Nossos modos de fazer epistemologia em psicologia
QUANDO O CONCEITO FALHA: OS PROBLEMAS DA COLONIALIDADE DO SABER
Agora voltamos ao conceito de processos de subjetivação. Então esse conceito era lindo e potente para mim, mas ele precisa ser pensado também no seu limite e isso me leva a outra história. Um dia fui con-vidada para uma atividade noutro CAPS, que atende usuários(as) de álcool e outras drogas. Nesse dia cheguei no serviço e fui entrando até a parte onde uma colega me esperava. Entrei e atravessei o pré-dio todo e ninguém, absolutamente ninguém, barrou-me, nem me questionou (no presídio feminino, noutro momento, isso também me aconteceu e foi ainda mais impactante). Cheguei e me sentei com a colega e alguns usuários. Cerca de meia hora depois chega outro parceiro, um trabalhador negro que vestia a farda do Consultório na Rua, ele e o menino que o acompanhava (de um projeto social conduzido por este trabalhador) foram barrados na porta do CAPS e lhes foi exigida uma revista ou que deixassem seus pertences num
armário como fazem com os usuários do serviço8. Ele estava furioso com o ocorrido, porque a violência (cotidiana) do racismo escor-ria na raiva que ele sentia. Essa foi uma das vezes que percebi que esse negócio de “podia ser o que eu quisesse” não era bem assim.
Ali encontrei o limite colonial do conceito. Sim, o conceito tem limi-tes, porque dizendo como eu disse, parece que essa possibilidade de ser o que quiser é igualmente libertadora para todo mundo, porém não é. Essa possibilidade funciona para mim porque, mesmo sendo uma mulher e sofrendo nas mãos de uma sociedade patriarcal que me fecha algumas portas, meu corpo branco de mulher me permite sonhar e entrar em outras tantas portas. Para uma pessoa negra, trans, com deficiência, o conceito não vai funcionar igual, porque o processo de interação social e subjetivo é o tempo todo limitado pela inacessibilidade concreta e pelo preconceito, pelo não reconhe-cimento dessas pessoas como seres humanos. Estou falando do que aconteceu nesse CAPS, mas também estou falando de coisas como o assassinato do Beto no Carrefour de Porto Alegre, das primas que foram assassinadas por uma bala perdida enquanto brincavam na porta de casa numa favela do Rio de Janeiro. Ou da mulher trans que foi barrada no banheiro feminino do Shopping Pátio em Maceió e arrastada pelos seguranças. Para essas pessoas não está dado o direito à vida. É um problema anterior ao que me chega enquanto mulher branca. Então o conceito de processos de subjetivação falha aí, não dá conta. Se eu disser isso para a mãe dessas duas meninas que morreram, que elas podiam ser o que quisessem, ela provavel-mente me diria que nada disso faz sentido, porque elas não tiveram o direito a brincar na porta de casa sem morrer.
Iniciei minha carreira docente em 2015, ano em que a universi-dade em que lecionava alcançou 50% de estudantes cotistas e quando tivemos um grande movimento de greves de ocupação pelo país. No início dessa greve, quando escutei numa assembleia sobre as condi-ções que alunas vindas de outros estados dormiam, sob ameaças e violências sexuais, por não terem garantida a residência estudantil e morarem nas favelas próximas às universidades, comecei a perceber coisas e já era tarde. Quando um dia amanhecemos com o Instituto de Psicologia cheio de cartazes com os dizeres de muitos professo-res (cujos nomes foram omitidos) em letras garrafais nas paredes:
8 Aqui vale uma nota de que essa é uma prática desumana, que deveria ser erra-dicada, mas infelizmente é comum especialmente em serviços que atendem usu-ários(as) de álcool e outras drogas. E que é uma prática desumana também com os(as) usuários(as) e não apenas por ter acontecido com o trabalhador em questão.
“se não tem dinheiro pra xerox, não devia estar na universidade”, “os brancos tem inteligência superior aos negros”, “mulher com mulher não faz sexo de verdade”, “se não sabe falar inglês não devia estar na universidade”... entre outras... percebi a urgência e o atraso, per-cebi o edifício do saber erguido com racismo, colonialidade, homofo-bia, capacitismo9... Naquele ano, o projeto colonial brasileiro, que já tinha 515 anos, para mim, começou a ruir. E o fato de ter começado a enxergar as rachaduras ali ainda é muito pouco, mas o suficiente para que eu não fosse mais a mesma, e começasse a escutar a expe-riências das e dos estudantes, e me defrontar, de forma concreta, com suas questões, que ecoavam na sala de aula, “para que serve o que estamos aprendendo”, ou como numa pichação numa das pare-des de nosso pátio interno: “a quem serve o teu conhecimento?”.
Estas não são apenas questões “lacradoras”, com a intenção de silen-ciar professores em sala de aula, mas se tomadas na sua radicalidade e como trabalho acadêmico, são a nossa chance de transformar a universidade, de acolher as diferenças e aprender a produzir conhe-cimento de forma diferente, a escrever de forma diferente.
Essas histórias que vivi na universidade não são um problema da universidade exclusivamente, essas histórias estão relacionadas à história de nosso país. Nosso Brasil que conhecemos (capitalista), nasceu de um golpe dado pelo herdeiro na coroa portuguesa, como nos narram Lilia Schwartz e Heloisa Starling (2015) em seu livro Brasil:
uma biografia. Antes do assalto português eram outras as narrativas presentes nesse território, aprendi com Ailton Krenak (2020).
A história que veio antes da invasão da coroa portuguesa no Brasil trata de múltiplas cosmologias10, desses povos originários que sabiam que era preciso a partilha coletiva (entre humanos e natu-reza, que para eles não são coisas separadas) da responsabilidade pelos mundos que tomamos emprestados para viver, como sustenta Ailton Krenak, ou como ensina Davi Kopenawa Yanomami em seu livro A queda do céu (2015). Este saber, segundo Krenak, indicava um constante movimento e aprendemos nos livros de história que os(as) indígenas eram nômades, e o eram porque sabiam que a terra usada pela sua permanência em cada canto precisava de tempo e espaço para se regenerar e voltar a ser mata. Tal saber paradoxalmente foi ceifado pela demarcação das terras indígenas. A lei dos brancos que
9 Capacitismo é a discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência.
10 Se tratamos de epistemologia e ontologia no texto, Krenak nos incita a andar mais um pouco, na direção das cosmologias, das narrativas sobre a “origem” do universo.
garante sua existência é a mesma que impede o seu movimento.
Hoje estes povos já não se movimentam mais pelas florestas, mas se movimentam para fora dela, para as cidades, para os serviços de saúde, para a universidade, movimentos que fazem também para garantir a sua existência, diante das matas queimadas para a mono-cultura e criação de gado, diante do Rio Negro, companheiro que agoniza desde a primeira barragem rompida no crime ambiental que iniciou em Mariana/MG. Do mesmo modo, os(as) negros(as) em diás-pora retomam a prática do aquilombamento, como também escre-veu em sua dissertação a colega psicóloga e mestra em psicologia, intelectual negra, Maísa de Carvalho (2020), tal prática que outrora lhes servia para resistir ao processo de escravização, agora dentro das nossas universidades, nos coletivos negros, serve como forma de sustentar pensamentos e práticas que não apaguem (mais do que já foram apagadas) as suas ancestralidades.
Esse caminho faz pensar nos desafios que temos pela frente.
Nossos sistemas de pensamento, de crenças, nossas cosmologias comuns à universidade são e sempre foram brancas, burguesas, coloniais, heteronormativas e capacitistas. Quando olho “para tudo isso que está aí” nas práticas psi e nas pesquisas, nesses problemas que ainda estão presentes, escuto Krenak (2019); ele diz que para adiar o fim do mundo precisamos contar mais uma história. Por isso além de conhecer as histórias de nosso passado, como evoquei no texto, de não esquecer nossas potências, mas também nossos limi-tes, sem esquecer os problemas e as controvérsias com as quais fazemos ciência, aposto nessa insistência de Ailton Krenak.
Aposto nessa insistência também com os(as) estudantes que oriento, de cujos textos saem as histórias que conto a seguir. Para cada queixa que escuto sobre a dificuldade de produzir diferentes práticas de pesquisa posso dizer que tenho uma história. Uma his-tória como a que contou Nilson Filho (2020), um de meus orien-tandos, em sua monografia de conclusão do curso de Psicologia sobre a sua experiência de estágio e extensão na Farmácia Viva, criada nos fundos de uma Unidade Básica de Saúde, numa capital nordestina. Sobre como que ali, ele, menino do interior, reconec-tava-se com o cheiro do mato, da terra onde nascera, e via acon-tecer inúmeros e inesperados processos de cuidado às vezes sem a presença de nenhum profissional, e que ele, tendo aprendido no curso a prestar atenção no valor do cotidiano, conseguiu perceber articulando-as às tecnologias leves e o trabalho vivo em saúde de Emerson Merhy.
Para cada dúvida diante da pergunta sobre como definir sua base teórica de pesquisa posso contar sobre o trabalho de conclusão de Larissa Nascimento (2019) que resgata a sua própria ancestralidade desde a escolha do título de seu trabalho, Memórias do alagadiço, com a grafia de Massayó (Maceió), a terra do alagadiço, onde ela nasceu. E como ela pega a psi grega, símbolo da Psicologia e a compara ao tri-dente que os católicos puseram na mão de Exu, o guardião dos cami-nhos que levam à casa de Oxalá. Essa conversa e o mito de Exu abrem o trabalho dela, que narra a encruzilhada epistêmica que ela atravessa, no meio do alagadiço, como mulher negra e estagiária do consultó-rio na rua, para se formar. Larissa me apresentou autores da diás-pora africana, como Renato Noguera, filósofo e estudioso de Frantz Fanon, apresentou-me imagens e saberes da diáspora, e não deixou esquecer que o tempo de luta pela sobrevivência do povo negro e dos povos originários no Brasil remontam 521 anos. Larissa cruzou com todos esses elementos em seu texto para redimensionar o cuidado em saúde com a população negra, especialmente a que vive na rua.
Para cada impossibilidade há uma história. Há um sussurro, uma cara de espanto e um “nossa, eu também” ou um “não, no meu tempo era assim...”. O convite de Krenak para contar mais uma história segue ecoando. E você, que me lê, que histórias você tem escutado?
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