatividade junto ao Estado, o qual é guardião legitimo de uma nação. Em junho de 2013, todo um sistema inoperante foi posto em evidencia, invadia a saúde, educação, os próprios representantes, a polícia; brigava por reforma. A boa governança é o Estado ordenando aos governos, os quais realizam objetivos que venham atender satisfatoriamente a sociedade, o que leva a ampliação da igualdade de direitos e consequentemente desenvolvimento democrático e diminuição da corrupção.
A governança refere-se ao modo com que os governos articulam e coordenam suas ações, em cooperação com os diversos atores sociais e políticos e sua forma de organização institucional. Uma boa governança é requisito essencial para o desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico, a equidade social e direitos humanos. SANTOS (1997 apud
ARAÚJO, p.5)
De acordo Nogueira (2013, p.178) “Políticas públicas de qualidade [...] precisam ser projetadas como política de Estado, abertas para o conjunto da sociedade e formadas democraticamente pelos cidadãos e por suas organizações”. Há uma distância entre o Estado, atualmente representado pela presidente Dilma Rousseff, e a sociedade. Nogueira (2013, p.131) “O Brasil de Dilma permanece atravessado por um profundo hiato entre o Estado e a sociedade. A revolta de junho de 2013 mostrou que o ciclo virtuoso [...] precisava de ajustes importantes, dado seu esgotamento de governança”.
Ao se referir a junho de 2013, o sociólogo Manuel Castells diz que o consumo já não é mais o primeiro item da lista de necessidades a serem realizadas pelos brasileiros, e escreve sobre um novo modelo de consumo, ainda relata o paradoxo entre democracia brasileira formal, e o que tem-se em termos reais de política e polícia.
O mais interessante é que a insatisfação se produz com crescimento econômico, políticas redistributivas, estabilidade institucional e formas de eleições democráticas, objetivos obtidos a muito custo na luta contra a ditadura. É uma prova da maturidade da sociedade brasileira que aspira a outro modelo de vida, não medido em mais automóveis, mas em mais qualidade de vida pessoal, ambiental e de Direitos Humanos. É um escândalo em muitas cidades brasileiras que um país tão moderno e
formalmente democrático tenha a polícia que tem e a corrupção política que tem. (CASTELLS, GLOBO.COM, 2013)
Há uma interdependência entre o meio político, econômico e social, o que forma um sistema, uma rede de interação. E quando o meio político, onde ocorre o gerenciamento de um Estado, fica à deriva, sem planejamento, o restante do sistema fica comprometido, pois a falta de planejamento leva a desordem gerencial, perda de controle, o que turva a transparência e cria condições para a proliferação da corrupção em larga escala e esfacelamento social e democrático. De acordo com Augusto Nardes, ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU),
Governança no Brasil é um tema que precisa ser priorizado porque se gasta muito dinheiro público de forma errada. Governança é criar um ambiente seguro e favorável para a implantação de políticas públicas e isso não acontece quando não se gasta bem o dinheiro [...] Não se combate a corrupção se não houver uma boa governança. Se o administrador não tiver capacidade de governar, de treinar seus funcionários, não teremos a diminuição da corrupção. Quando não existe uma boa capacidade de governança, a administração vira a “casa da mãe Joana”.
Entende-se que governança é uma ferramenta gerencial que funciona bem contra a corrupção e relembrando o que foi anteriormente descrito, a corrupção no Brasil se estruturou com as práticas patrimonialistas, com o poder de um, que era a lei e o rei ao mesmo tempo. Foi através do poder, que abusos foram se instalando, as práticas pouco virtuosas foram tomando corpo e se especializando em esquemas gigantescos, como o atual petrolão (fraudes em contratos da Petrobrás com pagamento de propina para políticos).
A corrupção no setor público, afeta a boa governança e o Estado Democrático de Direito, porque desiguala a sociedade, não atende as demandas sociais ao desviar recursos sociais para particulares, gerando enriquecimento de uns e empobrecimento de muitos. O gigantismo da corrupção impõe estreitamento da democracia, desqualificando-a, pois a corrupção é centro maior ou menor de uma forma de Governo, que até o presente momento não foi abolida e mantém-se ativa na democracia. De acordo com pesquisa realizada na Universidade de São Paulo, o cientista político Carlos Joel C. F. Xavier, informa o seguinte:
O Brasil já sente os efeitos danosos da corrupção em sua democracia [...] Destaca que um dos pontos em que se pode observar a queda da qualidade da democracia no Brasil é justamente na pouca participação e interesse da população por política de um modo geral. (XAVIER, AGÊNCIA USP, 2015)
Sendo, portanto, a corrupção danosa à democracia, buscou-se algum índice que mensurasse o nível de corrupção no Brasil. Encontrou-se o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), 2012, 2013 e 2014.
Segundo o IPC, que avalia a corrupção em 175 países: “o ranking é elaborado por meio de uma dezena de estudos comparativos e sua classificação