1 QUALIDADE E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO
1.3 QUALIDADE SOCIAL VERSUS QUALIDADE TOTAL: INDICADORES
Procurando explicitar de maneira mais clara as duas concepções sobre qualidade da educação, faz-se necessário aprofundar a análise das características de ambas, com o intuito de possibilitar a compreensão sobre os aspectos que cada uma delas prioriza, para que seja realmente efetivada na prática da política educacional. Para tanto, torna-se necessário analisar como os envolvidos no processo de implementação de uma política de qualidade em educação são entendidos e quais suas funções neste processo. Assim serão analisados os seguintes sujeitos responsáveis pela implementação da qualidade em educação: Estado, escola, profissionais da educação, pais e alunos, além de procurar evidenciar qual o papel da educação em cada concepção.
O poder público, na concepção da qualidade total aplicada à educação, deve ser o ente administrativo responsável pela elaboração de propostas e projetos que serão executados pelas unidades administrativas menores, as quais serão monitoradas para assegurar sua eficácia e eficiência. As decisões são tomadas de “cima para baixo”. Na qualidade social, o Estado pauta sua administração na gestão democrática, oportunizando a participação da maioria dos envolvidos no processo educativo, tanto na elaboração e efetivação, quanto na avaliação das propostas para o campo educativo.
Assim, como se viu anteriormente, a qualidade social se contrapõe à qualidade total, pois além de possibilitar a aplicação de uma gestão efetivamente democrática, contribui para que não apenas os alunos a vivenciem e a compreendam como direito social, mas também os pais, professores, funcionários e comunidade podem participar, exercendo efetivamente um direito de cidadania.
Na visão da qualidade total os professores nada mais são do que insumos no aparato produtivo, pois, devem desempenhar tarefas, executar projetos previamente estipulados, principalmente em sala de aula ou que envolvam os alunos diretamente,
sem se responsabilizarem pelas as demais instâncias escolares e administrativas, pois cada um tem compromisso com processos específicos. Nesta perspectiva os professores direcionam suas ações no processo do ensinar com eficiência de forma a tornar a aprendizagem eficaz. Na qualidade social os professores são entendidos como trabalhadores envolvidos no processo educativo como um todo, sendo dessa forma indivíduos que vivem, trabalham e buscam a melhoria da sociedade da qual fazem parte. Devem também ser realmente comprometidos com a transformação social, cidadãos conscientes de seus deveres e de seus direitos e buscar não apenas os resultados quantitativos da aprendizagem, mas também os qualitativos, entendendo o processo educativo na sua totalidade.
Os pais, na perspectiva da qualidade total, representam mais uma dimensão econômica na participação escolar, através da qual sua participação é efetivada no processo de assumir responsabilidades financeiras, seja doando recursos financeiros para a escola, seja trabalhando em festas, eventos, pequenos consertos, etc. Esta participação dos pais mascara a real finalidade de sua presença nos assuntos escolares, pois são induzidos a acreditar que estão participando, mas na realidade estão servindo de instrumento de manutenção da ordem vigente na sociedade, onde a
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comunidade assume o papel dos agentes públicos . A qualidade social em educação pressupõe a participação dos pais numa dimensão democrática, dentro da qual estão presentes em todos os processos que envolvem a escola de seus filhos, podendo inclusive tomar parte nas decisões e buscar, em conjunto com a escola, alternativas viáveis para que a qualidade educativa seja efetivada, sempre numa perspectiva de autonomia democrática.
22 Defende-se aqui que a escola pública deve ter recursos públicos suficientes para seu funcionamento. O poder público deve assegurar que os recursos necessários para a manutenção e funcionamento do ensino sejam garantidos.
Para completar, na perspectiva da qualidade total os alunos são considerados como clientes, como seres únicos que devem ser preparados para atender as necessidades do sistema produtivo. Dessa forma devem cumprir seu tempo obrigatório de escolaridade visando ao desenvolvimento das competências necessárias para produzirem bens que possibilitem sua sobrevivência na organização social já estabelecida. Na qualidade social os alunos são seres sociais e históricos, devendo desenvolver os conhecimentos a partir de sua realidade material. Nesta perspectiva, os alunos têm possibilidade de avançar cada vez mais na compreensão da realidade, podendo inclusive, pensar na superação da ordem social vigente. O conhecimento escolar é organizado e pensado no intuito de atender às necessidades da coletividade e não do sistema produtivo.
O entendimento sobre os sujeitos envolvidos na implementação da qualidade da educação está sintetizado no quadro a seguir:
OS SUJEITOS DO PROCESSO DE IMPLEMENTAÇÃO DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO23
SUJEITOS QUALIDADE TOTAL QUALIDADE SOCIAL Poder
Público
Elaborador de propostas e projetos a serem executados
Articulador da gestão democrática. Mantenedor da escola
Escola Empresa e gerenciada como tal
Representa a síntese das diversas
influências (sociais, históricas, econômicas e políticas)
Professor Insumo no sistema produtivo Trabalhador envolvido no processo educativo.
Pais Colaboradores financeiros (dimensão econômica)
Participantes nas decisões do processo educacional (dimensão democrática) Aluno Clientes únicos Seres sociais e históricos
Se na perspectiva da qualidade total, a educação é tida, como se viu, como mercadoria e seus problemas se restringem à esfera gerencial, na perspectiva da qualidade social, a problemática educacional é entendida em sua dimensão social e como tal está vinculada à questões bem mais amplas. A compreensão da educação, nesta perspectiva, necessita de um entendimento maior sobre os condicionantes econômicos, sociais e políticos aos quais a educação está estreitamente ligada.
Para melhor evidenciar esta questão faz-se necessário explicitar o entendimento das duas concepções sobre aspectos específicos e explicativos do processo educacional. As questões necessárias a este entendimento estão expostas no quadro a seguir:
O PROCESSO EDUCACIONAL24 ASPECTOS
ESPECÍFICOS
QUALIDADE TOTAL QUALIDADE SOCIAL Preocupação - Resultados obtidos que se
concretizam em dados numéricos; - eficiência e eficácia = produtividade e quantidade - emancipação intelectual e produtiva; - qualidade = desenvolvimento intelectual da maioria Trabalho dos Profissionais
- maximizado, alienado Vinculado às condições reais de existência
Fins educativos Vinculação ao sistema produtivo
Vinculação aos fatores sociais e econômicos
Objetivos Manter a hegemonia capitalista, através da permanência do status quo
Superar a hegemonia, criando-se uma contra hegemonia
23 Quadro elaborado pela autora desta dissertação. 24 Quadro elaborado pela autora desta dissertação.
Fica evidenciado que qualidade total na educação tem um aparato ideológico que condiciona os envolvidos com a implementação de uma educação de qualidade a acreditarem que o processo educativo deve atender aos interesses do sistema produtivo, mas não considera os indivíduos como seres históricos e põe ênfase no individualismo.
A qualidade social indica novos caminhos para a organização da educação, procurando possibilitar o exercício de uma verdadeira democracia, onde o princípio de isonomia seja sinônimo de igualdade entre os seres humanos.
2 A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO NO BRASIL DOS ANOS 90
Podemos dizer que uma verdadeira contra-revolução, em nível mundial, ocorreu nas esferas ideológica, política e social no início dos anos 90, pois os governantes, procurando se livrar da crise econômica dos anos 80, foram paulatinamente absorvendo um novo ideário econômico que prega uma aceleração na produtividade do trabalho através de uma alta mobilidade de capital via intercâmbio internacional, visando à realização de investimentos de curto prazo e alto risco. (TORRES, 1995)
Portanto, uma nova ordem mundial se expandiu, o poder se mundializou, ditando normas para os mercados regionais onde as decisões se espalharam rapidamente procurando redimensionar os rumos das nações para um novo modelo, denominado neoliberal.
Este novo modelo se desenvolveu a partir dos governos neo- conservadores, os quais propuseram em linhas gerais, uma diminuição da influência estatal na economia, caracterizando seu intervencionismo como parte de um problema que precisa ser reduzido para regularização do mercado. Nesta perspectiva, o melhor Estado, é o Estado mínimo, pois o intervencionismo estatal é antieconômico e antiprodutivo, desestimulando o capital a investir e os trabalhadores a trabalhar. Assim, o Estado torna-se, contraditoriamente, máximo em defesa do capital.
A interpretação neoliberal da intervenção estatal a classifica como ineficaz e ineficiente, pois imobiliza o crescimento do capital através de seu monopólio além de não conseguir eliminar a pobreza e tornar os pobres dependentes do
paternalismo estatal. O intervencionismo estatal, portanto, “é uma violação à liberdade econômica, moral e política, que só o capitalismo liberal pode garantir” (LAURELL,
1995, p. 162).
Em linhas gerais, a interpretação neoliberal prega: a reconstituição do mercado, da competição e do individualismo, através da eliminação da intervenção do Estado na economia; mas, a intervenção estatal se dá no campo social apenas garantindo o mínimo para aliviar a pobreza, através de benefícios que não gerem “direitos”’, além de opor-se radicalmente à universalidade, igualdade e gratuidade dos serviços sociais. (LAURELL, 1995)
Sendo uma ideologia social e política, o neoliberalismo se solidifica em nações desenvolvidas e se reflete em países de cultura política conservadora como é o caso brasileiro. Todavia é preciso ter cautela quanto à interpretação da implantação do Projeto neoliberal, pois é preciso considerar que a realidade brasileira difere da dos países capitalistas avançados. Embora estes possibilitem um processo de empobrecimento e uma polarização da sociedade entre ricos e pobres, no Brasil isto se dá de forma muito mais acentuada.
Pode-se considerar que o “mergulho”’ brasileiro no discurso neoliberal deu-se com a posse de Fernando Collor de Mello na Presidência da República, pois com as mudanças implantadas por seu governo, o país teve sua reinserção na economia mundial, com amargas conseqüências aos brasileiros. “Rapidamente desfez-se a aura populista e moralizante que havia caracterizado sua campanha, desmascarada pelo estilo modernizador e intervencionista que marcaria sua gestão até seu impedimento pelo Congresso Nacional, em 1992.”’ (SHIROMA et al, 2000, p. 54)
De fato, com Collor deflagrou-se o processo de ajuste da economia brasileira às exigências da reestruturação global da economia. Abriu-se, prematuramente o mercado doméstico aos produtos internacionais, em um momento em que a indústria nacional, em meados dos anos 1980, mal iniciara seu processo de reestruturação produtiva. Enquanto os consultores internacionais popularizavam
conceitos como o lean-production, qualidade total, produção sem estoque, sistema just-in-time, entre outros, pesquisadores brasileiros alertavam para a existência de poucas ilhas de excelência no país, reafirmando, para enleio dos gurus das fábricas do futuro, que o fordismo estava vivo e forte no Brasil. Estudos revelavam que o progresso tecnológico e suas benesses não chegariam facilmente até nós. Percebia-se que não se tratava de uma questão de tempo, mas da posição que cabia ao país na excludente divisão internacional do trabalho. (SHIROMA et al, 2000, p. 55)
Neste novo paradigma produtivo, a educação é vista como um dos principais determinantes da competitividade entre os países, pois para conseguir sobreviver à concorrência do mercado, para ser cidadão do século XXI, seria preciso dominar os códigos da modernidade. Atribuiu-se, então, à educação o condão de sustentação da competitividade nos anos de 1990 (SHIROMA et al, 2000, p. 56).
A partir de então
Vasta documentação internacional, emanada de importantes organismos multilaterais, propalou esse ideário mediante diagnósticos, análises e propostas de soluções considerados cabíveis a todos os países da América Latina e Caribe, tanto no que toca à educação quanto à economia. Essa documentação exerceu importante papel na definição das políticas públicas para a educação no país. (SHIROMA et al, 2000, p. 56)
A partir destes documentos, o país passa por uma reestruturação educacional, iniciando a implementação do ideário no governo de Itamar Franco. Mas, é com FHC que este se torna concreto, pois está presente nas reformas ocorridas no campo educacional.
Ainda hoje, apesar de governado por um presidente vindo das camadas populares, pode-se observar que o ideário neoliberal não está apenas presente na determinação das políticas, mas também assume formas ainda não estudadas, pois se molda aos discursos ditos comprometidos com o ideário da população mais carente da sociedade brasileira.
Neste sentido, faz-se necessário analisar, mesmo que rapidamente, o contido em alguns documentos que influenciam as políticas para o setor educacional
desde os anos 90 até o início do novo século, com o intuito de identificar o ingresso, no Brasil, da concepção de qualidade total na educação.
2.1 PRINCIPAIS INFLUÊNCIAS NA POLÍTICA EDUCACIONAL E NA