CAPÍTULO I – DESCRIÇÃO DOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS COM CAFÉ
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.4. Qualidade do Solo
Na Tabela 6, encontram-se as notas dadas a cada uma das propriedades do solo utilizadas como indicadoras da sua qualidade.
Tabela 6. Notas atribuídas aos indicadores de qualidade do solo nos SAFs com café avaliados no sudeste da Guatemala.
Sistemas Agroflorestais Observa-se que os sistemas FrArg CIC e Arg CIAra apresentaram o maior valor médio de indicadores de qualidade do solo (9,5 e 9,2, respectivamente). Pela alta
quantidade de resíduos orgânicos presentes nestes dois sistemas, observou-se neles a maior atividade biológica e o maior desenvolvimento de raízes superficiais de café. As menores notas em todas as parcelas encontram-se relacionadas com a retenção de umidade do solo, devido ao regime hídrico predominante na região, que afeta de forma mais acentuada às plantações desenvolvidas sobre solos de textura grossa.
Os sistema Arg CI e FrArg CBA apresentaram as notas mais baixas de indicadores de qualidade do solo. Nestes sistemas a menor cobertura do solo e o menor desenvolvimento radicular reduziram a nota média geral, resultado que pode ser um reflexo da maior compactação destes solos e sugere que este indicador de qualidade do solo não seja influenciado em larga escala pela maior diversidade dos SAFs, já que estes sistemas eram os mais diversos.
A presença de artrópodes sobre o solo e na cobertura aérea foi muito abundante nos sistemas FrArg CIC, FrArg CBA e Arg CIAra. Os sistemas FrArg CIC e Arg CIAra que também se destacaram por apresentar alto número de minhocas, o que parece estar relacionado com as práticas de manejo ecológico, aplicadas nestes dois sistemas. Os sistemas FrArg CBA e Arg CI também apresentaram alto número de minhocas, entretanto no sistema FrArg CBA observou-se uma distribuição pouco uniforme, encontrando-se o maior número de minhocas nas áreas em torno das bananeiras, possivelmente pela maior presença de resíduos e de umidade nessas áreas.
Nos sistemas FrAre CI e Fr CG foi observada pouca presença de artrópodes e também menor quantidade de minhocas. Este resultado pode estar associado ao fato de nestes sistemas haver a combinação de apenas duas espécies, bem como, à remoção dos resíduos no sistema Fr CG para o centro da linha de cultivo e ainda à aplicação de produtos químicos para o controle fitossanitário da cultura, em ambos sistemas.
Assim, cafezais associados a uma única espécie arbórea apresentaram menor riqueza e diversidade da fauna, enquanto que nos sistemas com maior número de espécies vegetais, foi evidente a maior diversidade de artrópodes na parte aérea dos cafeeiros. Foram reconhecidas diferentes espécies de aranhas, formigas, grilos e larvas de insetos, em maior abundância nos sistemas mais complexos do que nos mais simplificados.
Portanto, a mistura de diferentes espécies arbóreas, o incremento no número de estratos e o manejo apropriado da sombra são estratégias para incrementar o número de insetos predadores que atuam sobre insetos pragas do cafeeiro (STAVER et al., 2001;
GUHARAY et al., 2001). A estrutura vegetativa complexa favorece também o controle de fungos fitopatogênicos atuando como uma barreira física que evita a propagação de esporos, diminuindo a incidência de doenças importantes do cafeeiro e, conseqüentemente, reduzindo o uso de produtos químicos (SOTO-PINTO et al., 2002).
A estimação da qualidade do solo utilizando indicadores fáceis de se registrar no campo tem como propósito avaliar as propriedades do solo ao longo do tempo, depois da aplicação de diversas práticas de cultivo ou bem, para comparar diferentes sistemas de manejo, em um dado momento (ALTIERI & NICHOLLS, 2002), permitindo aplicação de medidas corretivas no curto e médio prazo. Deve-se esclarecer que as notas dadas às características do solo através desta metodologia são expressões numéricas qualitativas, entretanto tenta-se expressar de forma comparativa entre os sistemas, o estado das condições do solo no momento da avaliação. Devido ao dinamismo dos processos que ocorrem no ecossistema, alguns indicadores podem manifestar uma condição diferente em resposta às variações ambientais durante o ano, sendo necessário levar em conta esta possível variação na interpretação dos resultados.
A avaliação da qualidade do solo, estimada através desta metodologia, é mais bem observada através de um gráfico tipo “ameba”. A Figura 1 representa a comparação
dos indicadores de qualidade do solo dos oito sistemas, agrupados com base na textura do solo, de acordo com os dados apresentados na Tabela 6.
Figura 1. Comparação dos indicadores da qualidade do solo nos sistemas agroflorestais com café. A: sistemas sobre solo franco-arenoso; B: sobre solo franco; C: sobre solo franco-argiloso; D: sobre solo argiloso. Os números em negrito representam os indicadores da qualidade do solo: 1. Estrutura; 2. Infiltração e compactação;
3. Profundidade; 4. Estado dos resíduos orgânicos; 5. Cor, odor e matéria orgânica; 6. Umidade do solo; 7. Desenvolvimento das raízes; 8. Cobertura do solo; 9. Erosão; 10. Atividade biológica. Os números sem negrito representam a escala das notas dadas aos indicadores (0 a 10).
A Figura 1A mostra o estado da qualidade do solo nos sistemas desenvolvidos sobre solo franco-arenoso. Verifica-se que nestes solos é necessário melhorar características relacionadas com a estrutura do solo e retenção da umidade, o que pode contribuir para melhorar outras características relacionadas ao desenvolvimento
0
Arg CiAra Arg CI Arg CIB
0
radicular e à atividade biológica. Como este solo apresenta baixo teor de argila, práticas como a adubação orgânica com produtos de origem animal ou oriundos da adubação verde, poderiam ajudar a melhorar a formação de agregados do solo. Além disso a adubação verde pode contribuir para diversificar a composição florística do sistema, com a conseguinte formação de nichos que podem abrigar diferentes espécies da fauna do solo, aumentando a diversidade biológica.
O sistema Fr CG (Figura 1B) desenvolvido sobre solo franco, apresentou condições de solo mais uniformes, decorrentes da sua textura, estrutura, profundidade e teor de matéria orgânica, entretanto, se observou nele pouca atividade biológica. Como já foi mencionado anteriormente, isto pode ser atribuído a várias causas, entre elas, à composição florística mais simplificada e à alta aplicação de produtos químicos para controle de doenças e pragas usadas no sistema. Outras possíveis causas poderiam estar relacionadas com a maior altura do estrato arbóreo, bem como com as características químicas dos resíduos que podem ter um efeito inibidor sobre certos organismos do solo (RAO et al., 1998). Outra possível razão seria o manejo da cobertura arbórea, já que foi observado neste sistema, que os resíduos orgânicos caídos das árvores eram continuamente removidos e acumulados em um só local, nas entrelinha do cafezal. Estes resultados confirmam relatos sobre a baixa atividade e diversidade biológica presente nos sistemas de café sombreados com grevíleas (SMBC, 2002).
Os sistemas desenvolvidos sobre solo franco argiloso, (Figura 1C) apresentam as características mais contrastantes quanto ao manejo, sendo evidente como as práticas de cultivo, influem na qualidade do solo. O sistema manejado organicamente (FrArg CIC) foi o que apresentou indicadores de qualidade do solo com valores mais próximos da nota máxima, sendo a conservação da umidade do solo a sua maior restrição nos períodos de seca. Ao contrário, o sistema FrArg CBA, mostrou um comportamento inferior à parcela anterior em todos os aspectos. No sistema FrArg CBA, devido a maior complexidade botânica esperava-se encontrar maior atividade biológica, entretanto, a desigual distribuição da cobertura arbórea foi o fator que possivelmente mais limitou o desenvolvimento dos organismos do solo.
Observa-se na Figura 1D, que dos três sistemas avaliados sobre solo argiloso, o sistema Arg CIAra foi o que mais se aproximou das condições ideais de qualidade do solo. A cobertura viva contribui para melhorar o estado das características de solo relacionadas com a conservação da umidade, controle da erosão, desenvolvimento radicular e atividade biológica. Entretanto, foi observado neste sistema pouco manejo do Arachis pintoi ao redor dos cafeeiros. Isto pode acarretar conseqüências negativas para a produtividade, devido à competição da leguminosa com os cafeeiros pela absorção de água e de nutrientes do solo, especialmente nas épocas de baixa precipitação (PEREIRA, et al., 1997).
Apesar disso, desde que exista um manejo apropriado da cobertura viva, a implantação desta prática em outros sistemas localizados na mesma região, seria conveniente não só pelos benefícios observados no sistema Arg CIAra, como pelos possíveis ganhos de nitrogênio proveniente da fixação biológica realizada pela leguminosa, assim como, para facilitar o controle de plantas invasoras (STAVER, 1999).