Perquire-se a absolutização da esfera biológica humana.
100Históricas são as interrogações quanto à necessidade de viver toda vida. A maioria dos pensadores que propuseram algum tipo de utopia, de Platão a Thomas More, travaram a questão, considerando que algumas pessoas não teriam direito à vida.
1012. Nos países em que a pena de morte não tenha sido abolida, esta poderá ser imposta apenas nos casos de crimes mais graves, em conformidade com a legislação vigente na época em que o crime foi cometido e que não esteja em conflito com as disposições do presente Pacto, nem com a Convenção sobre a Prevenção e a Punição do Crime de Genocídio. Poder-se-á aplicar essa pena apenas em decorrência de uma sentença transitada em julgado e proferida por tribunal competente.
3. Quando a privação da vida constituir crime de genocídio, entende-se que nenhuma disposição do presente artigo autorizará qualquer Estado Parte do presente Pacto a eximir-se de modo algum, do cumprimento de qualquer das obrigações que tenha assumido em virtude das disposições da Convenção sobre a Prevenção e a Punição do Crime de Genocídio.
4. Qualquer condenado à morte terá o direito de pedir indulto ou comutação de pena. A anistia, o indulto ou a comutação poderão ser concedidas em todos os casos.
5. Uma pena de morte não deverá ser imposta em casos de crimes cometidos por pessoas menores de 18 anos, nem aplicada a mulheres em estado de gravidez.
6. Não se poderá invocar disposição alguma do presente artigo para retardar ou impedir a abolição da pena de morte por um Estado Parte do presente Pacto.” (CHAVES, Antônio. Direito à vida e ao próprio corpo: intersexualidade, transexualidade, transplantes. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994, p. 14-15).
98 “Passo a passo, com a evolução, que levou séculos, chega-se aos dias atuais. Cabe aqui afirmar que, embora o Brasil, através de sua legislação penal, atribua pena ao homicida, isto desde 1830, a garantia do direito à vida, como expressão constitucional, somente veio à baila pela Carta da República de 1988, inserido no caput do artigo 5º.” (SÁ, Maria de Fátima Freire de, op. cit., p. 52).
99 “No caso brasileiro, o direito à vida mereceu figurar no caput do artigo que numera os direitos e deveres individuais. Deve, referida norma, ser entendida em consonância com o artigo 1º da Constituição, que proclama a dignidade da pessoa humana como fundamento da sociedade nacional.
Outras normas constitucionais trazem em seu bojo o respeito ao direito à vida, assim os artigos 227 (proteção à criança e ao adolescente, de forma a estruturar sua personalidade), 230 (amparo à velhice), 196 (direito à saúde), entre outros. Em verdade, a proteção à vida deixa de ser uma norma constitucional para se tornar efetivo princípio constitucional, que eqüivale a verdadeira pressuposição de todo o ordenamento jurídico.”
(CORTIANO JÚNIOR, Eroulths, op. cit., p. 49). Formatação conforme o original.
100 “O ser humano tem outras dimensões que não somente a biológica, de forma que aceitar o critério da qualidade de vida significa estar a serviço não só da vida, mas também da pessoa. O prolongamento da vida somente pode ser justificado se oferecer às pessoas algum benefício, ainda assim, se esse benefício não ferir a dignidade do viver e do morrer.
A liberdade e a dignidade são valores intrínsecos à vida, de modo que essa última não deve ser considerada bem supremo e absoluto, acima dos dois primeiros valores, sob pena de o amor natural pela vida se transformar em idolatria. E a conseqüência do culto idólatra à vida é a luta, a todo custo, contra a morte.” (SÁ, Maria de Fátima Freire de, op. cit., p. 60).
101 “Platão, em seus Diálogos, lembra a respeito a afirmação de Sócrates de que ‘o que vale não é o viver, mas o viver bem’. O princípio da qualidade de vida é usado para defender a eutanásia, por considerar que uma vida sem qualidade não vale a pena ser vivida. O processo de secularização conduziu à dessacralização da vida, delegando o governo da vida à autodeterminação do ser humano, responsabilizando-o pela
Contrariamente, concepções especialmente vinculadas a posturas religiosas, advogam que toda vida humana há de ser vivida.
102Argumento histórico se corporifica na proibição decáloga “não matarás”, arraigado no princípio da sacralidade da vida.
A sacralidade da vida humana denota dimensão que exige a dignidade de cada homem. Por seu turno, a qualidade de vida indica um conjunto de habilidades físicas e psíquicas que facultam ao ser humano viver razoavelmente bem.
103Ronald Dworkin expõe ser a sacralidade da vida algo intrinsecamente valioso
104, com contornos tanto laico como religiosos, de subjetiva valorização
105, cujo manejo legitima extinção vital.
106qualidade da vida, ou seja, pela busca de condições de uma vida mais digna, desfraldando a bandeira de que só vale viver uma vida de qualidade, justificando, assim, a eutanásia.” (DINIZ, Maria Helena, op. cit., p. 324).
102 MOTA, Joaquim Antônio César. Quando um tratamento torna-se fútil? Bioética, Brasília, vol. 7, n. 1, p. 35-40, 1999, p. 37.
103 FRANÇA, Genival Veloso de. Eutanásia: um enfoque ético-político. Bioética, Brasília, vol. 7, n. 1, p.71-82, 1999, p. 74.
104 “(...)descobriremos uma distinção entre duas categorias de coisas intrinsecamente valiosas – quanto mais tivermos, melhor – e as que não são, mas que possuem valor em um sentido muito diverso. Chamarei estas últimas de valores sagrados ou invioláveis.(...)
O que significa dizer que a vida humana é intrinsecamente importante? Uma coisa é instrumentalmente importante se seu valor depender de sua utilidade, de sua capacidade de ajudar as pessoas a conseguir algo mais que desejam. (...)
Uma coisa é subjetivamente valiosa somente para as pessoas que a desejam. (...)
Uma coisa é intrinsecamente valiosa, ao contrário, se seu valor for independente daquele que as pessoas apreciam, desejam ou necessitam, ou do que é bom para elas.(...)
Quanto à vida humana, será ela subjetiva, instrumental ou intrinsecamente valiosa? É valiosa nos três sentidos, acreditamos quase todos.
Tratamos o valor da vida de uma pessoa como instrumental quando a avaliamos em termos do quanto o fato de ela estar viva serve aos interesses dos outros: do quanto aquilo que ela produz torna melhor a vida de outras pessoas, por exemplo. (...) Tratamos a vida de uma pessoa como subjetivamente valiosa quando avaliamos seu valor para ela própria, isto é, em termos de quanto ela quer estar viva, ou de quanto o fato de ela estar viva é bom para ela. (...) Chamaremos de pessoal o valor subjetivo que uma vida tem para a pessoa de cuja vida se trata. (...) O traço distintivo entre o sagrado e o incrementalmente valioso é o fato de o sagrado ser intrinsecamente valioso porque – e, portanto, apenas quando – existe. É inviolável pelo que representa ou incorpora. Não é importante que existam mais pessoas. Mas, uma vez que uma vida humana tenha começado, é muito importante que floresça e não se perca.(...)
Uma coisa é sagrada ou inviolável quando a sua destruição deliberada desonra o que deve ser honrado. O que torna uma coisa sagrada neste sentido? Podemos distinguir dois processos através dos quais algo se torna sagrado para uma determinada cultura ou pessoa. O primeiro se dá por associação ou destinação [animais considerados sagrados no Antigo Egito; o respeito ao país transferido à bandeira] (...)
O segundo processo mediante o qual uma coisa pode tornar-se sagrada é a sua história, o modo como veio a existir.(...)
Para a maioria dos norte-americanos, e para muitas pessoas de outros países, o processo evolutivo é literalmente criativo, pois acreditam que Deus seja o autor da natureza (...) Ainda assim, mesmo as pessoas que não partilham a mesma idéia, mas que aceitam a tese darwiniana de que a evolução das espécies é uma questão de mutação acidental, e não um projeto divino, usam freqüentemente a metáfora da criação artística. Descrevem espécies animais específicas não como meros acidentes, mas como progressos de adaptação, como algo que não foi simplesmente produzido, mas trabalhado pela natureza.(...)
Devo enfatizar, por último, duas outras características de nossas convicções sobre o sagrado e o inviolável. Em primeiro lugar, para a maioria de nós existem graus do sagrado assim como graus do maravilhoso. (...) Em segundo lugar, nossas convicções sobre a inviolabilidade são seletivas. Não tratamos como sagrado tudo o que é produzido pelos seres humanos. (...) Como seria de esperar, nossas seleções são configuradas por nossas necessidades e as refletem, de maneira recíproca, configuram e são configuradas por outras opiniões que temos.” (DWORKIN, Ronald.
Domínio da vida: aborto, eutanásia e liberdades individuais. Tradução: Jefferson Luiz Camargo; revisão de tradução: Silvana Vieira. São Paulo:
Martins Fontes, 2003, p. 97-112).
105 “Ao longo deste livro, uma de minhas principais afirmações tem sido a de que existe tanto uma interpretação secular quanto uma interpretação religiosa da idéia de que a vida humana é sagrada. Os ateus também podem sentir, instintivamente, que o suicídio e a eutanásia são
Na análise do conflito entre sacralidade e qualidade de vida, Genival Veloso de França contrapõe-se a orientações utilitaristas. Lança crítica à diferenciação entre estar vivo e ter vida, entre vida em sentido biológico e biográfico, no fito de individualizar grupo que está vivo, mas não tem vida. Estar vivo, no sentido biológico, não teria importância, e, na ausência da vida consciente, indifere estar vivo ou não. Rechaçado posicionamento só considera imoral privar o indivíduo de seus desejos, crenças e anseios, que constituem o projeto de vida em sua perspectiva biográfica. Em certos casos matar não implicaria a destruição de uma vida. Tal entendimento alcança fases terminais e todos os privados de consciência. Dispensável seria o enfermo ter consciência e solicitar extermínio vital, não restando um valor biológico a se proteger, apenas vida subanormal. Genival Veloso de França ataca tais correntes, julgando-as moralmente inconsistentes por considerar a vida na qualidade do ter e não na do ser. A vida humana preserva idêntico valor em sua dignidade, independente de sua qualidade.
Frágil e insensível é o conceito de qualidade de vida, se somente significa habilidade de alguém realizar certos objetivos.
107Possível a complementaridade da qualidade e sacralidade de vida, como preconiza Leo Pessini.
108Neste sentido, Luís Fernando Niño destaca que qualidade e
problemáticos porque a vida humana tem valor intrínseco. Esses dois fatos – que os grupos religiosos se dividem quanto à eutanásia e que a santidade tem uma dimensão secular – sugerem que a convicção de que a vida humana é sagrada pode acabar fornecendo um argumento crucial em favor da eutanásia, e não contra ela.” (Ibid., p. 276).
106 “É quase consensual a idéia de que a eutanásia ativa – quando o médico mata um paciente que pede para morrer – constitui sempre uma agressão a esse valor [santidade da vida] e que deve ser proibida por esse motivo. Contudo, a questão colocada pela eutanásia não é saber se a santidade da vida deve ceder espaço a algum outro valor, como a humanidade ou a compaixão, mas de que modo a santidade da vida deve ser entendida e respeitada. As grandes questões morais do aborto e da eutanásia, que dizem respeito à vida em seu início e em seu fim, têm uma estrutura semelhante. Cada uma envolve decisões não apenas sobre os direitos e interesses de pessoas em particular, mas sobre a importância intrínseca e cósmica da vida humana em si. Em cada caso, as opiniões se dividem não porque alguns desprezem valores que para os outros são fundamentais, mas, ao contrário, porque os valores em questão encontram-se no centro da vida de todos os seres humanos e porque nenhuma pessoa pode tratá-los como triviais a ponto de aceitar que outros lhe imponham seus pontos de vista sobre o significado desses valores. Levar alguém a morrer de uma maneira que outros aprovam, mas que para ele representa uma terrível contradição de sua própria vida, é uma devastadora e odiosa forma de tirania.”
(Ibid., p. 306-307).
107 FRANÇA, Genival Veloso de, op. cit., p. 74. Comentários em relação a RACHELS, J. La fine della vita, la moralità de eutanásia.
Turim: Sonda, 1986.
108 “A expressão sacralidade da vida significa que a pessoa, independentemente do estado de saúde tem valor e não deve ser utilizada como meio e sim tratada com dignidade.(...)
A expressão qualidade de vida ganha a cada dia que passa mais e mais afirmação. (...) Em geral é interpretada significando que o valor da vida humana é determinado em parte pela habilidade da pessoa realizar certos objetivos na vida. Quando essas habilidades não mais existem, a obrigação de prolongar ou continuar o tratamento não mais existe.(...)
O caráter sagrado da vida humana não se opõe necessariamente à qualidade de vida. Na tradição judáico-cristã, as duas dimensões se interpenetram.(...)
quantidade de vida merecem consagrar a acepção pessoal e racional de cada qual, vivenciando do melhor modo sua vida.
1095 SAÚDE
O direito à saúde deve ser visto sob dois ângulos: o direito que todas as pessoas têm de exigir do Estado que lhes dê condições de higidez para o normal desenvolvimento de sua personalidade e o direito que cada indivíduo tem de expressar sua vontade em relação a intervenção do tratamento médico a que esteja sujeito.
O direito à saúde propriamente dito encontra guarida no direito constitucional, inserindo-se na classe daqueles direitos públicos da personalidade, antes referidos. O dever que o Estado tem de propiciar meios de manutenção de boa saúde a seus súditos encontra-se, mesmo, difuso entre o dever geral de propiciar meios para o desenvolvimento espiritual e material deles.
Assim, o dever de propiciar saúde passa pelo dever de propiciar segurança e educação e vai até o dever de evitar e fazer cumprir as mais comezinhas leis cujo objeto seja, de uma ou outra maneira, a dignidade do indivíduo. Se bem que primordialmente dirigido ao Estado, o direito à saúde tem dupla face: também é dever do indivíduo zelar pela sua saúde, abstendo-se de práticas e atividades que possam importar-lhe dano ou a coloquem em risco. Mas as atividades (do Estado e do indivíduo) não se compensam, devendo, sempre e em qualquer situação, o Estado garantir o direito à saúde de seus cidadãos.
110O direito à saúde
111consagra-se no artigo 6º da Constituição da República e se concretiza, normativamente, entre os artigos 196 a 200. Integra rol de direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.
A qualidade de vida de uma pessoa não é sinônimo de vida plena, fisiológica e emocional. Pessoa merece respeito independentemente do grau em que consegue desempenhar essas funções.” (PESSINI, Leo. Como lidar com o paciente em fase terminal. 5. ed. rev. e atual. São Paulo:
Santuário, 1990, p. 75-77).
109 “Ordinariamente se habla de la vida como bien y como objeto de protección jurídica. Es hora de cuetionarnos, con sumo respeto pero a salvo de todo prejuicio ideológico, si no es esta una alusión formalista a la vida entendida como cantidad de tiempo, como duración de la organicidad del cuerpo humano, con desprecio u olvido de aquello que trasciende al ser biológico, a la animalidad del hombre, y que hace, en un cierto plano, a su racionalidad, y, en outro, de significaión similar o aún más elevada, a su ‘personeidad’ o naturaleza espiritual, apreciables – una y outra – como notas alusivas a la cualidad de una vida.(...)
La calidad y cantidad de vida se conjugan aí en una equación personalísima gobernada por el interés del ser humano situado en el intransferible trance del morir.” (NIÑO, Luís Fernando, op. cit., p. 89-90).
110 CORTIANO JÚNIOR, Eroulths. Direitos da personalidade: direito à vida, ao próprio corpo e ao cadáver. Curitiba, 1993. 150 f.
Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade Federal do Paraná, p. 82.
111 “A saúde requer equidade horizontal, isto é, tratamento igual a todos os pacientes iguais, e vertical, ou seja, tratamento desigual aos desiguais, incluindo os desfavorecidos social, cultural ou economicamente. Deveras, os cuidados com a saúde não podem ser simples variáveis das leis do mercado, pois ela é um bem fundamental, o acesso aos cuidados médicos deve ser universal. Impossível a construção de um Estado Social de Direito sem uma justa distribuição de recursos no campo sanitário.” (DINIZ, Maria Helena. O estado atual do biodireito. 2. ed. aum. e atual. de acordo com o novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 10/1/2002). São Paulo: Saraiva, 2002, p. 152).