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CAPÍTULO 3: FORMAS REGULATÓRIAS DA INSTITUIÇÃO

4.6 QUANDO AS CRIANÇAS COBRAM DAS PROFESSORAS O

O contexto da educação infantil, que contempla relações entre sujeitos de categorias geracionais diferentes, é permeado por momentos de conflitos, divergências e tensões entre crianças e adultos. E neste emaranhado, as crianças, além de cobrarem o cumprimento das regras institucionais de seus pares, em algumas circunstâncias também manifestam o desejo de que elas sejam cumpridas e/ou reafirmadas pelas professoras.

Cheguei a creche e as crianças estavam no refeitório assistindo a uma peça de teatro. Voltando para a sala referência, a professora se senta com as crianças na roda e diz que elas podem escolher entre brincar de massinha, pintar o livro da copa ou fazer uma atividade de alinhavo. Mas, limitou a brincadeira até determinado espaço da sala:

- Pode pegar brinquedo até ali (apontando para uma estante).

Sentando-se na mesa, Jefferson pega um brinquedo na estante, e na mesma hora Winnie fala para a professora:

- Olha ali! Ele pegou de onde não pode! (Apontando para Jefferson).

A professora responde: - Pode pegar dali, eu liberei

(Notas de campo – junho de 2014 – 11º dia). Nesta situação, a professora estabelece uma regra provisória para aquele momento do dia, delimitando por meio dela o espaço de brincadeira das crianças. Winnie, ao perceber que Jefferson havia ultrapassado o limite estabelecido, anuncia este fato à professora, pedindo implicitamente que ela tome alguma atitude. Contudo, esta ação não acontece, e para a surpresa de Winnie, a professora flexibiliza a regra colocada por ela mesma, permitindo que Jefferson pegue um brinquedo que, num primeiro momento ultrapassava os limites do permitido.

Desta forma, entendo que este evento suscita discussões de naturezas diversas. O primeiro ponto a ser destacado refere-se a limitação geográfica estabelecida pela professora quanto a brincadeira das crianças. Este fato me inquieta e motiva a refletir sobre a ausência de justificativa quanto a colocação de regras para as crianças. Neste caso, porém, cabe ressaltar um diferencial, pois entendo que limitar a brincadeira das crianças na sala referência se tratou de uma ordem estabelecida para aquele evento, para aquele dia e momento específico, e não pode ser vista como uma regra institucional permanente. Desta forma, cabe diferenciar regras e ordens a partir da compreensão que as regras são um conjunto de combinados elaborados pelos adultos para organizar a rotina institucional. Já as ordens atuam de forma imperativa e muitas vezes autoritária frente às mobilizações das crianças, são

eventos esporádicos desprovidos de justificativa ou elaboração coletiva e que dispensa apresentações às crianças.

A situação descrita aponta também para a hierarquia estabelecida nas relações entre crianças e adultos, onde às crianças cabe obedecer a ordem dada pela professora, a qual não foi compartilhada, tampouco comungada por todos. Santos (2001) critica esta hierarquia estabelecida a priori, que é fruto da Modernidade, onde, sem que haja um debate prévio sobre como as situações serão conduzidas, já se tem uma resposta pronta e considerada como certa. O autor compreende a hierarquia de um modo distinto daquela que a Modernidade vem afirmando ao longo de sua consolidação enquanto projeto. Para ele, hierarquia são caminhos, é aquilo que é definido no debate entre várias posições, onde o que não foi tido como majoritário nesse embate não é desperdiçado. Dessa forma, Santos (2001) não é contrário a hierarquia, pois afirma que não é possível se construir um projeto político sem a mesma.

E o terceiro ponto que o evento me permite analisar se trata da cobrança feita por Winnie à professora, pedindo que esta faça jus a ordem dada e impeça Jefferson de buscar o brinquedo da estante. Deste modo, Winnie apela para a autoridade da professora com vistas ao cumprimento da ordem.

Semelhante a este evento, mas em circunstâncias distintas, passo a descrever uma situação em que Lais também apela para a autoridade da professora, mas, para benefício próprio.

Na roda, a professora pergunta quem gostaria de contar alguma novidade para todos os colegas. Gustavo e Davy começam a cantar uma música funk, e a professora permite que os meninos a cantem várias vezes, do começo ao fim. Em seguida, Jefferson e Yuri cantam outra música funk, e outras crianças acompanham-os. Lais é a última criança a pedir para cantar, e ela anuncia de antemão que vai cantar a música da “Dora Aventureira”, mas não começa a canção. A professora diz que se Lais quiser, pode pedir ajuda as demais crianças. Lais reflete sobre isso, permanece alguns minutos sem cantar, quando, observando as outras crianças, fala para a professora:

- Mas prof, eu não vou cantar enquanto todo mundo não fazer silêncio!

- Muito bem Lais! Ó crianças, vocês ouviram, a Lais né?!

(Notas de campo – setembro de 2014 – 24º dia). Indico, a partir deste excerto, que as crianças além de exigirem o cumprimento das regras por parte de seus pares e das professoras, utilizam-nas a seu gosto e em seu benefício. Neste caso, Lais almejava cantar sua música, mas se viu impossibilitada desta ação, visto a conversa paralela de seus pares. Então, a menina resgata uma regra colocada pelas professoras no cotidiano, que afirma que para um sujeito poder falar os demais precisam estar em silêncio para ouvi-lo.

Posto isto, convém reafirmar que as crianças operam com as regras da instituição em benefício próprio, sendo elas benéficas em algumas circunstâncias, sobretudo quando as crianças desejam ser ouvidas. E para atingir tal fim, resgatam e reiteram as regras institucionais utilizando estratégias próprias que indicam um domínio sob as regras institucionais, que permite que as crianças cobrem das professoras o seu cumprimento. E na intenção de apresentar momentos em que este fato ocorre, retrato a seguir uma situação vivida no parque, em que Luiz Gustavo solicita que a professora cobre o cumprimento da regra de Bernardo.

No parque, Luiz Gustavo e Iago brincam no interior da casinha. Bernardo se aproxima dos colegas e aponta para eles uma montagem com peças de Lego, que se parece com uma arma. Imediatamente, Luiz Gustavo diz para a professora:

- Ó ali ele fazendo de arma! (Apontando para Bernardo)

A professora intervém, conversando com Bernardo, que minutos depois se aproxima de mim para me mostrar sua nova montagem com peças de Lego:

- Olha Aline, agora é um sofá

(Notas de campo – setembro de 2014 – 26º dia). Neste caso, a proibição quanto à criação de armas fictícias através dos brinquedos também se trata de uma regra da instituição, que é colocada para as crianças de todos os grupos, pois Luiz Gustavo, na data em que esta situação foi registrada, havia começado a frequentar o

Grupo 4/5 naquele mesmo dia, e desta forma não poderia saber que esta é também uma regra instituída naquele grupo.

Deste modo, torna-se evidente que há regras colocadas às crianças de todos os grupos da instituição de educação infantil que visam organizar o cotidiano, sobretudo em momentos de encontro no parque, no refeitório ou no espaço reservado para assistirem filmes. Entretanto, apesar desta justificativa ser coerente no sentido da importância de haver regras institucionais, as crianças são submetidas a elas de forma hierárquica, sem que haja um diálogo sobre sua necessidade. Por exemplo, Bernardo desfaz seu brinquedo para que ele deixe de assumir a forma de arma, pois foi repreendido pela professora. Mas, neste momento não é estabelecido um diálogo entre ele e a professora quanto ao porquê o menino não deve simular o manuseio de armas, nem que esta seja obviamente de brinquedo.

Com isto pretendo ressaltar a fragilidade quanto ao esclarecimento das regras institucionais às crianças, as quais, por sua vez, muitas vezes apenas obedecem ao que lhes é imposto. Sendo assim, é possível indicar que, na Modernidade é legitimado o pensamento centrado na racionalidade humana, a qual é conferida aos adultos. E essa característica atinge direta e principalmente as crianças, visto que, nesta lógica elas são excluídas dos processos de decisão sobre ações que impactam a sua vida. Rocha (1999) entende que no cenário contemporâneo as crianças são identificadas pela insuficiência da razão. Perde-se a dimensão das crianças como sujeitos concretos, que possuem formas próprias de expressão, comunicação, interpretação, socialização, etc.

O último registro descrito aponta para uma condição de obediência das crianças frente às regras institucionais, que, além de organizarem a vida coletiva dos sujeitos que vivem na instituição de educação infantil, colocam barreiras às brincadeiras das crianças. É importante deixar claro que não assumo a defesa do incentivo a brincadeiras que utilizem armas ou instrumentos que legitimem a violência, apenas indico esta situação com um exemplo claro de como as regras institucionais interferem também nas brincadeiras entre as crianças.

4.7 QUANDO AS CRIANÇAS BUSCAM OUTRAS