Rock … Raul Seixas
190 rentabilidade expressiva, tanto simbólica quanto financeiramente. Não por coincidência, o primeiro LP do cantor, lançado em São Paulo, em 1983, é intitulado somente Raul Seixas (Eldorado). O jornal Folha de São Paulo, em 1983, ao comentar o lançamento do LP, diz que todas as músicas do disco “formam aquele retrato multifacetado que é a personalidade de Raul Seixas”243.
A transferência do cantor para São Paulo, em 1983, após dois discos fracassados no Rio de Janeiro e dois anos sem gravadora, é acompanhada de fortes expectativas de reavivamento das consagrações passadas. Neste ano, por exemplo, ocorreu o lançamento de três coletâneas do cantor, por três gravadoras diferentes, O Segredo do Universo (WEA), O Pacote fechado de Raul Seixas (Elenco) e Os Grandes sucessos de Raul Seixas (Fontana). Junto a essas três coletâneas ocorreu o lançamento de seu primeiro LP na capital paulista, a publicação de seu livro As Aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor, um show na praia de Santos, assistido por 180 mil pessoas em um espetáculo transmitido simultaneamente pela TV Cultura de São Paulo, além do lançamento de um compacto simples com a música Carimbador Maluco, feita para o programa infantil da Rede Globo, Plunct Plact Zum, que renderia ao cantor seu terceiro disco de ouro.
Além do lançamento, em 1983, de seu primeiro LP, cujo título carrega o nome próprio do cantor, o lançamento de seu livro, que na realidade é seu diário de infância, vem reforçar ainda mais essa forma de divulgação comercial de sua imagem. Sua infância passou também a ser peça chave num período onde o capital simbólico acumulado por ele havia se tornado um trunfo importante para sua tentativa de reconversão às posições de prestígio. No diário de infância de Raul, lançado junto com o seu disco, percebem-se vários trechos de poesias e contos que mais tarde se tornariam músicas consagradas do cantor244. Ali se encontram grafados desenhados, sonhos,
medos e preocupações infantis que mais tarde se tornariam temáticas caras a sua produção musical. O lançamento de seu diário de infância acabou por cumprir uma função essencial nesse processo de revalorização simbólica da trajetória de Raul. Com o diário toda a importância que suas canções ganhavam no presente acabavam por se diluir na sua vida, como se toda a capacidade de crítica social ou cultural que se atribuía
243 Jornal Folha de São Paulo. 29 de Janeiro de 1983. Matéria intitulada: Raul Seixas prepara um novo
disco.
244 Dentre muitos trechos de seu diário de infância que mais tarde se tornaram músicas consagradas de
Raul, podemos desatacar as canções: Mosca na Sopa, Ouro de Tolo e As Aventuras de Raul Seixas na
191 à produção artística do cantor existisse independentemente do momento em que tais canções foram escritas, aparecendo como qualidades inatas a Raul. Dessa forma, seus escritos, suas músicas e idéias ganham um aspecto de atemporalidade, pois passam a ser percebidos como qualidades inatas e, por isso mesmo, vêm reforçar ainda mais uma construção simbólica singular em torno do cantor.
A consagração de Raul Seixas na década de 70 já havia sido feita mediante uma construção imagética extremamente forte. No entanto, as apropriações dessa construção foram extremamente diversas e, muitas vezes, fugiam ao seu controle. Durante a década de 80 em São Paulo, essa construção simbólica em torno de Raul Seixas ainda mantinha sua força.
A consagração do rock brasileiro no período, que vinha assumindo posição hegemônica no campo musical e cifras comerciais consideráveis, acabou por redesenhar o campo de possibilidades de Raul Seixas. É dentro desta perspectiva que o trabalho artístico de Raul Seixas começa a ganhar contornos distintos daqueles que caracterizaram suas canções na década passada, se aproximando agora das temáticas que qualificavam o rock nacional. O jornal Folha de São Paulo, em 1983, ao comentar sobre o primeiro LP de Raul Seixas lançado em São Paulo, afirma que o cantor “iria atrás da mesma linguagem criativa, de gíria nervosa e original, falada pela garotada da periferia, há muito transformada em versos safados por seus dedos”245. Na mesma
matéria, ao identificar as singularidades do novo trabalho do cantor, o jornal diz que Raul Seixas é “Baiano de Salvador, mas se considera paulista, por se identificar com a simultaneidade da metrópole”246.
Algumas temáticas abordadas por Raul vão ao encontro dos temas comuns das canções de rock que vinham ganhando cada dia mais espaço no cenário musical do período. O jornalista Miguel de Almeida, em matéria para o jornal Folha de São Paulo, em 1984, ao enumerar as bandas de rock que vinham fazendo referência a drogas em suas letras, chama a atenção de uma das músicas de Raul, juntamente a vários outros grupos, ao dizer que:
A parceria já é antiga: drogas e rock‟n roll. Ginsberg e Hendrix confirmam a idéia. No Rock brasileiro, ainda de calças curtas, a coisa virou fissura. Poucas são as letras que não se referem à cocaína, à maconha. Algumas citações são mais diretas, outras são enfileiradas sob certa inspiração, a gíria servindo de estofo para a construção de um novo vocabulário. Tudo sob bom humor.
245 Jornal Folha de São Paulo. 23 de Abril de 1983. Matéria intitulada: O Sarcástico Folião Raul Seixas. 246 Idem.
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De todos, quem merece iniciar a coisa é o veterano Raul Seixas. Em seu penúltimo disco, a letra de “Coração Noturno” não é velada: “A frieza do relógio/ Não compete com a quentura/ Do meu coração/ Coração que bate quatro por quatro”. Quatro por quatro – velha divisão de pó.247
Outras temáticas abordadas por Raul Seixas em suas músicas também são comuns às novas tendências musicais da década de 80. “Sexo, tecnologia, problemas nacionais e pessoais”, como a revista Veja248 de 1985 enumerou os principais assuntos
tratados pelos jovens músicos brasileiros, são, da mesma forma, temáticas freqüentes na produção musical de Raul. Tecnologia, aparelhos eletrônicos amparados em um cenário urbano, por exemplo, aparecem na música Você Roubou Meu Vídeo Cassete. Em depoimentos, o cantor atribui a música a um caso de roubo, após um de seus divórcios, durante a década de 80. De qualquer forma, a canção traz uma linguagem musical muito próxima das temáticas que definiam o rock do período, fazendo referência a um estilo de vida urbanizado, habitado por diferentes utensílios eletrônicos:
Você roubou meu vídeo cassete
Pensando que eu fosse o controle remoto Pra frente e pra trás só na sua cabeça E antes que eu me esqueça
“honey Darling” É melhor desligar
Você não quis sair lá de casa Tal quadro queria ficar na parede Xingou, reclamou e chamou ambulância Mas hoje na distância foi você quem sumiu Você é tão possessiva
Guardou minha imagem na sua televisão Você é tão abusiva
Me prende e não muda pra outra estação Você quebrou a minha guitarra
Pois eu a tocava mais que em você Queria que eu comesse calado Mas tá rebocado
Nem vem que não tem
Você roubou meu vídeo cassete
Pensando que eu fosse o controle remoto Pra frente e pra trás só na sua cabeça E antes que eu me esqueça
É melhor desligar...249
Temáticas ligadas a sexo e prostituição aparecem na música Babilina, em que o cantor narra uma suposta paixão por uma prostituta:
247 Jornal Folha de São Paulo. 05 de Setembro de 1984. Matéria intitulada: O jogo de palavras
tupiniquim.
248 Revista Veja, edição 870, pp.132-133. 8 de Maio de 1985. Matéria intitulada: Um retrato musicado. 249 Música Você Roubou Meu Vídeo Cassete. LP A Panela do Diabo. WARNER BROSS, 1989.
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Oh babilina babilina Sai desse bordel
Eu quero exclusividade do teu amor Cutis cubidu-bilina por favor!
Eu tava seco há muito tempo quando eu lhe conheci, provei do seu chamego e nunca mais me esqueci A noite cê trabalha diz que é pra me sustentar, passa o dia exausta que nem pode me olhar É dentro de casa que eu te quero meu amor, larga desse emprego baby por favor. (...)250
Críticas políticas e sociais, “retratando com fidelidade a vida no país nos dias de hoje”251, como assim a revista Veja definiu o rock nacional, são também muito
presentes na produção musical de Raul. Na Música Não Fosse Cabral, por exemplo, Raul tece críticas sociais por meio de uma linguagem pesada e direta, bastante comum ao rock da década de 80, fazendo uso do humor que, segundo a revista Veja, havia se tornado “o principal ingrediente da moderna música brasileira”252. Essa forma de humor,
utilizada também por Raul, no entanto, é radicalmente diferente daquele humor que caracterizou sua produção na década anterior. Esse recurso, segundo a revista Veja, “ao contrário do humor dos pioneiros do rock nacional, que tende para a sátira e gozação, (...) não convida ao riso aberto: ele tira sua graça no próprio „nonsense‟ da vida nacional”253. Diferentemente daquele humor sutil e refinado que caracterizou suas
críticas em canções como Ouro de Tolo, sua linguagem agora é mais direta e arduamente dirigida, como na música Não Fosse Cabral:
Tudo aqui me falta A taxa é muito alta Dane-se quem não gostar... Miséria é supérfluo O resto é que tá certo Assovia que é prá disfarçar... Falta de cultura
Ninguém chega à sua altura Oh Deus!
Não fosse o Cabral... Por fora é só filó Dentro é mulambo só E o Cristo já não güenta mais Cheira fecaloma
E canta La Paloma
Deixa meu nariz em paz... (...) E dá-lhe ignorância
Em toda circunstância Não tenho de que me orgulhar
250 Música Babilina. LP RAUL SEIXAS. ESTÚDIO ELDORADO, 1983.
251 Revista Veja, edição 870, pp.132-133. 8 de Maio de 1985. Matéria intitulada: Um retrato musicado. 252 Idem.
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Nós não temos história É uma vida sem vitórias Eu duvido que isso vai mudar... (...) Falta de cultura
Prá cuspir na estrutura E que culpa tem Cabral?...254
Questões relativas à problemática jovem, como o serviço militar e “batidas” policiais, que também se tornaram assuntos freqüentes do rock nacional, como destacou o jornalista Marcos Augusto Gonçalves255, estão também presentes na produção musical de Raul durante a década de 80. A música Metrô Linha 743, por exemplo, narra a história de um indivíduo abordado por dois homens armados, onde o ambiente urbano é parte central do cenário em que se desenvolve a narrativa. Já na música Mamãe eu não queria, o cantor faz referência ao serviço militar obrigatório, ao dizer que:
(...) Mamãe, eu não queria Mamãe, eu não queria Servir o exército
Não quero bater continência (Trá-lá-lá-lá) Nem pra sargento, cabo ou capitão (Trá-lá-lá-lá) Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão Não!
Mamãe, eu não queria Mamãe, eu não queria Desculpe, Vossa Excelência A falta de um pistolão É que meu velho é soldado
E minha mãe pertence ao Exército de Salvação Não!
Marcha soldado, cabeça de papel
Se não marchar direito vai preso pro quartel Sei que é uma bela carreira
Mas não tenho a menor vocação Se fosse tão bom assim mainha Não seria imposição
Não! (...)
Esteticamente, a produção musical de Raul Seixas, durante a década de 80, também se afastou, em grande medida, dos critérios de composição que nortearam seus trabalhos anteriores, alinhando-se agora às novas facetas que o próprio rock vinha
254 Música Não Fosse Cabral. LP RAUL SEIXAS. ESTÚDIO ELDORADO, 1983.
255 Jornal Folha de São Paulo. 9 de Setembro de 1986. Matéria intitulada: Legiões Urbanas Suburbanas e
195 assumindo. Todo aquele esforço de “síntese”, como assim definiu Ana Maria Bahiana, que refletia a própria inserção do rock no campo da MPB, a qual Raul Seixas praticamente se via impelido a realizar, acabou por perder força durante a década de 80, e a produção artística de Raul acompanhou essa modificação. Assim, sua produção musical, nesse período, passa a se orientar bem mais pela apuração e ligação com o rock do que pela tensão constante entre estilos diferentes, abandonando uma carga de signos e sentidos exagerada e voltando-se para uma forma de representatividade legítima que ele julgava possuir, como nos mostra a jornalista Maria Amélia Rocha Lopes, ao definir o disco Raul Seixas, de 1983, da seguinte maneira:
A base do disco é, sem dúvida, a força do rock. E, para cantar a força do rock, Raul Seixas, remando contra a maré atual de sofisticações desnecessárias, teclados aos montes, sintetizadores, computadores, precisa apenas do básico, do fundamental: a voz, piano, violão, guitarras baixo e bateria.256
Por mais que a aproximação das novas tendências musicais se tornassem algo marcante na produção musical do cantor, os pontos de singularidade, capazes de diferenciá-lo frente aos demais, também são freqüentes e vão repousar na marca que se tornara Raul Seixas.
Quando o público de suas músicas passa a ser o mesmo público jovem que vinha caracterizando o rock do período (o que já evidencia uma certa aproximação com os novos parâmetros de composição), o cantor faz questão de conferir a sua produção musical uma importância singular, que superasse a mera vinculação a uma dada faixa etária. Quando perguntado pela jornalista Rosangela Petta sobre a predominância do público jovem em seus shows, o cantor respondeu que: “eu não faço uma coisa local. Eu estudei psicologia, fui professor de inglês. Então eu tenho um lado metafísico de ver a vida que abarca todas as idades”257.
Dentro de qualquer aferição de importância e sentido em sua produção musical, a trajetória do cantor, e toda a representação que ela acumulou, se tornou um fator determinante. No entanto, existe uma distinção considerável na forma como Raul utilizou de sua trajetória na década de setenta, a fim de obter certas exigências simbólicas que sobre ele recaiam, e a maneira como ele fez uso dela na década de 80. É claro que, grande parte desta distinção é proporcionada pelas próprias modificações
256 Jornal da Tarde. 1 de Fevereiro de 1983. Matéria intitulada: Raul Seixas, voltando ao disco, estreando
em livro, pensando em cinema.
196 sofridas pelo campo musical. Todavia, podemos notar como, durante a década de setenta, sua trajetória é utilizada como forma de carregar sua construção imagética de signos e simbolismos diversos, capazes de direcionar uma atenção considerável a ele, e ao mesmo tempo alçá-lo às posições destacadas do campo musical. Na década de oitenta, diferentemente, ocorre uma forma de glorificação dos simbolismos que ele conseguiu no passado, a reivindicação de uma posição destacada que ele julga merecer e uma relação legítima com o rock que ele julga representar.
Rosangela Petta, em 1984258, ao divulgar e comentar o lançamento do LP Metrô
Linha 743, que seria lançado no mesmo ano pela Som Livre, traz junto à matéria uma imagem de Raul dançando e cantando como Elvis Presley, em sua apresentação no VII Festival Internacional da Canção de 72, e, ao lado, uma foto atual de Raul, com a legenda “Em 1970, como hoje: possuído por Elvis”. A imagem trazida pela revista vem evidenciar essa forma simbólica de ligação com o rock que Raul representaria e que seria capaz de direcionar as expectativas e uma espécie de legitimidade para sua produção musical.
259
A continuação da matéria é bastante clara ao determinar toda uma forma de singularidade à produção musical de Raul Seixas, derivada de um simbolismo que sua trajetória acumulara. Segundo Rosangela Petta:
258 Idem.
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Para fãs mais pudicos e tradicionalistas que temiam um possível namoro de Raul Seixas com o rock descompromissado que invadiu o país, principalmente por que ele se segurou bem nas FMs, no ano passado, com
Carimbador Maluco, chegou o alívio: o velho Raul volta a atacar este mês. E
em dose dupla. Já chegou às lojas o disco gravado pelo Estúdio Eldorado durante a apresentação, em fevereiro de 1983, no ginásio do Palmeiras, junto com o primeiro LP que ele fez para a Som Livre, Metrô Linha 743. (...) Nostálgico, ele retomou um ritmo mais manso, ainda que no disco ao vivo ele esteja descaradamente possuído por Elvis Presley e Chuck Berry. Desfilando o melhor do old rock”n”roll, Raul passeia de My Baby Me (Arthur Crudup) a Blue Suede Shoes (Carl Lee Petniks); de Blue Moon (Richard Rogers e
Lorenz Hart), que emenda com uma surpreendente versão roqueira de Asa
Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), até Be Bop Lula (Vicente e
Davis). Bem didático, Raul entremeia as dez músicas com meia dúzia de all
right e algumas explicações históricas, tiques que este baiano cultua
heroicamente há 25 anos.
Já em Metrô Linha 743, o ídolo invocado é Bob Dylan e as dez faixas são quase todas inéditas, com exceção de Trem das Sete, que recebeu o arranjo mais bonito do disco, valorizando um afinadíssimo coro masculino. Ao contrário do LP gravado ao vivo, Raul preferiu o violão acústico, pouquíssima eletrônica. E carregou com seu velho jeito de mensageiro da juventude: tanto que a censura vetou a divulgação de Mamãe, eu não queria, balada triste para quem está as vésperas do alistamento militar. A faixa título, puro country recitado, é essencialmente Raul Seixas: cercado por três homens, o herói mostra o documento, mas querem saber o que ele estava pensando. É o mesmo pique de Eu quero ser o homem que sou (“Mas dizendo a verdade somente a verdade”), de o Messias indeciso (parceria de Raul e sua mulher Kika sobre um Jesus Cristo “que jamais quis ser adorado”) e a Geração da Luz. (...). E se o disco por inteiro está longe de ser um documento dos tempos que correm, está próximo do retrato do próprio Raul, eternamente marcado por ser um artista fora do esquema fácil, só roqueiros radicais lhe permanecem fiéis.
Numa dessas, porém, Raul não está distante das coisas. Pode ser que não vença a tirania das paradas de sucesso, absolutamente tomada por apelos mais diretos. Pode ser que ele não satisfaça completamente a turma que o elegeu há quinze anos, porque entre uma música e outra, é verdade, não existe definição. Mas Raul Seixas é Raul Seixas, pioneiro das bandas de rock desse país, que não se intimidou diante de uma crítica que exigia “raízes” num tempo que ele misturava guitarra, zabumba e triângulo. Um anjo maldito dos sons que rolam por fora do circuito.260
A aproximação da produção musical de Raul Seixas com rock nacional do período é muito evidente na matéria, já no seu início, se completando com a conclusão da autora de que existe a possibilidade do cantor não satisfazer “completamente a turma que o elegeu há quinze anos”, fazendo referência a determinadas modificações que vinham ocorrendo em seu trabalho. No entanto, a singularidade que o diferenciaria fica da mesma maneira explícita nas palavras da jornalista, ao deixar claro como Raul Seixas não é um adepto do “rock descompromissado” que invadiu o país. Esta singularidade que o cantor traz fica por conta, exatamente, do capital simbólico que ele acumulou em sua trajetória, e que fez dele uma figura impar no cenário musical brasileiro. Vejamos
198 como o principal fator de diferenciação do cantor, que a jornalista julga ser “um artista fora do esquema fácil”, é, na realidade, a própria construção imagética que ele carregaria. Fica claro como a sua trajetória e o capital simbólico que nele se deposita dão ao cantor as singularidades que o destacam e o diferenciam. Neste sentido, a autora conclui que o disco apresentado na matéria ganha importância por estar “próximo do retrato do próprio Raul”. Assim, a análise das músicas do LP, feita pela jornalista, passa pela identificação com a própria imagem do cantor, como acontece na música Metrô Linha 743, que a jornalista julga ser “essencialmente Raul Seixas”.
As origens do rock aparecem, na reportagem, confundidas com a própria trajetória do cantor. Assim, por meio da imagem de Raul trazida pelo jornal, a matéria carrega a idéia de um elo histórico, onde a figura do cantor traria ao presente a própria história do rock, a personificação do gênero, uma ligação direta entre passado e presente feita por um artista “descaradamente possuído por Elvis Presley e Chuck Berry”. Essa personificação seria capaz de credenciar uma autoridade pedagógica do cantor e, num show de puro “old rock‟n roll”, ele se vê no dever de fazer importantes “explicações históricas”.