CAPÍTULO 2 DEGRADAÇÃO E DURABILIDADE DE MATERIAIS DE
2.1 Qualificação e durabilidade das telhas cerâmicas e das coberturas
A qualificação das telhas cerâmicas faz-se em Portugal com base nos requisitos especificados na Norma Europeia aplicável a este tipo de produtos. A versão portuguesa da norma é designada por “NP EN 1304 - Telhas cerâmicas e acessórios. Definições e especificações dos produtos” [6]. A última versão disponível é datada de Julho de 2007, baseada na EN 1304 de Abril de 2005.
No objectivo e campo de aplicação da norma é dito que é aplicável a todas as telhas e acessórios cerâmicos e que estando estes produtos em conformidade com o estabelecido na norma são adequados para revestimento de coberturas inclinadas, de fachadas verticais e de paredes.
Também é dito que a norma define os requisitos mínimos para que um produto, quando satisfatório na data do fornecimento, garanta a capacidade de cumprir a sua função segundo os níveis de desempenho para ele declarados, enquanto sujeito às variações que ocorrem nestes materiais no decurso de condições normais de utilização.
A NP EN 1304 é a versão portuguesa de uma norma europeia harmonizada, tendo sido portanto preparada pelo Comité Europeu de Normalização (CEN), sob mandato da Comissão Europeia, com vista ao cumprimento das exigências essenciais da Directiva dos Produtos da Construção (DPC) [7]. A parte harmonizada da norma é constituída pelo anexo informativo ZA, onde estão estabelecidas as condições para a marcação CE das telhas e acessórios cerâmicos.
A marcação CE das telhas e acessórios é obrigatória e destina-se a permitir a livre circulação dos produtos no Espaço Económico Europeu [8], distinguindo-se assim das marcas voluntárias, cujo principal objectivo é a valorização e diferenciação dos produtos no mercado.
Os Estados-membros deverão presumir aptos ao uso os produtos de construção colocados no mercado com a marcação CE, pois quando aplicados nas obras, caso estas sejam convenientemente concebidas e realizadas, esses produtos irão permitir que as obras satisfaçam as exigências essenciais estabelecidas na Directiva [8].
O anexo ZA da NP EN 1304 identifica as características essenciais, das telhas e acessórios cerâmicos, que são relevantes para a satisfação das exigências essenciais das obras, estabelecidas na DPC. Também identifica os requisitos relativos a essas características e as cláusulas da norma onde eles são tratados.
Actualmente a durabilidade das telhas cerâmicas é considerada na norma europeia EN 1304:2007 relativamente à resistência ao gelo e é avaliada pelas alterações de aspecto e perda de massa das telhas após serem submetidas a ciclos de gelo-degelo.
A durabilidade das construções é definida como a aptidão dessas construções para satisfazer, ao longo do tempo, as exigências de desempenho estabelecidas, sob as acções previstas [9].
No âmbito da aplicação da Directiva dos Produtos da Construção o conceito de durabilidade é abordado no Documento-Guia F (Durability and the construction products directive) [10]. Este documento tem em conta a Directiva, os documentos interpretativos da Directiva e os mandatos da Comissão, no âmbito dos quais são elaboradas as normas europeias. O guia pretende dar informação útil para a elaboração de especificações técnicas harmonizadas, tais como Normas Europeias harmonizadas ou Aprovações Técnicas Europeias.
No documento-guia a durabilidade de um produto é definida como a aptidão de um produto manter, sob as acções previstas, o seu desempenho ao longo do tempo ou por tempo determinado. O produto, sujeito a manutenção normal, e integrado em obras convenientemente concebidas e realizadas, deve permitir que essas obras satisfaçam as exigências essenciais estabelecidas na DPC durante um período de tempo economicamente razoável (tempo de vida útil do produto).
Capítulo 2 - Degradação e durabilidade de materiais de construção porosos
9 Tal como na norma europeia, também na norma norte americana ASTM C 1167 - 03 [11] a durabilidade das telhas cerâmicas é considerada apenas relativamente à resistência ao gelo. Nesta norma a durabilidade das telhas é avaliada indirectamente através da sua classificação em níveis de desempenho. Essa classificação é obtida a partir dos valores da absorção de água fria das telhas e do coeficiente de saturação, sendo este calculado dividindo a absorção de água fria pela absorção de água em ebulição. Caso as telhas não cumpram as exigências de absorção de água e do coeficiente de saturação estabelecidas pode-se avaliar a sua durabilidade através do ensaio de 50 ciclos de gelo-degelo.
Para além da acção do gelo, considerada pela normalização aplicável às telhas cerâmicas para efeitos da sua qualificação relativamente à durabilidade, existem outros agentes de degradação das telhas. Estes agentes afectam a durabilidade das telhas e consequentemente o desempenho das coberturas ao longo do tempo.
A acção dos sais solúveis, designadamente do nevoeiro salino, tem sido responsável pela degradação de telhas em coberturas localizadas em algumas regiões costeiras e é objecto deste estudo.
A protecção face à acção da chuva e do vento, e às suas consequências como as infiltrações e o levantamento das telhas, é a principal função das coberturas. Esta protecção é conferida pela impermeabilidade das telhas e pela estanquidade das coberturas. A estanquidade das coberturas depende da inclinação das vertentes, do encaixe e sobreposição das telhas, da fixação das telhas e da pormenorização eficiente das zonas singulares das coberturas.
A ocorrência de condensações promove a humidificação das telhas e dos restantes elementos das coberturas e pode ser evitada através da ventilação eficiente dos telhados.
A acção dos agentes biológicos provoca a cumulação de musgos, folhas e detritos sobre a cobertura, o que pode levar à degradação das telhas ou ao entupimento dos sistemas de drenagem das águas pluviais. É necessário visitar a cobertura e realizar trabalhos de manutenção.
Acções mecânicas fortuitas, como a queda de objectos ou circulação indevida sobre a cobertura, podem sujeitar as telhas a cargas concentradas que vençam a sua resistência à flexão, provocando a fractura das telhas. Também neste caso será necessário visitar a cobertura para detectar e substituir as telhas partidas.
As telhas cerâmicas que não contenham materiais orgânicos são classificadas na classe A1 de reacção ao fogo [6]. O mesmo acontece para as telhas que contenham materiais orgânicos numa percentagem igual ou inferior a 0,1 % da sua massa ou volume. Nos restantes casos, e quando tal for exigido pelos regulamentos aplicáveis, será necessário realizar ensaios para classificar as telhas relativamente à sua reacção ao fogo.
As telhas cerâmicas resistem a agentes de poluição atmosférica, como as chuvas ácidas, que originam corrosão química [2].
Para realizar a manutenção das coberturas e permitir o acesso a equipamentos instalados nas coberturas é necessário criar as condições para as tornar visitáveis, podendo ser colocadas telhas de passadeira e ventilação.
O manual de aplicação de telhas cerâmicas [2] propõe periodicidade semestral e anual para as actividades de manutenção indicadas no Quadro 1.
Quadro 1 - Periodicidade das operações de manutenção [2] Periodicidade Acções
Semestral Anual
Inspecção geral dos elementos da cobertura X
Desobstrução dos pontos de ventilação X
Eliminação de verdete, vegetação e detritos em geral X Inspecção e manutenção do sistema de drenagem X
Inspecção e manutenção dos remates das coberturas X
Capítulo 2 - Degradação e durabilidade de materiais de construção porosos
11 Um guia francês de manutenção de edifícios [12] preconiza as seguintes operações de manutenção de coberturas de telhas:
− Inspecções periódicas anuais ou após fenómeno meteorológico excepcional para inspecção geral dos elementos da cobertura, verificar o correcto posicionamento das telhas e a necessidade de substituir telhas partidas.
− Manutenção preventiva anual para limpeza da cobertura, eliminação de vegetação, desobstruir o sistema de drenagem e reposicionar telhas deslocadas.
− Manutenção ligeira, com periodicidade de 7 anos, para corrigir deteriorações susceptíveis de comprometer a estanquidade da cobertura, incidindo sobre os pontos singulares da cobertura, como juntas e intercepções, e substituição de telhas partidas.
− Manutenção pesada, com periodicidade de 15 anos, para substituição das telhas degradadas e reforço das fixações. Verificação e reparação dos diversos elementos da cobertura.
− Substituição completa do revestimento da cobertura após o tempo de vida útil previsto de 50 anos.
Foram abordadas a qualificação e a durabilidade das telhas cerâmicas no âmbito da marcação CE e da normalização europeia, os agentes degradação das telhas e das coberturas e a manutenção das coberturas necessária ao seu bom desempenho durante a vida útil expectável.