4.2 Natureza e características dos conhecimentos
4.2.4 Aspectos técnico-produtivos
4.2.4.2 Qualidade do leite
Os extensionistas identificaram que, nas UOs assistidas, foram conseguidas melhorias nos indicadores de qualidade do leite, principalmente na Contagem Total de Bactérias (CTB) e Contagem de Células Somáticas (CSS). A contribuição para a melhoria desses indicadores se deve à aplicação de técnicas já amplamente descritas pela pesquisa agropecuária, inclusive as relacionadas à substituição de desinfetantes industriais por caseiros com o uso de plantas bioativas.
“o que é uma CCS”
“da higiene, dos cuidados com a ordenha” “produzir detergentes para os tetos” “na questão da higiene”
“com estrutura simples é possível ter leite de qualidade” “relacionar a raça com qualidade do leite”
“questão da qualidade do leite influenciou bastante”
“produtos industriais x produtos naturais (pré-dipping/pós-dipping)” “a questão das avaliações do leite”
“contagem bacteriana”
“o leite não era de tanto qualidade”
A exposição dos entrevistados denota que o mérito das melhorias não estaria em determinada prática inovadora de manejo da ordenha em específico, pois os extensionistas se referiram à “questão da higiene e cuidados da ordenha”, que são práticas amplamente divulgadas pela pesquisa agropecuária. Mas se referiram por várias vezes à “segurança” dada pelo apoio da pesquisa, como relata um extensionista:
[...] outra coisa importante é que o pessoal passou a ter domínio,a questão das
avalições do leite, o que é uma CCS [Contagem de Células Somáticas], esse retorno eu tenho, esse conhecimento para mim e pra propriedade, a partir do momento que eu tenho o conhecimento do que é, eu sei onde está o ponto que eu possa rever minha produção de leite. Então dar uma olhada para estas análises de uma forma mais...então...é mais no sentido de melhorar as atividades da sua propriedade e não tanto quanto não no sentido da perfeição...como no passado eles perseguiam...enfim né. Então eles tem um domínio um pouco mais nessa questão de conhecer...
Dois aspectos reforçam esse argumento de que o aprofundamento nas causas dos problemas, foco da Rede Leite, pode estar contribuindo para esse “novo” conhecimento sobre a qualidade do leite. O primeiro são as pesquisas sobre qualidade do leite realizadas pela Embrapa Pecuária Sul diretamente em quatro UOs, que inclusive revelam disparidade em comparação aos dados do senso comum, ou melhor, os dados das análises feitas com amostras comumente coletadas pelos freteiros. Para os extensionistas entrevistados que se envolveram no trabalho de pesquisa sobre qualidade, houve surpresa, pois era de se supor uma baixa qualidade, em função do histórico da UO a partir das análises de coletas dos freteiros em diversos produtores assistidos, conforme aponta outro extensionista:
[...] bem interessante esse trabalho aqui no município, essa questão de retorno, de
discutir com o produtor esse retorno, e nos mostrou assim, Pedro, que pode estar havendo...estar havendo uma avaliação errônea [...], pois todas as propriedades acompanhadas [UOs acompanhadas] da região que entraram nesse programa, praticamente todos com os mesmos resultados, resultados excelente, para ter uma ideia, contagem bacteriana no tanque, com nove mil,9do Sr [...] exemplificando.
Em uma dessas UOs, segundo um entrevistado, mudou inclusive a forma de negociação entre o produtor e a indústria, sendo possível, a partir da informação gerada, negociar a melhoria do preço do leite em função da melhor qualidade:
[...] aqui tem um problema pois as empresas não compram por qualidade, mas o
produtor conseguiu fazer com que as empresa pagasse por qualidade.
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A contagem total de bactérias é um indicador da qualidade biológica do leite cru refrigerado, cujo padrão mínimo estabelecido pela Normativa n° 62 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é de 300 mil Unidades Formadoras de Colônia (UFC) por ml de leite, até junho de 2016; a partir desse ano, será de 100 mil.
Nósachávamos que o leite não era de tanto qualidade, e os dados da Embrapa mostrou que com estrutura simples é possível ter leite de qualidade...o produtor não usa detergente, usa plantas [bioativas]... foi feito em quatro municípios...relacionar a raça com qualidade do leite...mas antes de concluir o trabalho já traz benefícios aos produtores e informações.
O segundo aspecto que reforça a consideração de que o maior preparo dos extensionistas tem contribuído na melhoria da qualidade do leite nas UOs, é a formação técnica dada aos extensionistas pelo Centro de Formação de Bom Progresso, cujos fundamentos pedagógicos propõem conhecer os fundamentos dos processos biológicos envolvidos, os quais determinam os níveis dos indicadores. Esse aspecto foi percebido por um extensionista:
[...] tu pega uma nota de leite com análises e tu não tem o que dizer sobre
aquilo...da minha parte eu vejo por este lado, eu fui atrás de muitas coisa, o que me realizou muito foi um material que a gente recebeu do curso que a gente fez em Bom Progresso...este material me despertou bastante para ir atrás então.
Nesse centro de formação, procura-se, em vez de saber que os problemas de CTB se devem às bactérias que causam deterioração do leite, discutir uma proposta no sentido de compreender por que as bactérias crescem. A partir desse entendimento fundamental, os extensionistas foram encorajados a testar nas UOs, juntamente com os membros da família, práticas de manejo que atendessem a esse objetivo e avaliar as condicionantes de sua implementação.
O avanço nesse aspecto da qualidade está mais no fato de os agricultores acessarem os conhecimentos fundamentais, apreendendo os princípios que condicionam o desenvolvimento de bactérias, quer no úbere, ocasionando mamites, quer no leite armazenado após a ordenha, e a partir daí determinar pontos críticos de contaminação de cada um, buscando a sua forma de debelá-los. Dessa forma, os agricultores praticaram as técnicas propostas com adaptações baseadas na realidade específica de cada um. Uma técnica bastante divulgada no centro de formação é a utilização de água morna na limpeza dos utensílios empregados na ordenha e resfriamento do leite.
A melhor compreensão sobre as reais causas dos problemas de qualidade biológica do leite pode estar determinando um melhor engajamento dos produtores na solução. É preciso considerar que, antes da Rede Leite, os extensionistas e produtores tinham a preocupação com a adoção de sofisticações nas instalações como ponto necessário, o que já é visto de modo diferente, conforme argumento de extensionista quando perguntado sobre inovações:
ele faz desinfecção com produtos que ele faz em casa na linha mais ecológica e a questão que os resultados parecem ser bons, positivos. Isso mostra que até com coisa simples se consegue bons resultados. Leite de qualidade com instalações simples, não precisa ser uma instalação assim toda azulejada, pintada, mas instalações simples, assim eles têm tido bons resultados.
Em que pese que os extensionistas incentivem o uso de desinfetantes produzidos com tinturas de plantas bioativas para o procedimento de higienização dos tetos, anterior e posterior à ordenha, procedimento denominado de “pré-dipping” e “pós-dipping”, com resultados satisfatórios, os produtores não têm utilizado essa alternativa, alegando falta de tempo para o preparo das tinturas e do produto final, comparado ao uso de produtos comerciais.