• Nenhum resultado encontrado

1 JORNALISMO E QUALIDADE

1.6 QUALIDADE E CONHECIMENTO ESPECIALIZADO

Há quem discorde, mas a pesquisa em qualidade revista até aqui é unânime em afirmar que a tendência do jornalismo de qualidade é a especialização dos jornalistas, com capacitação e treinamento para atuar de forma mais precisa e qualificada nas diversas frentes de informação. A especialização é uma tendência da sociedade contemporânea, na qual a exigência de formação e qualificação é crescente. Assim, o jornalismo não especializado deixa a desejar ao tratar de temas nos quais o conhecimento já está mais avançado, pois acaba repetindo fórmulas antiquadas, chavões, informações equivocadas, propagando mitos, fazendo publicidade sem saber.

Na combinação entre capacitação e responsabilidade, existe todo um campo que sustenta que quanto mais conhecimento sobre o tema que se aborda, maior é o compromisso, através do qual não se busca apenas dar a informação sobre os problemas, mas também suas potenciais soluções. Ao abordar temas complexos, como pobreza e insegurança, mais que mostrar as consequências, deve-se indagar e aprofundar as causas dos problemas (FOPEA, 2008, p. 6).

Não é prática corrente destacar jornalistas especializados para a cobertura de desastres no Brasil. Dado que o acontecimento é repentino, o normal é destacar quem está disponível ou contratar freelancers na área atingida. Ao identificar problemas no tratamento jornalístico do tema, a pesquisadora Ana María Miralles (2009, p. 27) pontua que nas redações as pautas sobre desastres são tratadas como qualquer notícia e

os jornalistas concordam que não possuem conhecimento para abordar adequadamente a Redução de Risco e Desastre. Além disso, não se aceita a ideia da necessidade de jornalistas especializados no assunto. Sibila Camps (1999, p. 201-202) itera que a cobertura de desastres se direciona a um público não-especializado e a linguagem deve ser de acordo, mas que, no entanto, a necessidade de prover informação que, por vezes, emprega um léxico específico, desconhecido do público, exige que o jornalista conheça a terminologia adequada.

As temáticas relacionadas à Redução de Risco e Desastre serão abordadas no próximo capítulo, no qual teremos um breve entendimento dos motivos pelos quais a capacitação é importante para o tratamento do tema como um todo. Apesar de a cobertura de desastres ser tema de abordagens múltiplas, no que diz respeito à especialização para a cobertura de riscos, observa-se que boa parte das pautas possíveis estão nas editorias de meio ambiente e ciência, que, por suas características, são as mais preparadas para o isso. É na união proporcionada pelo jornalismo científico-ambiental que reside o jornalismo de risco e desastre.

Cilene Victor (2009, p. 17) lembra que “o jornalismo ambiental nasceu cobrindo tragédias e denunciando os abusos de um modelo de desenvolvimento econômico considerado socialmente perverso e ambientalmente insustentável”. Victor (2009, p. 16) sugere a classificação da cobertura jornalística das questões ambientais em três áreas: Jornalismo ambiental militante (1), jornalismo do marketing verde (2) e jornalismo ambiental como subárea do científico (3).

A primeira possui um perfil ativista, denuncista e alarmista e surgiu com a necessidade de lidar com pautas de desastres socioambientais como o envenenamento da bacia de Minamata nas décadas de 1950 e 1960 e os impactos do DDT na agricultura. Diante desse tipo de pauta o jornalista ambiental se obriga a “gerenciar a fronteira entre a militância e a neutralidade”, o que não é tarefa fácil (Victor, 2009, p. 17). A militância dá origem a um jornalista engajado, preocupado com as implicações sociais e políticas, mas não deve extrapolar para não se tornar jornalismo de tragédia. O apelo à emoção, à comoção das massas, que, por vezes, vemos no jornalismo militante, provoca uma reação passageira, midiaticamente mensurada. “Quando as reportagens apelam ao catastrofismo, o maior risco é provocar o imobilismo da sociedade uma vez que tudo parece perdido e de nada adianta lutar” (Victor, 2009, p. 18-19).

O jornalismo do marketing verde – também chamado de marketing ambiental, marketing ecológico e ecomarketing - é caracterizado por pautas ambientalmente positivas, geralmente em benefício implícito ou explícito de grandes lobbies e corporações. O nome deriva de um movimento de especialização da assessoria de comunicação dessas empresas, “treinados com discursos da sustentabilidade, os assessores de comunicação foram, aos poucos, confundindo-se com os profissionais de marketing” (Victor, 2009, p. 21).

A instrução das assessorias de comunicação para as empresas é utilizar a diferenciação ambiental de produtos e serviços baseando-se em ações planejadas cujos custos são maiores, mas possuem uma compensação em termos de imagem e valor junto ao público consumidor. Valdetaro et al (2012, p. 222) destacam que “a empresa que não se preocupar com a atitude favorável dos consumidores em relação às questões ambientais pode deixar de obter vantagem competitiva”. Assim, “a comunicação é considerada como sendo uma informação tratada de modo estratégico, e a inteligência aplicada aos usos que serão dados a essas informações é que determinará a garantia de torná-las vantagens competitivas que agreguem valor à marca” (Valdetaro et al, 2012, p. 222).

A pesquisa realizada pelo engenheiro florestal, Erlon Barbosa Valdetaro et al (2012), buscou, em nove revistas e 91 websites do setor, propagandas e ações de marketing de empresas de produtos e serviços florestais que tivessem algum tipo de apelo ambiental.

Nota-se que algumas propagandas que utilizam termos ambientais possuem frases como “preservamos o meio ambiente”, “respeitando a natureza”, “produzimos de forma ecológica”, sem qualquer comprovação ou informação de como realizam tais práticas. As propagandas que utilizam frases como “preservamos a floresta nativa” baseiam-se na idéia de que ao consumirem madeira oriunda de florestas plantadas (reflorestamentos), preservam as florestas naturais (Valdetaro et al, 2012, p. 223).

O marketing ambiental em seu lado positivo pressiona as empresas a adequar sua produção às exigências de mercado que, por sua vez, é pressionado por uma sociedade cada vez mais crítica e consciente.

No entanto, é preciso ficar atento ao lado negativo dessa pressão, pois mesmo que haja um movimento genuíno de preocupação empresarial com o manejo ambiental, não se pode esperar o mesmo de todo o mercado. Jornalismo não é publicidade e por isso deve sempre desconfiar das pautas verdes que vem das assessorias de comunicação, sejam elas em qualquer setor.

Ao enumerar os problemas que provocaram o declínio da mídia, Bertrand (2002, p. 19) expõe que “o ‘muro’ supostamente existente entre os departamentos editorial e comercial começou a desmoronar e o jornalismo, lamentavelmente, mancomunou-se com a diversão, as redações públicas e a propaganda. Muito do que é visto como ‘notícias’ não passa de publicidade disfarçada”. Essa confusão entre jornalismo, entretenimento e marketing enfraquece apenas o jornalismo e o destitui de credibilidade.

O jornalista despreparado pode ser enganado por essa fusão danosa. “Ações ambientalmente responsáveis, mas que não são mais que cumprimento legal viram manchete” (Victor, 2009, p. 21). Dessa forma a preocupação ambiental das corporações, muitas vezes em resposta a violações da legislação ambiental ou como mecanismo de competição de mercado, “é pautada na imprensa brasileira, na maioria dos casos, de forma totalmente acrítica e manipulada pelos interesses dessas instituições” (Victor, 2009, p. 18-19).

Outras questões como a disputa entre ruralistas e ambientalistas também desafiam o jornalista. Sem uma visão ampla dos assuntos que movimentam essa disputa, o jornalista será sempre refém da opinião alheia e poderá ser usado para corroborar pontos de vista nem sempre benéficos para a sociedade em questões relevantes como o uso de transgênicos, energia nuclear, construção de hidrelétricas, criação de gado em extensão, latifúndios para produção de commodities e mesmo o mercado de compensação de carbono. O uso de marketing verde, principalmente por multinacionais do agronegócio como a Bunge Alimentos S.A., e a Cargill Alimentos S.A., ambas com sede nos Estados Unidos, esconde a realidade de multas ambientais proveniente de degradação ambiental, trabalho escravo, derrame de químicos, entre outros crimes ambientais (Rafael, 2013, p. 48-50). Essas empresas são muito bem assessoradas para transformar sua imagem através do

greenwashing, definido como um modo de desviar a informação correta

para aparecerem na mídia como ambientalmente responsáveis (Rafael, 2013, p. 51-52). Para isso se utilizam de mensagens que apelam para o sentimentalismo e frases de impacto. “Entre as principais características

estão fazer apelos de atributos específicos deixando de lado o/a produto/empresa como um todo; enganar pela linguagem, cometer exagero e irrelevância nas afirmações, utilizar imagens enganosas” (Rafael, 2013, p. 52).

Com a força econômica dessas empresas e suas imagens apelativas sendo propagadas pela mídia, o público acaba sendo enganado e destituído de informação verdadeira para tomar suas decisões. Em resumo, a “ausência de visão crítica, despreparo profissional do jornalista e a dependência financeira do veículo para o qual trabalha são as três condições básicas para a propagação dessa vertente do jornalismo ambiental que, neste momento no Brasil, é predominante” (Victor, 2009, p. 21).

Na terceira área de cobertura jornalística ambiental está o jornalismo ambiental como subárea do científico. Victor lembra que as pautas ambientais já requisitavam fontes da ciência, mas a partir do primeiro relatório do IPCC sobre mudanças climáticas, lançado em 1990, as pautas de cunho científico-ambiental se tornaram mais contínuas. Além disso, “para escapar do estigma de ecochatos, forma pejorativa de referir-se aos ambientalistas, muitos jornalistas recorreram à ciência, ou melhor, ao discurso cientifico para conferir neutralidade às suas reportagens sobre meio ambiente” (Victor, 2009, p. 23).

A diferença básica entre o jornalismo ambiental e o científico, apontada por Victor (2009, p. 24) é a preocupação com o social no primeiro.

Hoje, o Jornalismo Ambiental diferencia-se pela promoção de uma visão mais crítica e holística do contexto, que contemple vários olhares sobre um dado assunto. Porém o objetivo é que essas características sejam incorporadas tanto pelo Jornalismo Científico, quanto pelas demais especialidades do fazer jornalístico (Victor, 2009, p. 98).

Tanto o jornalismo científico, quanto o jornalismo ambiental possuem o intuito de popularizar a ciência e tornar acessíveis ao público informações que muitas vezes vem de campos especializados que possuem sua própria linguagem, com termos técnicos que não são de amplo conhecimento da sociedade. Cabe ao jornalista “a tarefa de usar analogias e decifrar nomes técnicos de modo a tornar possível a compreensão dos acontecimentos e avanços relacionados não só ao meio

ambiente, mas também às demais áreas que englobam o Jornalismo Científico, como a Saúde e a Tecnologia” (Girardi; Loose; Neuls, 2009, p. 95).

O jornalismo especializado traduz a informação complexa e contribui para a popularização das informações ambientais e científicas. Os obstáculos nesse processo vão desde “fontes áridas, exigentes ou restritivas, até a dificuldade de traduzir determinados conceitos científicos sem perder o rigor com a correção, passando pelas nem sempre declaradas limitações de interesses políticos e econômicos sobre a produção científica” (Girardi; Loose; Neuls, 2009, p. 96).

Para driblar o problema com as fontes, o pesquisador Mário Erbolato afirma que um jornalista precisa de conhecimento prévio para compreender suas fontes científicas e transformar a informação que eles passam em informação para o público. Há também a uma tendência, apontada por Victor, ao jornalismo declaratório, produzido quando o repórter não tem compreensão total dos fatores que envolvem sua pauta e acaba sendo manipulado por um discurso hegemônico da ciência (Erbolato, 1981, p. 29). Esse é, aliás, um dos motivos que, por vezes, dificulta o relacionamento entre cientistas e jornalistas. Cientistas acusam jornalistas de serem apressados e superficiais e não compreenderem o tempo da ciência nem os procedimentos que cercam os dados científicos.

Ao estudar o fluxo de informações da ciência para o jornalismo, o pesquisador do Centro de Pesquisa em Desastres da Universidade de Delaware, EUA, Enrico Quarantelli (1993) percebeu que as diferenças entre esses dois mundos distintos tornava a interação entre jornalistas e cientistas difícil. Ciência e mídia têm valores, crenças e normas distintas e a falta de compreensão de um campo em relação ao outro prejudica o fluxo de informação entre eles. Na comparação, a mídia de massa enfatiza o incomum e o diferente e a ciência lança seu olhar para as regularidades, os padrões que se repetem, o anômalo pode até chamar a atenção da ciência, mas apenas como um desvio dos padrões regulares (Quarantelli, 1993, p. 176-177).

Por outro lado, “quando o jornalista tem uma instrução especializada muito extensa, há sempre o perigo de que, supondo que todos os leitores tenham o mesmo grau de conhecimento, venha a fazer reportagens incompreensíveis, exceto para os especialistas” (Erbolato, 1981, p. 46).

Para Marília Scalzo (2003, p. 55), o jornalista especializado “corre o risco de comportar-se exatamente como o especialista que

entrevista, ou seja, perder a curiosidade típica do leitor comum”. O público geral, que não está acostumado à linguagem especializada, deve ser informado de forma que conceitos fiquem claros e expressões sejam explicadas e imbuídas de contexto, sem perder de vista o foco informativo do texto especializado. É possível aprofundar o nível de informação, sem cair no didatismo, mantendo uma linguagem acessível e interessante e possibilitando ampliar os argumentos que impulsionam debates sobre os assuntos ambientais. “Há termos e conceitos que se incorporam ao linguajar comum, inclusive acessíveis a crianças em idade escolar, mas que foram recebidos com desconfiança, temor, indiferença, descrédito, quando as primeiras notícias sobre eles surgiram na imprensa” (Erbolato, 1981, p. 43).

Somando a dificuldade com a linguagem especializada das fontes e a pressão muitas vezes invisível dos lobbies mascarados de marketing verde, a solução apontada por Cilene Victor é um investimento em formação acadêmica e profissional sólidas, que permitem maior independência ao jornalista para interpretar e contextualizar os fatos (Victor, 2009, p. 29).

“A informação bem construída gera reflexão, discussão e amplia o valor cultural de toda uma sociedade, estimulando sua consciência sócio-política” (Girardi; Loose; Neuls, 2009, p. 98). Scalzo (2003, p. 53) defende que “qualquer jornalista, seja qual for o meio em que irá trabalhar, deve preocupar-se em desenvolver uma razoável cultura geral, uma visão de mundo livre de preconceitos e um olhar crítico sobre o próprio ofício”.

Nesse universo, a informação jornalística reverte- se de muita importância, porque é pelos diversos meios de comunicação que se atinge grande parte da população, nos mais distantes rincões do país. Diante dessa realidade, o jornalismo ambiental pode cumprir o papel de, ao transmitir a informação correta, despertar as pessoas para a necessidade de rever suas práticas ambientais cotidianas e mudar, adotando uma atitude pró- ativa em direção a uma vida sustentável (Girardi; Loose; Neuls, 2009, p. 102).

Assim, “o cidadão informado e preparado irá pressionar os gestores públicos para a elaboração de politicas que atendam aos interesses da cidadania” (Girardi; Loose; Neuls, 2009, p. 99). A partir

desse jornalismo cidadão, mais engajado e responsável, a ideia de melhorar a democracia a partir do jornalismo de qualidade é um objetivo a ser atingido por uma sociedade da informação.

1.7 PORQUE O DESASTRE É NOTÍCIA: CRITÉRIOS DE