1 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, QUALIDADE DE VIDA
1.7 Qualidade de Vida Urbana
Em várias correntes de pensamento científico, a cidade tem sido pensada e descrita como um ambiente morto, muitas vezes considerada como espaços não naturais, estranhos, e mesmo opostos e inimigos da natureza. Em sua forma mais extrema, essa idéia é vista na perspectiva mais radical dos ecologistas da chamada “deep ecology” (ecologia profunda). Em seus discursos, esse grupo defende para as cidades o não crescimento, a descentralização e a redução de escala (DEVALL, 1985, citado por TORRES, 2001), apontando a alta densidade demográfica como um dos elementos causadores de intensa degradação ambiental.
Paradoxalmente, um pensamento fortemente antropocêntrico também pode perceber a cidade como um lugar onde a natureza previamente existente foi transformada ou eliminada, dando espaço a um contexto exclusivamente humano (TORRES, 2001), de onde se pode perceber que também essa visão compreende a cidade como um espaço onde a natureza está morta.
Embora observando o problema de perspectivas diferentes, os autores que defendem ambas as correntes estão chamando a atenção para o fato de que os ambientes urbanos têm sido pensados – em diferentes tradições políticas e científicas – como espaços mortos, onde não existiriam outras formas de vida que não as definidas segundo os desígnios humanos. Por outro lado, a existência em cidades de montanhas, lençóis subterrâneos, florestas, cinturões verdes, lagos, pássaros, praias etc. estaria a sugerir a necessidade de um olhar que percebesse, por um lado, o conjunto de elementos naturais que inevitavelmente estão presentes em qualquer cidade, independentemente de quão artificial esta cidade possa parecer. Neste sentido, seria necessário destacar a possibilidade de constituição de certas ecologias especificamente intra-urbanas, onde outras formas de vida – não humanas e não necessariamente planejadas e desejadas pelo homem – coexistiriam com as diversas atividades antrópicas.
No entendimento de Torres (2001), independentemente de sua origem, esta clivagem entre natureza e cidade parece afetar, ainda hoje, a prática das principais organizações ambientais, tanto nacionais quanto internacionais, que são relativamente pouco ativas no que diz respeito às questões ambientais mais tipicamente urbanas.
A despeito disto, parcelas cada vez mais crescentes da população mundial vêm se concentrando em cidades e megacidades. A intensidade do processo global de urbanização fez com que, ainda no início da década de 90, a maioria absoluta das populações humanas esteja vivendo em áreas urbanas (BANCO MUNDIAL, 1992). No Brasil, este fenômeno vem
acarretando uma extrema concentração nas áreas metropolitanas, além do surgimento e crescimento de várias cidades em todo o seu território.
Essa constatação chama a atenção de que, como ponto de partida para a compreensão da questão ambiental urbana, a cidade deva ser vista como imersa num ambiente natural mais geral, da qual ela é parte e que lhe dá concretude e forma, levando à redefinição, em grande medida, da noção sobre planejamento urbano e sobre cidades em vários aspectos. Desta forma, assumir esta proposição implica não apenas trazer a cidade para o contexto do debate ambiental, mas também reconstruir a própria concepção do que é cidade.
Inserida na discussão sobre a cidade pode estar a discussão sobre a qualidade de vida das pessoas que nela habitam e também sobre o ambiente no qual elas habitam. Assim, a qualidade de vida vem sendo discutida sob vários enfoques: ambiental, econômico, sócio-cultural, educacional, dentre outros, tendo todos eles uma considerável participação em seu conceito.
Desta forma, a expressão qualidade de vida vem sendo utilizada com muita freqüência, tanto na linguagem comum, quanto nos discursos de autoridades acadêmicas ou políticas.
Também se faz presente no discurso teórico, e nas políticas de planejamento e gestão do território, particularmente das cidades. Sob este prisma, o conceito de qualidade de vida, então, é um conceito abrangente e no qual se interligam diversas abordagens e problemáticas.
Historicamente, conforme Santos e Martins (2002), o conceito de qualidade de vida surge nos anos 60. Prevalecia, então, uma corrente essencialmente economicista que analisava o crescimento econômico das sociedades através da evolução do seu Produto Interno Bruto (PIB). Esta medida, correspondendo ao montante de bens e serviços gerados e, sendo assim, um indicador de riqueza produzida e distribuída, traduzia de forma global o crescimento verificado, mas não contemplava diversos aspectos fundamentais que permitissem analisar o desenvolvimento de uma sociedade.
Para Buarque (1993), o modelo econômico, que se traduz através do considerável e constante aumento do PIB, entretanto, foi incapaz de gerar mais e melhor qualidade de vida;
ao contrário disto, além de não conseguir erradicar a ignorância, a violência e a pobreza, por seu intermédio, agravou-se a situação social e ambiental e consolidaram-se, especialmente nas grandes cidades, enormes disparidades sócio-espaciais em todos os aspectos. Neste contexto, além dessas disparidades, a deterioração ambiental crescente assume importância central, levando à consciência dos limites do crescimento, devido à finitude dos recursos naturais, abalando a utopia materialista do consumo de forma irreversível.
Nahas (2000) acredita que a incorporação do conceito de qualidade ambiental trouxe uma série de outras implicações à concepção e ao dimensionamento da qualidade de vida, uma vez que aquela, vinculada à noção de desenvolvimento sustentável, acabou por expandir suas fronteiras conceituais.
Assim, partindo-se da compreensão de que a sustentabilidade do desenvolvimento humano passa necessariamente pela problemática ambiental, e que esta é determinada pelas interações entre os processos sócio-econômicos e o meio ambiente, produziram-se subsídios teóricos e metodológicos para a formulação de indicadores ambientais, destinados à mensuração de variáveis ecológicas ou de monitoramento ambiental, mas também a variáveis sociais, demográficas e econômicas, relacionadas à questão ambiental (MUELLER, 1991, citado por NAHAS, 2000).
Tais iniciativas, por sua vez, produziram questionamentos do uso exclusivo de medidas objetivas para a mensuração da qualidade ambiental, levando à formulação de metodologias para avaliar a percepção da população acerca da qualidade do seu meio ambiente, tal e qual ocorreu com os indicadores sociais (NAHAS, 2000).
No campo conceitual, a mescla entre os dois conceitos (qualidade de vida e qualidade ambiental) é de tal ordem, que muitas vezes torna-se difícil estabelecer se a qualidade de vida é um dos aspectos da qualidade ambiental, ou se a qualidade ambiental é um componente do conceito de qualidade de vida. Na prática, a abrangência de cada um dos conceitos se explicita, ao serem estabelecidos e aplicados, métodos para a sua mensuração, que acabam, assim, contribuindo para a formação do próprio conceito.
Por esta via se desenha o conceito de qualidade de vida urbana: entre o de qualidade de vida e o de qualidade ambiental e através das experiências desenvolvidas para a mensuração de um ou de outro. Desta forma, em se tratando da mensuração da qualidade ambiental enquanto conceituação ampla, a qualidade de vida urbana torna-se elemento desta qualidade ambiental. Entretanto, quando se trata da formulação de indicadores para instrumentalizar o planejamento urbano – particularmente no nível municipal – a qualidade ambiental, no sentido estrito, torna-se um dos elementos no dimensionamento da qualidade de vida urbana (NAHAS, 2000).
Díaz (1995), associando o termo qualidade de vida aos conceitos de bem-estar, condições de vida e de moradia, satisfação e estilo de vida dos cidadãos, destaca que é no núcleo urbano que a maior parte das necessidades humanas é satisfeita.
Neste sentido, “qualidade de vida urbana” é termo que abrange o conceito de qualidade de vida e o de qualidade ambiental e, além disto, é conceito espacialmente
localizado, reportando-se ao meio urbano, às cidades, estando, além disto, fortemente ligado à noção de desenvolvimento e sustentabilidade.
A relação entre meio ambiente urbano e qualidade de vida é pensada levando-se em conta aspectos estreitamente relacionados a uma abordagem intersetorial da questão (JACOBI, 2000). Ao se analisar as relações entre meio ambiente urbano e qualidade de vida, tem-se como pressuposto estabelecer as mediações entre as práticas do cotidiano vinculadas ao bairro e ao domicílio, o acesso a serviços, as condições de habitabilidade da moradia e as formas de interação e participação da população (MCGRANAHA, 1993, citado por JACOBI, 2000).
Para Young e Lustosa (2003), a questão ambiental surge como uma quarta dimensão de problemas, com interfaces com todas as demais (econômica, social e cultural), onde a exclusão social se manifesta de modo concreto a partir de condições precárias de habitação, saúde e de outros indicadores não monetários de qualidade de vida. A habitação, então, é vista como um dos mais importantes elementos da qualidade de vida urbana.
Na concepção de Frank (2000), a qualidade de vida é o conceito central da problemática ambiental e do desenvolvimento sustentável, pois representa muito mais que um nível de vida privado, exigindo, entre outros aspectos, a disponibilidade total de infra-estrutura social e pública para atuar em benefício do bem comum e para manter o ambiente sem deterioração e contaminação.
Neste sentido, resolver os problemas da cidade supõe melhorar a habitabilidade e, com ela, a qualidade de vida e a qualidade ambiental. A qualidade de vida dos cidadãos depende de fatores sociais e econômicos, como também das condições ambientais e físico-espaciais.
Diante disto, conforme Naredo e Ruedo (1999), apud Rego Neto (2003),
“(...) o traçado das cidades e sua estética, as regras de uso da terra, a densidade populacional e de edificações, a existência de equipamentos básicos, o acesso fácil aos serviços públicos e às atividades próprias dos sistemas urbanos têm importância capital para a habitabilidade e a sustentabilidade dos assentamentos humanos”.
(NAREDO e RUEDO, 1999, apud REGO NETO, 2003, p.80)
Na concepção de Sposati (2000), qualidade de vida é a possibilidade de melhor redistribuição – e usufruto – da riqueza social e tecnológica aos cidadãos de uma comunidade;
a garantia de desenvolvimento ecológico e participativo, de respeito ao homem e à natureza, com o menor grau de degradação e precariedade.