CAPÍTULO 3 – NOS INTERSTÍCIOS DA LETRA
3.1. Índices de Oralidade
3.1.1. Qualidades lexicais
A presença de vocabulários e glossários em livros de literatura infantil pode assumir variadas funções, segundo a singularidade de cada obra literária. No caso da produção literária de Olívio Jekupé, esse recurso ganha relevo ainda se tivermos em vista o contraste linguístico entre a língua portuguesa e a língua Guarani Mbyá. Desse modo, a presença de um léxico Guarani visa produzir no leitor o estranhamento frente a uma língua indígena e ao mesmo tempo uma aproximação. Essa relação dúbia fica evidente com a presença de termos que dizem respeito à alimentação, ao vestuário, à religião, razão pela qual se cria um aspecto de tradução.
A incorporação da matriz da oralidade na escritura literária infantil segue por vários caminhos. O primeiro deles é aquele que se faz ao nível lexical de uso de termos ou de expressões coloquiais em registros clássicos de oralidade – diálogo direto/indireto –, muito embora a sintaxe permaneça vinculada à hierarquização e à linearidade do código escrito (M.Palo e M.Oliveira, 1984:45-46).
Muito embora o próprio autor Olívio Jekupé tenha a finalidade de apresentar a língua Guarani a seus leitores, é preciso caracterizar a sua realização. O recurso
ao léxico dessa língua indígena obedece à escrita na língua portuguesa. Com isso, o efeito é o de apresentar a língua Guarani segundo a estrutura da língua hegemônica, com a qual escreve seus livros. Disso podemos concluir que essa língua funciona como um filtro ou uma das formas de mediação para a produção literária indígena desse autor.
A título de ilustração, apresentamos a seguir alguns trechos que são exemplares quanto ao uso dos vocábulos Guarani Mbyá:
“Um ava'i (menino) de uns 12 anos pediu ao índio para contar a história do xapirê xii, o urubu-rei ou urubu-branco, como dizem os jurua kuery” (M.Kerexu e O.Jekupé, 2013:10).
“Alegre e contente, o kamba'i cortou um pedaço do fumo e colocou no seu petynguá e, com o uso do seu poder, acendeu-o em questão de segundos. E ali ficou pitando até o fumo acabar. Em seguida, pegou a garrafa e começou a beber a kaguijy” (O.Jekupé, b2003:23).
“Karai, o pai do kunumi, pitava em seu petygua enquanto pensava na situação” (O.Jekupé, 2006:7).
Sigamos, então, com uma descrição dos glossários presentes ao final de algumas das produções literárias de Olívio Jekupé.
Figura 9 Glossário de Ajuda do Saci (2006), Editora DCL, O.Jekupé.
Como pode ser visto na Figura 9, os termos elencados dizem respeito a alguns grupos ou seções de vocabulário para o leitor juruá, os quais indicamos junto a alguns exemplos: alimentos (avaxi, jety, xanjau); animais (evo'i, mboi, pirá,
xivi); instrumentos/utensílios (kanuã, pindá, ajaka'i) e práticas rituais (petynguá);
topografia (yvy, yyakã); distinções antropológicas (ava'i, kunhã, kyringué). A nossa pretensão não é realizar aqui uma tipologia rigorosa desses termos segundo a cosmologia Guarani, mas compará-los, do ponto de vista do leitor juruá, com os demais vocabulários a seguir, visando uma análise desse elemento das narrativas literárias abordados por esta pesquisa.
Figura 10 Vocabulário em Iarandu (2002), Editora Peirópolis, O.Jekupé.
O vocabulário acima (Figura 10), de Iarandu, não é muito diferente. Por contraste, podemos dizer que há o acréscimo de verbos em Guarani (jape e oké). Esse elemento diz respeito, provavelmente, à crescente preocupação em aproximar o leitor juruá a elementos da vida cotidiana, como a conversação.
Figura 11 Vocabulário em Arandu Ymanguaré (2003), Editora Evoluir, O.Jekupé.
Algo muito semelhante ocorre com o vocabulário de Arandu Ymanguaré, com uma diferença que deve ser mencionada. Além de uma distinção ao nível do título, “Pequeno Dicionário TupyGuarani-Português”, ocorreu a introdução de duas expressões de conversação. São elas eiko porã (“como vai?”) e nuande kaaruju (“boa tarde”). Essa ocorrência aproxima-nos de nossa hipótese sobre a função do vocabulário, do glossário e do “pequeno dicionário” ao final das obras. Tudo indica que seu uso tem a finalidade de aproximar o leitor juruá do modo de vida Guarani, o que condiz com a apresentação de elementos de conversação dessa língua indígena.
Deve-se indicar ainda que as obras Ajuda do saci e A mulher que virou
urutau são acompanhadas de traduções das histórias ao Guarani Mbyá. Ainda que
a análise dessas traduções fuja ao escopo da pesquisa realizada por nós, é importante problematizar um de seus aspectos, aquele associado à sua recepção. Apesar de o autor declarar ser do seu interesse a formação da literatura nativa no Brasil, sabe-se que seus materiais são quase exclusivamente recebidos pelos juruá kuery. Isso nos faz interrogar sobre a função que as traduções ao Guarani Mbya ocupam nessas obras literárias.Se estas não são lidas pelos índios Guarani, as versões justificam-se ao menos por seu testemunho gráfico ou imagético de que essas histórias são, sobretudo, oriundas de uma outra língua. Ao leitor juruá, essa ocorrência parece ser uma estratégia de afirmação do pertencimento étnico-cultural da literatura nativa. O leitor juruá pode, ainda, imaginar como seria a vocalização dessas palavras para uma audiência, o que alimenta o horizonte de expectativas sobre uma literatura indígena que versa também sobre a performance narrativa.
Proseando com o leitor
É comum as pessoas pensarem que apenas os velhos e as velhas, como nossos grandes sábios, têm histórias para nos contar, mas a que vamos contar é de uma criança muito inteligente, que tinha grande talento para ouvir e criar as suas...
Acredito que todos entenderão o que digo, pois na sala de aula os professores observam os alunos e no meio deles sempre há alguns que nascem com talento para ouvir bem as histórias e ficam com a cabecinha cheia de idéias, e podem tornar-se até professores.
Para nós da aldeia, um contador é como se fosse um livro que não temos e por meio dele ficamos sabendo de muitas coisas.
Você por acaso já ouviu um contador de histórias? Se nunca ouviu, procure alguém que saiba contar histórias e perceberá o quanto é gostoso ouvir uma história bem contada. Experimente fazer isso.
O trecho acima revela duas questões, que explicitamos a seguir. A primeira delas é a relação entre “os mais velhos” narradores e uma criança que, além de operar narrativas tradicionais, cria as suas próprias. A segunda questão diz respeito ao paralelo entre o livro e o narrador.
Na esteira das considerações sobre os glossários citados anteriormente, pensamos que Verá: o contador de histórias (b2003) introduz o elemento da oralidade e da performance narrativa. Disto nos ocupamos adiante.