5. EMPODERADAS: REPRESENTAÇÕES E DISCURSOS SOBRE E COM
5.1. Quando elas estão em poder das câmeras
A construção da imagem fílmica é pautada por diversos mecanismos estéticos que carregam seus significados e acabam influenciando nossas leituras visuais. A maneira como as cineastas escolhem e se utilizam dos elementos como enquadramento, planos e depois a montagem desse material são responsáveis pela criação de imagens dessas mulheres e se tornam um espaço para ressignificar os corpos e resistir aos estereótipos. É a relação entre esses elementos que na imagem mostra quem é o foco principal, quem está ao fundo, quais são os elementos e pessoas importantes na cena. A narrativa fílmica nos informa sobre corpos, relações de poder, gestos, emoções. É dessa maneira que as representações se constroem e se fixam em nosso imaginário, criando diversos estereótipos ou resistindo a eles. O que pretendemos nesse capítulo é analisar de que forma as escolhas estéticas e de edição dos episódios da websérie podem subverter e resistir às imagens de controle – estereótipos – feitas sobre a mulher negra: de que forma as mulheres entrevistadas são apresentadas por meio da imagem? O que e como
101 Bloco Afro Ilú Obá De Min: O projeto Bloco Afro Ilú Oba De Min é uma intervenção cultural baseada na
preservação de patrimônio imaterial, trazendo para a região urbana antigas tradições. O trabalho coordenado pela arte-educadora e musicista Beth Beli e Adriana Aragão, que desenvolvem pesquisa sobre matrizes africanas e afro- brasileiras a mais de 20 anos objetiva a inserção de mulheres, crianças e adolescentes numa das principais manifestações popular brasileira (o carnaval), nos aspectos que compreende a cultura negra e no estudo das influências africanas na cultura brasileira. A finalidade destes estudos, assim como das oficinas de percussão realizadas, é apropriar-se da nossa história e recontá-la a partir da memória musical, corporal e artística existente no Candomblé, no Jongo, no Maracatu, na Ciranda, entre outras expressões genuínas da cultura popular, explorar a diversidade cultural e rítmica da música brasileira advindas do legado deixado por ancestrais africanos.
é mostrado sobre elas? De que maneira essas escolhas visuais ressignificam a imagem da mulher negra para além das imagens de controle?
Essa análise será feita em dois momentos. O primeiro é a análise interna que podemos considerar como a decomposição dos elementos que constituem produção audiovisual, que se trata de
despedaçar, descosturar, desunir, extrair, separar, destacar e denominar materiais que não se percebem isoladamente ‘a olho nu’, pois se é tomado pela totalidade. Parte-se, portanto, do texto fílmico para ‘desconstruí-lo’ e obter um conjunto de elementos distintos do próprio filme (VANOYE; GOLIOT-LÉTÉ, 2002, p.15).
No segundo momento, serão observados os elementos narrativos dos episódios: quais temas são trazidos pelas entrevistadas, como elas narram suas trajetórias, quais suas aspirações e áreas de atuação.
A escolha das imagens que serão utilizadas para análise é resultante das minhas observações dos episódios e das entrevistas com as cineastas. A partir da análise dos episódios da websérie, algumas características visuais e estilísticas da produção da imagem fílmica se repetiam nos seguintes tópicos: planos (componente do enquadramento), relação entre entrevistada e contexto e edição/montagem. Cada episódio tem sua própria configuração, uma vez que cada entrevistada se encontra em espaços, geralmente de atuação profissional, o que acaba por modificar as condições de iluminação e espaço. Optei por não escolher apenas dois ou três episódios, mas trazer uma visão geral de elementos estéticos que se repetem na construção imagética da websérie.
De maneira geral, no enquadramento das entrevistadas, encontramos com maior frequência a utilização do primeiro plano, primeiríssimo plano e plano detalhe. A construção da imagem a partir da aproximação da câmera ressalta os detalhes: os olhos, a boca, o sorriso, as mãos, o cabelo, as roupas. Existe esse cuidado em trazer o foco sobre os rostos dessas mulheres. Renata Martins diz em sua entrevista
Eu queria ter essa possibilidade e eu queria que as mulheres que fossem documentadas se sentissem bonitas também. Então tinha algumas regrinhas, né... que a gente poderia não alcançar, mas a nossa intenção é que fosse bonito. Sabe, então... o melhor lugar... não tem luz artificial, a gente tenta gravar mais durante o dia porque a gente aproveita a luz natural. Então a gente foi pensando em soluções para que as mulheres se olhassem e falassem assim: nossa, nunca me vi tão bonita assim, sabe? (MARTINS, 2019).
Podemos dizer que um elemento recorrente na construção fílmica da websérie, ocorre como na sequência de planos de Dediane de Souza102. A sequência que abre a apresentação da entrevistada em voz off, as cineastas vão nos dando elementos para conhecermos Dediane. Existe um cuidado em trazer detalhes a partir dos planos mais fechados, dando ênfase às qualidades individuais dessa mulher.
Figura 3: Sequência de planos da entrevistada Dediane Souza.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 11. Dediane Souza. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iqG2wExhLj4. Acessado em: 15/07/2019.
Durante a entrevista a câmera se afasta dos detalhes, mas ainda assim, Dediane de Souza continua em primeiro plano, ocupando todo campo da imagem.
Figura 4: Frame da entrevistada Dediane Souza. Episódio 11.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 11. Dediane Souza. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iqG2wExhLj4. Acessado em : 15/07/2019.
No episódio 2 de Thais Dias, utilizam-se os planos mais fechados, dando mais ênfase na entrevistada. Na construção imagética da atriz, enquanto ela narra sua trajetória em voz off, acompanhamos em vários planos em preto e branco, a atriz se maquiando.
Figura 5: Sequência de planos da entrevistada Thais Dias. Episódio 02.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 02. Thais Dias. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RabeiYjPOeU. Acessado em : 15/07/2019.
Nesse episódio, as cineastas fazem a passagem da imagem em preto e branco para a imagem em cor quando na narrativa, Thais diz tomar consciência de sua figura em cena como atriz. Nesse momento, a imagem fílmica adquire cor e vislumbramos a passagem do rosto de Thais maquiado, em uma fusão de imagens, para a atriz em cena.
Figura 6: Sequência de planos da entrevistada Thais Dias. Episódio 02.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 02. Thais Dias. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RabeiYjPOeU. Acessado em : 15/07/2019.
Nos episódios de Sharylaine, Ana Koteban e Luciane Barros há utilização de outras formas de montagem dos planos. Em Sharylaine, há tanto o primeiríssimo plano e plano detalhe no rosto da rapper como três imagens de planos diferentes. A cidade é o espaço onde a cultura do hip hop se desenvolveu e Sharylaine é apresentada dentro desse contexto. As luzes do espaço urbano compõem a imagem da artista, bem como o som da cidade também compõe o episódio.
Figura 7: Frames da entrevistada Sharylaine. Episódio 04.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 04. Sharylaine. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=a4TbnEc8m0E. Acessado em : 15/07/2019.
No episódio de Ana Koteban103, a montagem também contém características distintas. A montagem conta em alguns momentos com a construção de tríptico: ao centro temos Ana Koteban narrando sua trajetória com uma câmera fixa e dois quadros ao lado da imagem central assistimos em primeiríssimo plano a câmera acompanhar o corpo de Ana em pleno movimento. Temos ao fundo o som dos tambores.
Figura 8: Frame da entrevistada Ana Koteban. Episódio 05.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 05. Ana Koteban. Disponível em: Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=Jdyh_Wedndc. Acessado em : 15/07/2019.
103 Ballet afro koteban é formado por músicos e dançarinas brasileiros, que pesquisam a música e a dança do povo
mandingue do oeste africano. Foi criado em 2004 após a vinda do mestre mamady "kargus" keita ao brasil, por ogãs alabes que estudavam percussão popular na Ulm e lá tomaram contato com a música mandingue. O nome koteban, dado por billy konaté, grande músico guineano e filho do mestre famoudou konaté, significa: o bom trabalho, projeto ou objetivo verdadeiro "jamais acabará”.
https://www.facebook.com/ballet.koteban/about?section=bio&lst=100000762850773%3A100002610973768%3 A1563035919
Outro elemento estético que aparece no episódio é a tarja preta na parte superior e inferior do vídeo.
Figura 9: Frame da entrevistada Ana Koteban. Episódio 05.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 05. Ana Koteban. Disponível em: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Jdyh_Wedndc. Acessado em : 15/07/2019.
No episódio de Luciane Barros há também um jogo com partes da imagem criando linhas horizontais.
Figura 10: Frame da entrevistada Luciane Barros. Episódio 13.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 13. Luciane Barros. Disponível em:
Figura 11: Frame da entrevistada Leci Brandão. Episódio 10.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 10. Leci Brandão. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=pcBOqfcvjAQ. Acessado em: 03/09/2019.
Há alternância entre voz em off e o áudio direto das entrevistadas. Nos episódios de Leci Brandão, Xongani, Raquel Trindade e Alexandra Loras, as cineastas utilizaram a câmera fixa, que ajuda a dar um panorama dos espaços em que essas mulheres se encontram e que geralmente está ligado aos espaços profissionais. Há também plano detalhe das entrevistadas em que as imagens mostram brincos, objetos, tecidos, livros nos aproximando das singularidades e do universo dessas mulheres.
As imagens e detalhes em planos mais fechados nos apresentam, também, elementos que são específicos das áreas de atuação das entrevistadas: no episódio Xongani, temos ao fundo os tecidos africanos e alguns turbantes; em Ana Koteban, temos imagens dela enquanto ministra sua aula; Ana Fulô durante a produção de uma boneca em seu ateliê, MC Soffia durante uma apresentação; Beth Beli no comando da bateria do Ilu Oba de Min; Thais Dias no palco; Valeria Mota com seus alunos; Luciane Barros modelando.
Figura 12: Frame das entrevistadas Cris e Ana Paula - Xongani. Episódio 01.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 01. Cris e Ana Paula Xongani. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Q6wHgvWqkGo. Acessado em: 15/07/2019.
Figura 13: – Frame do episódio 01. Detalhe dos tecidos.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 01. Cris e Ana Paula Xongani. Disponível em:
Figura 14: Frame da entrevistada Ana Koteban. Episódio 05.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 05. Ana Koteban. Disponível em: Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=Jdyh_Wedndc. Acessado em : 15/07/2019.
A partir da reflexão sobre a construção de imagens de mulheres negras na sociedade brasileira, a escolha das cineastas de apresentar as entrevistadas em seus espaços profissionais, em vários episódios com essas mulheres em atuação, ressignifica diversos espaços institucionais que imageticamente não eram ocupados por mulheres negras – embora elas estejam atuando, trabalhando, criando – ao mesmo tempo, em que a visibilidades dessas mulheres se torna referência profissional e individual para outras mulheres. Aqui podemos refletir como os episódios subvertem as imagens de controle.
Figura 15: Sequência de planos da entrevistada Ana Fulô. Episódio 03.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 03. Ana Fulô. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=js83jYXSgH8. Acessado em : 15/07/2019
Figura 16: Sequência de planos da entrevistada Ana Fulô. Episódio 03.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 03. Ana Fulô. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=js83jYXSgH8. Acessado em : 15/07/2019
Figura 17: Sequência de planos da entrevistada MC Soffia. Episódio 07.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 07. MC Soffia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yEk2-lolkaA. Acessado em : 15/07/2019.
Figura 18: Sequência de planos. Episódio 07.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 07. MC Soffia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yEk2-lolkaA. Acessado em : 15/07/2019.
Figura 19: Sequência de planos do episódio 07.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 07. MC Soffia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yEk2-lolkaA. Acessado em: 15/07/2019.
Figura 20: Frame da entrevistada Beth Beli. Episódio 12.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 12. Beth Beli. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=56wY3UGLM_8&t=103s. Acessado em : 16/07/2019. .
Figura 21: Sequência de planos da entrevistada Beth Beli. Episódio 12.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 12. Beth Beli. Disponível em:
A partir da reflexão sobre a construção de imagens de mulheres negras na sociedade brasileira, a escolha das cineastas de apresentar as entrevistadas em seus espaços profissionais, em vários episódios com essas mulheres em atuação, ressignifica diversos espaços institucionais que imageticamente não eram ocupados por mulheres negras – embora elas estejam atuando, trabalhando, criando – ao mesmo tempo, em que a visibilidades dessas mulheres se torna referências profissional e individual para outras mulheres. Aqui podemos refletir como os episódios subvertem as imagens de controle.
Figura 22: Frame da entrevista Tula Pilar. Episódio 9. Atriz encenando.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 09. Tula Pilar. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=YJomL-J59B4.Acessado em : 15/07/2019
Figura 23: Frame da entrevistada Ana Fulô segurando uma de suas bonecas.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 03. Ana Fulô. Disponível em
Figura 24: Frame da entrevistada Raquel Trindade.
Fonte: Websérie Empoderadas. Episódio 08. Raquel Trindade. Disponível em: Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=MajEAUTPp8s. Acessado em : 15/07/2019.
A análise da construção da imagem fílmica é importante porque é a partir dela que ideias e conceitos são transmitidos. Dentre os meios de disseminação de estereótipos abordados no primeiro capítulo, a produção imagética é uma ferramenta importante para esse fim. A partir dos meios de comunicação (novelas, filmes), propagandas, as imagens circulam e nos apresentam formas de existir permeadas por questões de raça, gênero e sexualidade. Ter o controle da produção dessas imagens é tensionar as construções imagéticas e ressignificar as imagens e discursos em circulação. Não se trata apenas de trocar os sujeitos, mas de trazer esses sujeitos como protagonistas de suas trajetórias: nas narrativas das entrevistadas acompanhamos vivências, sonhos, lutas e as conquistas de mulheres negras.
A escolha por primeiro plano, primeiríssimo plano e plano detalhe são importantes para apresentar e enaltecer as características das interlocutoras, dando ênfase à elementos da beleza que estão nos olhos, na boca, no falar, no gesticular (quando enfoque nas mãos) e nos detalhes como os turbantes, nas estampas de roupas, nos cabelos. A beleza da mulher negra é transposta para a câmera no cuidado de não apresentar corpos estereotipados e retira essa condição de corpo sexualizado. Já as imagens de plano médio, apresentam os lugares ocupados profissionalmente por essas mulheres na sociedade e/ou seus campos de atuação. Na maioria dos episódios, as cineastas intercalaram imagens das entrevistas com imagens de seus e em seus espaços atuação: Thais Dias em cena; Ana Koteban ministrando a aula de dança, MC Soffia cantando em um evento, Tula Pilar em momento de atuação; Beth Beli a frente da bateria do Ilu Obá de Min; Valéria Mota como professora. As imagens nos mostram a potência e as inúmeras possibilidades de existência e resistência.