ELETIVA OBRIGATÓRIA OPTATIVA
3.3 Quanto aos procedimentos e construção dos instrumentos da pesquisa
Considerando as características da metodologia estudo de caso, apresentadas no início deste capítulo, diferentes instrumentos foram utilizados para a coleta das informações: entrevista semiestruturada, observação, diário de campo e feedback da pesquisa. A entrevista, segundo Ludke e André (1986), é um dos principais instrumentos para a coleta de dados em estudos de caso, por possibilitar o estabelecimento de uma relação de interação, em que o sujeito entrevistado pode discorrer sobre a temática proposta na pesquisa, além de permitir adaptabilidade, acompanhamento de ideias e aprofundamento das respostas dadas.
Segundo Moreira (2002, p. 54), a entrevista pode ser classificada em três tipos: 1) Estruturada; 2) Completamente aberta; 3) Semiestruturada. A entrevista estruturada apresenta um conjunto de questões já determinadas e o pesquisador parte do princípio de que o entrevistado apresenta as condições necessárias para fornecer dados relevantes. A entrevista completamente aberta apresenta um número de questões que não são específicas nem fechadas, ou seja, não delimita uma estrutura de forma fixa. A entrevista semiestruturada está entre os extremos das duas primeiras, sendo necessários o planejamento e a elaboração de um roteiro com perguntas norteadoras, para que o participante possa relatar o que é relevante para a pesquisa. Portanto, as respostas podem ser relativamente livres, além de o pesquisador poder “acrescentar uma questão não prevista, dependendo das respostas dos respondentes” (MOREIRA, 2002, p. 54).
Assim, a escolha da entrevista semiestruturada para a realização da coleta dos dados nesta pesquisa mostrou-se mais adequada por possibilitar manter a clareza dos objetivos do estudo e, ao mesmo tempo, permitir a reelaboração e a elaboração de perguntas à medida que as informações eram relatadas. Tavares (2000, p. 49) afirma que, na entrevista semiestruturada, o entrevistador “tem clareza de seus objetivos, de que tipo de informação é necessária para atingi-los, e de como essa informação deve ser obtida”. Assim, a técnica da entrevista apresentou grande contribuição para a pesquisa, por desvelar a realidade dos sujeitos participantes no processo de inclusão na UFOP e compreender melhor os dados obtidos por meio da análise dos documentos, projetos e PDIns, apresentados anteriormente.
Dessa forma, para saber o que os estudantes pensavam sobre o processo de inclusão na universidade, as entrevistas semiestruturadas ocorreram durante o mês de julho de 2015. Antes, porém, de ir a campo, foi realizado o planejamento da entrevista e construído o roteiro semiestruturado.
Esse exercício, que envolveu o planejamento e a construção do instrumento, não foi algo fácil como pensava de início. No primeiro momento, foi elaborada uma lista grande de perguntas consideradas relevantes para o estudo por atender aos objetivos da pesquisa. No segundo momento, levou-se em conta os critérios apontados por Szymanski (2011) como fundamentais para a elaboração de perguntas em pesquisas qualitativas: a) Consideração dos objetivos da pesquisa; b) Amplitude da questão para permitir o desvelamento de informações pertinentes ao tema da pesquisa; c) Cuidado para evitar indução de respostas; d) Escolha dos termos das perguntas; e) Escolha do termo interrogativo.
Com esses critérios, foram realizadas as adequações necessárias nas perguntas elaboradas anteriormente, selecionadas as melhores e eliminadas as que não trariam insumos para o problema. Elaborou-se, assim, o roteiro semiestrutrurado (Apêndice), com perguntas norteadoras que tinham como objetivo trazer à tona as elaborações dos participantes sobre o tema do estudo. A entrevista foi dividida em três partes: 1) Perfil e aquecimento; 2) Acessibilidade e barreiras no Ensino Superior; 3) Formação profissional.
Na Parte 1, os participantes apresentaram dados referentes ao perfil (sexo, cor, idade, tipo de deficiência, estado civil e outros) e à caminhada na Educação Básica. Na Parte 2, as perguntas referiam-se a estes tópicos: a) Processo seletivo; b) Acessibilidade e barreiras. Na Parte 3, os sujeitos da pesquisa foram indagados sobre a formação e a atuação profissional: objetivos, projetos e atuações. O que desejava era obter, com as questões apresentadas nos três momentos, um relato das ações e experiências, o que, de acordo com Szymanski (2011), faria emergir várias abordagens da temática e, consequentemente, contribuiria para o enriquecimento da análise.
Após a seleção dos participantes, fiz o contato inicial com cada um. Os procedimentos utilizados foram embasados em Szymanski (2011, p. 25), que ressalta cuidados que o pesquisador precisa ter no momento da entrevista, entre os quais: assegurar-se da compreensão dos participantes acerca dos objetivos da pesquisa; oferecer-lhes um mínimo de segurança em relação ao pesquisador; dar-lhes liberdade
para não participarem da pesquisa; protegê-los por meio do sigilo quanto aos depoimentos; possibilitar-lhes acesso aos dados e análises, além de levar em conta que eles estão situados num ambiente social. Para a autora, “as razões para esses cuidados são éticas e também metodológicas, no sentido de se procurar maior fidedignidade nas informações” (p. 25).
Assim, o tema e os objetivos da pesquisa foram apresentados aos participantes, abrindo espaço para perguntas e dúvidas e estabelecendo um clima cordial. Foi explicado que, por meio da entrevista, apresentariam aspectos do seu processo de inclusão no Ensino Superior e que as entrevistas seriam semiestruturadas com um roteiro, para facilitar a coleta das informações, deixando clara a importância da sua participação na pesquisa. Esclareceu-se ainda que a entrevista ocorreria durante o mês de julho de 2015 e que haveria três encontros, sendo dois reservados para a entrevista e um para a apresentação dos dados coletados e de considerações. Os encontros seriam agendados de acordo com a disponibilidade, sem prejudicar os estudos, o trabalho e o descanso. Por fim, solicitou-se a permissão para a gravação da entrevista, garantindo direito ao anonimato, acesso às gravações e análises, além de poder fazer as perguntas que desejassem. Foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice).
Feito o contato inicial, segui-se à condução da entrevista propriamente dita. No dia e hora agendados, realizei, com cada participante, um pequeno período de aquecimento para fazer emergir questões mais pessoais e estabelecer um clima mais informal. Pedi que o estudante falasse do percurso acadêmico na Educação Básica e dissesse com quem morava e os membros da família, entre outras questões (Apêndice). Essa foi a primeira parte da entrevista, que chamei de aquecimento e que trouxe informações fundamentais sobre os participantes, estabelecendo, ao mesmo tempo, a introdução ao tema da pesquisa. Szymanski (2011, p. 28) afirma que “a preparação de uma entrevista é um processo cuidadoso” e os momentos iniciais propiciam informações importantes para o pesquisador.
Realizado o aquecimento, fiz a primeira pergunta: Como aconteceu ou acontece o seu percurso acadêmico na UFOP? A questão teve como objetivo trazer à tona o primeiro arranjo narrativo dos estudantes com deficiência sobre o objeto de estudo. Foi, portanto, o ponto de partida para o relato, com foco no ponto que queria desvelar, mas,
ao mesmo tempo, ampliando o suficiente para que eles escolhessem por onde começar (SZYMANSKI, 2011). Deixei que o entrevistado falasse livremente.
Após a questão desencadeadora, fui inserindo as demais perguntas, referentes à acessibilidade e às barreiras no Ensino Superior, a segunda parte da entrevista. As perguntas foram feitas de forma gradativa e, à medida que os relatos eram concluídos, ia apresentando a minha compreensão do discurso do entrevistado. Para Szymanski (2011), a compreensão da fala do entrevistado pelo pesquisador tem o objetivo de descrever e sintetizar as informações recebidas, sem assumir a forma de uma avaliação pessoal. Trata-se, portanto, de expressar a compreensão da fala nas palavras do pesquisador. Para Szymanski (2011), esse feedback representa cuidado ético e possibilita a correção por parte do participante. O procedimento foi fundamental no decorrer da entrevista, principalmente para um dos entrevistados, pois possibilitou clareza e aprofundamento do que estava sendo dito.
Durante a segunda e a terceira parte da entrevista, além de indicar a compreensão da fala do entrevistado, a minha atuação se deu no sentido de manter o foco no problema da pesquisa. Assim, apresentei, no final de cada parte da entrevista, uma síntese, utilizando as palavras do entrevistado. De acordo com Szymanski (2011, p. 44), a finalidade de fazer uma síntese, de momento em momento, “é a de se apresentar qual o quadro que está se delineando para o/a entrevistador/a, isto é, como se está acompanhando a fala do/a entrevistado/a.” Dessa forma, a síntese contribuiu para trazer a entrevista para o foco que desejava aprofundar, principalmente nos casos em que ocorreu digressão. Conforme as recomendações de Szymanski (2011), observei em que momento os entrevistados saíram do tema, que tipo de assunto abordaram e como responderam ao serem chamados de volta ao assunto da pesquisa, o que foi muito significativo e será considerado na hora da análise.
Além da elaboração de sínteses, ao longo da entrevista, foram elaboradas questões de esclarecimento, quando a narrativa se mostrava confusa ou não muito clara, questões focalizadoras e questões de aprofundamento (SZYMANSKI, 2011, p. 49). Considerando que a entrevista estava organizada em torno de um objetivo, essas questões tiveram a função de focar o objetivo: analisar o processo de inclusão de estudantes com deficiência no Ensino Superior.
A entrevista foi a etapa de coleta de maior relevância para a pesquisa, pois, além da escuta de cada sujeito participante, a observação revelou importantes informações.
De acordo com Ludke e André (1986, p. 36), o pesquisador, na entrevista, deve levar em conta não apenas o roteiro da entrevista e as respostas verbais dos participantes, mas também a comunicação não verbal. Explicam os autores: “Gestos, expressões, entonações, sinais não verbais, hesitações, alterações de ritmo, enfim, toda uma comunicação não verbal, cuja captação é muito importante para a compreensão e a validação do que foi efetivamente dito” (p. 36).
Dessa forma, a observação ocorreu durante a realização das entrevistas e permitiu um olhar atento ao contexto. Isso me levou a identificar novos elementos, por meio dos gestos e do modo como os estudantes com deficiência expressaram vivências e sentimentos. Sabendo que a observação, mesmo aberta à dinâmica do campo, deve ser orientada e sistematizada para que se torne uma técnica científica, foram observados, além das expressões não verbais, o contexto em que ocorreram as entrevistas, a acessibilidade e as barreiras atitudinais, físicas e comunicacionais, considerando os objetivos do estudo.
Afirmam Ludke e André (1986, p. 25):
Planejar a observação significa determinar com antecedência o que e como observar. A primeira tarefa, pois, no preparo das observações é a delimitação do objeto de estudo. Definindo-se claramente o foco de investigação e sua configuração espaço-tempo, ficam mais ou menos evidentes quais os aspectos do problema que serão cobertos pela observação e qual a melhor forma de captá-los.
Para registrar os elementos observados, utilizei o diário de campo, que me acompanhou no momento empírico da entrevista. Assim, foi possível fazer notas sobre o campo, a comunicação não verbal, as impressões acerca das questões atitudinais e físicas e as facilidades e dificuldades vivenciadas por nós no acesso ao campo.
As entrevistas foram transcritas, constituindo a primeira versão escrita do texto da fala, que foi registrada tal como se deu. Ao transcrever as falas, revivi cada momento e a forma como ocorreu a interação. Na segunda versão, que passou a ser o principal referente, fiz uma revisão, sem substituir termos.
As entrevistas foram lidas, relidas e apresentadas aos estudantes entrevistados, pessoalmente e por e-mail, para aprovação ou ampliação das questões apresentadas por eles anteriormente. Para Szymanski (2011), o feedback na pesquisa científica é muito relevante. Portanto, esse momento representou, para os participantes da pesquisa, o
conhecimento da forma como os dados foram organizados e serviu para aprofundarem a reflexão sobre a temática, o que contribuiu para enriquecer os dados.
Com as entrevistas e observações realizadas, portanto, está sendo construído este estudo de caso, que utiliza os PDIns de estudantes com deficiência e/ou necessidades específicas, projetos de acessibilidade e inclusão e notas de campo.