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Qualidade e segurança dos produtos e serviços

A qualidade e a segurança dos produtos e serviços são conceitos significativamente associados à RSC, conforme ficou evidenciado na pesquisa da Globescan (2005). Os preços baixos ou justos também foram mencionados como requisitos para que as empresas sejam vistas como socialmente responsáveis. Sobre o conceito de qualidade, Campos (1992, p.2) comenta que “o grande objetivo das organizações humanas é atender às necessidades do ser humano na sua luta pela sobrevivência na Terra” e, diante disto, um produto ou serviço de qualidade é aquele que atende perfeitamente às necessidades do cliente, de forma confiável (sem defeitos), de forma acessível (baixo custo), de forma segura e no tempo certo. Segundo ele, o verdadeiro critério da boa qualidade é a preferência do consumidor e isto é que garante a sobrevivência da empresa. Para isso a empresa precisa ser competitiva, ou seja, ter maior produtividade que os concorrentes e, por sua vez, a produtividade decorre do valor agregado pela qualidade.

O movimento pela qualidade dos produtos ganhou força na indústria japonesa a partir de idéias americanas introduzidas no Japão, logo após a Segunda Guerra Mundial. A JUSE (Union of Japanese Scientists and Engineers) aperfeiçoou o controle da qualidade com um sistema denominado de TQC (Total Quality Control), baseado na participação de todos os

setores da empresa e de todos os empregados na condução do controle da qualidade (CAMPOS, 1992). O controle da qualidade evoluiu para o conceito de gestão da qualidade total, a partir de uma visão sistêmica do negócio, envolvendo todas as dimensões que afetam a satisfação das necessidades das pessoas e, por conseguinte, a sobrevivência da empresa: qualidade, custo, atendimento, moral (nível de satisfação dos empregados) e segurança (dos empregados e dos usuários do produto ou serviço). A preocupação central do TQC, também designado de TQM (Total Quality Management), é a obtenção da qualidade dos sistemas como um todo, de modo a possibilitar a colocação no mercado de produtos de qualidade e confiabilidade crescentes, mediante processos de melhoria contínua que incluem a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos mais adequados às necessidades das pessoas, e novos processos que possam garantir melhor qualidade a custos mais baixos.

O controle da qualidade total no estilo japonês foi trazido para o Brasil como parte de um projeto financiado pelo Governo Brasileiro e pelo Banco Mundial, no final da década de 1980, com o objetivo de preparar as empresas brasileiras para enfrentarem a concorrência internacional que viria com a abertura às importações, considerando que “a meta mais imediata de uma empresa é a sua sobrevivência à competição internacional” (CAMPOS, 1992, p.21). Em 1990, o Governo Federal lançou o “Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade” (PBQP) objetivando apoiar a modernização da indústria brasileira e ao aumento de sua competitividade. Na avaliação do Governo, este programa foi bem sucedido em relação a uma parcela do setor industrial que, por exemplo, levou o Brasil a consolidar a liderança na América Latina nas certificações segundo as normas das séries ISO 9000 e ISO 14000 (PBQP, 2006). Também não se pode deixar de destacar a criação da Fundação para o Prêmio Nacional da Qualidade (FPNQ), em 1991, para administrar o Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Em 2005, ela passou a se chamar Fundação Nacional da Qualidade (FNQ) e sua missão é “disseminar os Fundamentos da Excelência em Gestão para o aumento de competitividade das organizações e do Brasil” (FNQ, 2006). Os critérios de excelência do PNQ incluem o fundamento “responsabilidade socioambiental”, o qual avalia como a organização identifica e trata os impactos de seus produtos e atividades nos ecossistemas e na sociedade.

Em 2001, foi criado o Movimento Brasil Competitivo (MBC), reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Assim, a liderança do movimento da qualidade e produtividade no Brasil foi transferida do Governo para o setor privado. O MBC

tem por missão “contribuir expressivamente para a melhoria da competitividade das organizações privadas e da qualidade e produtividade das organizações públicas, de maneira sustentável, elevando a qualidade de vida da população brasileira” (MBC, 2006). Esta nova instituição congrega antigas funções do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP) e do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade (PBQP).

Embora muitas empresas brasileiras efetivamente tivessem se engajado na racionalização dos seus processos produtivos com a adoção dos princípios do TQC e/ou utilizando os instrumentos propiciados pelo PBQP, o estudo do IPEA Brasil: o estado de uma nação 2005 mostra que as empresas brasileiras têm sérios problemas com relação à qualidade da inovação:

A qualidade da inovação praticada pelas empresas brasileiras também está muito aquém do exigido para o desenvolvimento do país. A inovação de qualidade, isto é, aquela que gera maiores condições de competitividade em razão de criar novos produtos ou novos processos de produzir, sob a ótica do mercado, é muito pequena. Das empresas que inovam para o mercado, apenas 4,1% inovam em produto, e menos ainda, 2,8%, inovam em processo (IPEA, 2005, p.63).

Apesar do já comentado crescimento da produtividade nos setores industrial e agropecuário, observado na década de 1990, o trabalho supracitado mostra que a produtividade média do trabalhador brasileiro, de todos os setores da economia – medida pelo PIB dividido pelo número de pessoas empregadas – praticamente estagnou entre 1981 e 2002. O crescimento dessa produtividade, que havia dobrado entre 1960 e 1980, foi interrompido a partir de 1981 chegando em 2002 praticamente no mesmo nível obtido em 1980. Segundo o estudo, o baixo dinamismo na incorporação de conhecimentos e inovações à estrutura produtiva é o principal fator que explica o baixo crescimento da produtividade no Brasil e, por conseqüência, a perda de competitividade do país durante as últimas décadas.

Entretanto, felizmente, existe um núcleo de empresas industriais que foram capazes de inovar em sua linha de produtos e competir com sucesso nos mercados internacionais. Esse núcleo pode constituir uma base importante para a nova estratégia de crescimento, inovação e competitividade da economia brasileira. Por outro lado, o estudo do IPEA (2005) registra que entre 1981 e 2002 houve um crescimento acelerado da produção científica brasileira, principalmente como conseqüência da grande expansão do número de titulados nos cursos de mestrado e doutorado. O estudo, citando Porter, observa que esse potencial é ainda pouco explorado pelo processo de inovação brasileiro mas, sem dúvida, é uma importante condição para o aprendizado tecnológico e a recuperação da competitividade via estratégia de

concorrência por diferenciação de produtos, mais vantajosa que a concorrência por preço. Assim como o país se engajou na luta pela qualidade, certamente é necessário um empenho ainda maior na luta pela inovação, requisito fundamental para a.produtividade e a competitividade das empresas, para o crescimento da renda per capita e a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.