lada «Síntese Monoteísta da Teologia Egípcia, considerada nas Relações do Deus Phtah e do Deus Imhotep com as tríades dos Nomos» (Queiroz 2004: 70).
44. Há, porém, quem defenda (por exemplo, o egiptólogo Vassil Dobrev) que o fa- raó que serviu de modelo à Grande Esfi nge foi Khufu, o faraó construtor da Grande Pirâmide, e que teria sido o seu fi lho Djedefré o responsável pela realização da gi- gantesca escultura (cf. Bourdial/Zaïd 2005: 40-59). Ver também Malheiro 2006: 17-48 (sobretudo, 38-40).
Este fi ctício título da obra do alemão deixa perpassar o destaque à te- mática religiosa e mitológica no âmbito da antiga civilização egípcia e a atenção conferida a duas das suas divindades: o deus Ptah (grafado por Eça a apartir da sua forma grecizada, Phtah, onde se incorpora o dígrafo «ph» do grego fi , ϑ) e o deus Imhotep.
O título inventado para a obra do velho Topsius parece ser construído a partir de ideias contraditórias e paradoxais: o monoteísmo de uma teologia em que existem tríades regionais e locais que se relacionam com outros deuses (aqui apenas Ptah e Imhotep). Esta busca da ideia explicativa e unifi cadora das múltiplas deidades egípcias é uma preocupação que per- correu o fi nal do séc. XIX e que chegou até aos nossos dias. A obra de Erik Hornung, publicada pela Wissenschaftliche Buch gesellschaft, em 1971, apenas para referir um caso sufi cientemente conhecido, é disso um exemplo representativo com o título Der Eine und Die Vielen (O Uno e o Múltiplo).
O deus Ptah, divindade principal de Mênfi s, cidade-capital do Egipto faraónico durante o Império Antigo (mais ou menos desde 2700 até 2200 a.C, ou seja, durante cerca de 500 anos), habitualmente representado mu- miforme, de cabeça rapada ou com uma justa cobertura de cabeça, barba pontiaguda, colar menat ao pescoço e um ceptro compósito uas-djed-ankh nas mãos, era uma antiquíssima divindade do panteão egípcio (cf. Sales 1999: 274).
Em Mênfi s, capital do 1º nomos (província ou circunscrição adminis- trativa) do Baixo Egipto, Ptah era o deus demiurgo (criara o universo atra- vés do poder criador da palavra), sendo o elemento masculino-marido da tríade local, que integrava a deusa esposa-mãe Sekhemet e o deus-criança Nefertum.
Entre os muitos epítetos por que fi cou conhecido, a maioria atribuídos pelos seus sacerdotes-teólogos, constavam os de «escultor dos escultores» e «oleiro dos oleiros». Os teólogos menfi tas chamavam-no também de «Senhor da Verdade e da Justiça», o que fazia dele, na sua concepção, um deus da História e dos destinos dos homens e dos outros deuses.
Ptah era também o deus da Sabedoria e do Conhecimento, o Fundidor dos metais e o Grande Construtor, inventor da Técnica e Artífi ce Divino, sendo, por isso, encarado como o patrono dos artistas, das artes e dos ofí- cios (ibidem: 281).
Estas noções faziam já parte dos caracteres que Eça captou nas suas «leituras egiptológicas» e que colocou, de forma explícita e resumida, na boca do sapientíssimo Topsius à vista de Alexandria: «E que me seja em ti propício o teu deus Phtah, deus das letras, deus da História, inspirador da obra de Arte e da obra de Verdade!» (Queiroz 2004: 68).
A referência ao «Deus Imhotep» é igualmente muito signifi cativa e curiosa. Imhotep foi, historicamente, um sacerdote do deus-solar Ré no III milénio a.C., tjati-vizir do faraó da III dinastia (séc. XXVII a.C.) Netjerirkhet Djoser, Superintendente de Todos os Trabalhos do Rei, para o qual concebeu, na sua condição de arquitecto, o complexo funerário de Sakara, com a célebre pirâmide escalonada.
Esta pirâmide de degraus (túmulo do faraó Djoser), construído, em várias fases, através do processo de sobreposição de seis mastabas, em que a de cima é sempre inferior à de baixo, deu-lhe fama de extraordiná- rio arquitecto e mestre-de-obras logo na Antiguidade.45 Os seus dotes de astrónomo, escriba, sacerdote e médico ampliaram-lhe de tal maneira o prestígio que, na Época Baixa (séculos VI a IV a.C.), foi divinizado, sendo adorado como deus da Arquitectura e da Medicina.
O seu culto difundiu-se um pouco por todo o Egipto, mas os seus de- votos deslocavam-se em peregrinação, sobretudo, a Sakara, onde o grande sábio fora enterrado (embora a exacta localização do seu túmulo ainda permaneça desconhe cida), deixando-lhe aí numerosas oferendas votivas (por exemplo, íbis mumifi ca dos). No período greco-romano (séculos IV a.C. – I d.C), a veneração de Imhotep fi xou-se defi nitivamente
É, pois, ao divinizado arquitecto-astrónomo-médico que Topsius/Eça de Queirós se refere(m) e não ao homem histórico do Império Antigo. O «solo venerável, quase mitológico» (Queirós s.d.: 41) do Egipto que tanto atraiu o jovem escritor portu guês motiva as suas opções no exercício pon- tual de referência ao panteão egípcio.
As alusões n’A Relíquia aos deuses do panteão egípcio não se esgotam aqui: há ainda referências a Osíris,46 Ísis,47 Ápis48 e Amon.49 Os dois exem- plos destacados (Ptah e Imhotep) são, em nossa opinião, sufi cientes para demonstrar o conheci mento/informação do romancista português acerca 45. A pirâmide de Djoser, em Sakara, tinha uma base de 140 m por 118 para uma altura de 60 m, o que fez dela, na altura da sua construção, a maior estrutura de pedra alguma vez erigida. A principal inovação técnica que revelou foi, justamente, a subs- tituição do adobe pela pedra, instituindo, assim, um modelo de construção no material da eternidade (a pedra) que os faraós nunca mais abandonaram nas suas edifi cações templárias e funerárias.
46. «Os sacerdotes de Osíris, cobertos com peles de leopardo» (Queiroz 2004: 75); «Osíris, com os cornos de boi, montava Ísis» (ibidem: 84); «As pandeiretas sagradas do tempo de Osíris» (ibidem: 96-97). Vide os comentários de Araújo (1988: 93).
47. «Osíris, com os cornos de boi, montava Ísis» (Queiroz 2004: 84). Vide também Araújo (1988: 93).
48. «[sacerdotes ] que descendem dos que outrora em Mênfi s adoravam o boi Ápis» (Queiroz 2004: 95).
da religião do antigo Egipto, resultado das leituras preparatórias que fez para a sua viagem ao Egipto e/ou para construção da narrativa de viagens do Raposão.
10. Independentemente da fi na ironia crítica que Eça pode ter colocado