CAPÍTULO 2. INTERVENÇÕES PSICOEDUCATIVAS PARA PACIENTES
2.2 A qualidade de vida como desfecho do cuidado de mulheres com câncer
Embora haja uma ampla discussão sobre a noção de Qualidade de Vida (QV) e um aumento do número de estudos científicos ao longo dos últimos 20 anos, constata-se uma ausência de consenso e grande diversidade em relação a essa variável. Apesar da dificuldade de sua delimitação conceitual, a subjetividade e a multidimensionalidade são aspectos característicos da QV. Parte da complexidade associada relaciona-se à possibilidade de ser avaliada pelo próprio sujeito ou por outra pessoa, ainda que influenciada pela visão do observador (Costa Neto & Araujo, 2008; Kunzler, 2011; Matos, 2006).
Na área da saúde, particularmente na Oncologia, tal avaliação é um desafio. Isso porque a multidimensionalidade indica que QV não deve se limitar à dimensão biológica- corporal ou de bens materiais, visto que abrange a atribuição de sentidos, as relações interpessoais, as crenças religiosas, a ocupação, a sexualidade e os hábitos de vida na comunidade. Além disso, QV é caracterizada pelo dinamismo, pois os valores subjetivos
são modificáveis com o tempo e conforme o contexto (Costa Neto & Araujo, 2008; Matos, 2006).
De acordo com Fleck et al. (2008), a definição elaborada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é a que melhor representa esse aspecto multidimensional da QV. Por essa razão, esse conceito foi adotado no presente estudo. Para a OMS, qualidade de vida representa “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores no qual ele vive e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e interesses” (p. 25).
A definição apresentada pela OMS representa uma importante contribuição para a compreensão da subjetividade inerente ao termo e da influência do ambiente em aspectos individuais da vida da pessoa. Contudo, não abrange condições adversas de desenvolvimento ou do processo saúde-doença. Nesse sentido, o termo Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (QVRS) passou a ser amplamente empregado com o intuito de avaliar o impacto subjetivo e funcional da doença e dos tratamentos na vida dos pacientes, como também observar as modificações ocorridas após uma intervenção. Esse conceito inclui a definição elaborada pela OMS, o estado de saúde pessoal e o bem-estar social na avaliação da saúde (Matos, 2006).
A avaliação da QV é relevante tendo em vista que possibilita uma avaliação de custos e benefícios de programas de saúde, ao se considerar as políticas públicas para a população; permite uma discussão das intervenções em termos das reais vantagens para os usuários do sistema de saúde; e finalmente, favorece uma análise da efetividade do tratamento proposto e da satisfação do paciente com o mesmo (Kunzler, 2011; Matos, 2006).
A literatura tem documentado que mulheres com câncer ginecológico estão em condição de risco para apresentar prejuízos na QV. Mantese (2008) destaca que há pouco conhecimento sobre esse assunto, o que revela a necessidade de investigação e do desenvolvimento de intervenções que busquem incrementá-la. Fatores que alteram a QV de mulheres com câncer ginecológico abarcam o prejuízo funcional decorrente dos tratamentos, como o da cirurgia pélvica (que envolve a remoção de partes da anatomia genital feminina) e o da radiação (que danifica a mucosa e epitélio vaginal); os efeitos colaterais da quimioterapia; as alterações hormonais, no peso, na pele e nos cabelos; a disfunção sexual; os problemas psicossociais, como crenças distorcidas sobre a origem do câncer, mudanças na autoimagem, baixa autoestima, tensões, medos e preocupações (Fernandes & Kimura, 2010; Mantese, 2008).
Fernandes e Kimura (2010) consideram a avaliação da QV de pacientes com câncer ginecológico de suma importância, visto que possibilita a identificação de aspectos de bem-estar físico, psicológico e social, como também permite a apreciação dos resultados das intervenções, complementando métodos tradicionais baseados na morbidade e mortalidade. Herzog e Wright (2007) enfatizam que as opções de tratamento a que são submetidas podem gerar impactos negativos na QV pela intensificação de reações emocionais como ansiedade, raiva e alterações no humor. Nesse contexto, as pacientes devem ser encorajadas a relatar seu sofrimento psicológico com o intuito de favorecer o incremento da QV pela avaliação tanto da satisfação e funcionamento sexual quanto do bem estar físico e emocional.
Diante disso, Mantese (2008) aponta que geralmente não é conduzida uma avaliação global da QV para investigar como era a vida das mulheres e como mudou durante o tratamento oncológico, o que inviabiliza uma análise comparativa. Esse procedimento é concebido como fundamental para o estabelecimento de estratégias de acompanhamento das pacientes.
Em pesquisa efetuada com 107 pacientes em radioterapia externa para câncer ginecológico, Vaz e Pinto-Neto (2006) avaliaram a QV antes, durante e após o tratamento e identificaram os seus principais preditores pelo emprego do WHOQOL-BREF. A análise dos dados demonstrou que houve um aumento significativo dos escores de QV nos domínios físico, psicológico e no geral ao longo do tratamento, como também uma melhoria ao término dessa modalidade terapêutica.
Em relação à QV de pacientes em braquiterapia, Fieler (1997) examinou as mudanças na QV de 18 pacientes diagnosticadas com câncer ginecológico que estavam recebendo BATD. Os dados obtidos evidenciaram poucas alterações dessa variável ao longo do tempo. As queixas relacionadas aos efeitos colaterais do tratamento, notadamente, fadiga, diarreia e ardência ao urinar, consistiram em fatores que comprometeram diretamente a percepção de QV. Desse modo, intervenções que visem o fornecimento de informações sobre as reações adversas podem ser desenvolvidas para melhor planejamento do tratamento e discussão dos impactos desses fatores na QV.
2.3 Intervenções psicoeducativas para pacientes com câncer ginecológico