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3 VOLTAR-SE A SI MESMO: SERÁ ARTE?

3.4 Quando a palavra é a expressão de um dizer verdadeiro

Ao examinar as dimensões que perpassam o trabalho de si sobre si mesmo, temos claro que esta tarefa exige de cada um permanente exercício de cuidado, traduzido em técnicas ou práticas que no decorrer da história mantiveram o sujeito sob o olhar cuidadoso das formas de constituição de seu eu.

O discurso proferido pelo sujeito, que realiza os exercícios e práticas do cuidado de si, encontra-se livre para um dizer verdadeiro. Pois, sua palavra é a expressão de um pensar que precisa ser enunciado, porque é útil, porque é verdadeiro, de tal modo que sua fala implica não apenas a expressão de um pensar deslocado, mas, sobretudo, uma reelaboração interna que qualifica a fala e dá a validade moral esperada por todo sujeito que toma para si o percurso de um caminhar cuidadoso e atento a si mesmo.

Poderíamos, desse modo, confirmar que o trabalho de deixar-se atravessar pelos saberes, pelos conhecimentos advindos de um processo que examina permanentemente o conteúdo do que é ouvido, lido, pensado, transcrito e falado seria a expressão última de um dizer verdadeiro, de um dizer que representa a subjetividade consolidada no decorrer do processo de traduzir o pensado com suas próprias palavras.

Tais considerações têm por fim evidenciar o retorno da noção de parresía, tal como foi pensada pelos gregos quando atribuíam à palavra o sentido de liberdade, de um dizer franco, aberto. Contudo, é importante ainda esclarecer que a parresía

está atrelada ao discurso filosófico que, resultante de uma atividade filosófica, promove um trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento. Essa modificação do pensamento precisa, para torna-se, de certo modo, compreensível a todos, carregar o conteúdo de um modo de dizê-lo. Isto é, de uma palavra que seja clara e verdadeira.

Conforme Foucault (2006a, p. 442), podemos encontrar eco para esse pensamento nas afirmações do filósofo Epiteto quando dizia que,

uma vez que se utiliza o lógos é preciso que exista uma léxis (maneira de dizer as coisa) e que exista um certo número de palavras que sejam escolhidas de preferência a outras. Portanto, não pode haver logos filosófico sem esta espécie de corpo de linguagem, corpo de linguagem que tem suas qualidades próprias, sua plástica própria, e tem seus efeitos patéticos que são necessários (FOUCAULT, 2006a, p. 442).

Em suma, sempre que se tratou de pensar o discurso, a palavra atrelada à dimensão filosófica recorremos a um dizer específico que corresponde à parresía, pois ela abriga uma técnica e uma ética, uma arte e uma moral. Mas este certamente não foi nem é o significado final e concluso que ela abriga.

Principalmente porque sua ação é realizada quando o sujeito estabelece um vínculo com a verdade, disponibilizada plenamente em seu discurso.

Como observou Foucault, é certo que a parresía incorpora uma técnica e uma ética da escuta, da leitura e da escrita que juntas compõem exercícios de subjetivação do discurso verdadeiro. Afinal, ela se refere a duas dimensões, de um lado, moral (êthos) e, de outro, técnico (tékhne), ambas necessárias e indispensáveis na transmissão de um discurso verdadeiro, endereçado a quem dele precise e para quem a ele recorra, no momento da constituição de si mesmo como subjetividade que profere um discurso verdadeiro.

Sob as condições impostas pelos exercícios de si, o discurso verdadeiro precisa ser pronunciado na forma de parresía, isto é, apresentado de maneira franca, livre pela qual o sujeito diz o que tem a dizer, de modo mais franco possível.

Tendo o sujeito a autonomia de um dizer franco e verdadeiro, a parresía, passa por uma escolha, por uma decisão, por uma atitude de quem fala. Para isso, é preciso haver uma certa soberania sobre si mesmo de tal modo que o seu dizer atue em si e no outro, e que este último possa, na mesma medida e proporção, estabelecer a autonomia de um dizer franco e verdadeiro. Deste modo, ambos garantem a autonomia daquele que pronuncia e recebe a palavra.

Foucault (2006a, p. 462) nos lembra que na parresía só pode haver verdade.

Pois, a ausência da verdade nega o princípio do franco-falar e nega igualmente o movimento do sujeito de retorno a si mesmo. Nega também a passagem do discurso verdadeiro de quem já o possuí para quem deve recebê-lo.

Quanto mais pensamos o sentido e as relações que a parresía estabelece com o sujeito, com o outro e com o mundo, e consequentemente com o discurso advindo destas interações, tanto mais é preciso aproximar seu conceito do sentido dado a ela pelos gregos, e que foi fortalecido pelo pensamento da época helenística e romana. A intenção é intensificar a potência desta noção na constituição de uma subjetividade parresiástica, nas condições estabelecidas do mundo atual, isto é, no mundo em que a palavra tem força de verdade. Isto significa que é preciso dar atenção à palavra como caminho de aprendizagem. Uma aprendizagem que não se conquista através do ato de transmissão, mas da transformação.

O que consiste a parresía não é essencialmente o conteúdo ao qual ela está atrelada, pois ele, já o conhecemos, é a verdade, e a prática específica que a constitui e faz o discurso verdadeiro se revelar, se materializar, tornar-se visível.

Poder-se-ia dizer que nessas condições específicas a parresía está entregue à ocasião (káiros) que realiza nas composições (do indivíduo em relação a si, aos outros e ao mundo) a trama do dizer verdadeiro. Resultando desta ação um constituir-se e um constituir de uma relação de soberania, característica do sujeito que atingiu a sabedoria e a felicidade, própria daquele que mantém um cuidado permanente sobre si mesmo (2006a, p. 464).

Consideremos, novamente, as duas dimensões postas lado a lado pela noção de parresía: o êthos e a tékhne. Pensada desde o viés do discurso tradutor da verdade que, ao mesmo tempo, produz um estado de sabedoria, felicidade e movimenta-se no encontro dos significados postos aos seus dois companheiros, o êthos e a tékne. O primeiro traduzido pela atitude moral e a outra pelo procedimento técnico (2006a, p. 450).

Como é evidente, haveria muito mais a dizer sobre o êthos e a tékhne quando passaram a partilhar os resultados do discurso verdadeiro, mas, para o tema que nos propomos discutir neste momento, é suficiente indagar dois pontos descritos por Foucault que ganham importância singular no debate sobre a dimensão moral e técnica que acompanha a palavra na sua relação entre o falante e o ouvinte.

Tomemos para reflexão a seguinte ideia: um discurso verdadeiro deve livrar-se dos elementos de interferência de livrar-seu conteúdo. Essa interferência é descrita por Foucault quando apresenta a lisonja como o adversário moral do dizer fraco, da parresía. Mas, o que seria a lisonja descrita por Foucault e no que ela influencia (negativamente) o franco-dizer? Por que ela é um risco moral na prática de si?

Bem, sabemos que a lisonja age de forma moralmente inadequada quando se utiliza das palavras para adular, de forma enaltecedora e exagerada, algo ou alguém com a intenção de obter favores, privilégios da situação dada. Assim, manipula o discurso e fere um princípio importante na formação de um êthos que tem na palavra franca a representação da subjetividade do sujeito. A lisonja também constrói uma representação do processo que primou por revelar o sujeito em seu agir sobre si mesmo e, com isso, revelar o outro também.

Ao impedir que o outro se ocupe consigo mesmo a lisonja impede que este se conheça a si mesmo e aja em sua transformação, tornando impotente e cego aquele a quem ela se dirige. Sendo assim, é preciso também cuidar e estar atento às armadilhas que aprisionam o discurso e o impedem de promover o falar-franco, a parresía.

A conclusão é que a parrhesía (o franco-falar, a libertas) é exatamente a antilisonja.

É a antilisonja no sentido de que, na parrhesía, há efetivamente alguém que fala e que fala ao outro, mas fala ao outro de modo tal que o outro, diferentemente do que acontece na lisonja, poderá constituir consigo mesmo uma relação que é autônoma, independente, plena e satisfatória (FOUCAULT, 2006a, p. 458).

É, portanto, uma diferença que precisa estar marcada para que todos fiquem atentos. E cuidem para que o discurso verdadeiro não seja encoberto pelo discurso lisonjeador.

Concomitante à preocupação com a lisonja, Foucault (2006a, p. 460) destaca uma preocupação com a retórica. Embora ambas apresentem elementos de aproximação, também carregam uma oposição. Pois, diferentemente da lisonja, a retórica pode servir, em algum momento, à parresía. Ou seja, pode servir quando o seu dizer eloquente, bem argumentado, favorecer pelas suas regras, pelos seus procedimentos um falar franco mais límpido, claro, compreensível, visto que a sua finalidade não está relacionada ao dizer verdadeiro, mas a um dizer bem, utilizando palavras de efeito. Assim, mais que uma participação negativa, a retórica pode ser utilizada como um aliado técnico para o discurso verdadeiro. Pois, seu discurso

colabora no momento que é capaz de persuadir, tendo a verdade e não a “falsidade”

como conteúdo de seu discurso.

Até aqui se mostrou – nesses dois elementos, a lisonja e a retórica –, embora de modo vago, uma preocupação com o discurso proferido pelo sujeito. Contudo, a retórica mantém uma oposição em relação ao discurso filosófico, sendo este nomeado parresía porque nele só pode haver verdade e não um jogo que pode ou não afirmar a verdade.

É possível, sem dúvida, resgatar do discurso verdadeiro, da parresía, a liberdade e a autonomia presentes na linguagem, expressão da coerência entre a fala e o pensamento do falante. Pois, um pensamento verdadeiro, um pensamento libertador precisa “manifestar que os pensamentos transmitidos são precisamente os pensamentos daqueles que os transmite” (FOUCAULT, 2006a, p. 490). Sem a verdade do dizer verdadeiro não há palavra verdadeira, não há sujeito, não há parresiasta. Utilizemos o pensamento de Sêneca para exemplificar essa ideia: “para bem garantir a parresía (a franqueza) do discurso mantido, é necessário que a presença daquele que fala esteja efetivamente sensível naquilo mesmo que ele diz”

(FOUCAULT, 2006a, p. 491).

Com efeito, o dizer e o fazer se mantêm entrelaçados com a própria vida. Daí que o pensamento e a palavra passem a representar uma experiência de encontro consigo mesmo. Como bem nos lembra Deleuze no livro Foucault,

o pensamento não pode descobrir o impensado... sem o aproximar imediatamente de si, ou talvez ainda sem o afastar, sem que, em todo o caso, o ser do homem, porque se desdobra nesta distância, fique por isso mesmo alterado (DELEUZE, 2005, p. 160).

O pensamento se pensa a si mesmo para se libertar do que já pensou e assim pensar de outro modo. Se conseguirmos dar potência ao pensamento para que ele siga essa trilha essa será, de fato, uma grande contribuição para aquilo que significa pensar144.

144 Deleuze (2005, p. 162) credita a Foucault e à sua obra uma contribuição no campo do pensamento, na medida em que altera aquilo que significa pensar.