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Quantos falam sobre o caso João de Deus?

5.1 APRESENTANDO O DEBATE

5.1.1 Quantos falam sobre o caso João de Deus?

Neste primeiro ponto, vamos apresentar as variáveis na ordem da própria codificação, tal qual apresentado no capítulo metodológico. Como explicado anteriormente, a V1 (Compreensão) verifica se, mesmo sem seu contexto original, o comentário faz sentido e pode ser compreendido.

Do corpus de 6.472 comentários, 717 (11,1% do total) são ininteligíveis, versus 5.755 (88,9%) inteligíveis – um alto percentual, que denota um primeiro esforço do interlocutor de se fazer compreender e entrar para a conversa. A V1 é a primeira

variável de corte do percurso metodológico – o que significa que os ininteligíveis não avançam na codificação.

Na V2 (Tipo de pensamento), avaliamos a presença de três diferentes partículas no texto: a sociabilidade, a metaconversação e a presença de um problema41.

A sociabilidade esteve presente em 30,1% dos comentários, mostrando que esta é a quantidade de comentários com interação social – seja reconhecendo a presença do outro ou convidando terceiros para integrar o debate.

A metaconversação, que verifica a presença da “conversa sobre a conversa”, esteve presente em 9,2% dos comentários. Apontado por Stromer-Galley (2007) como uma das formas de se medir engajamento na discussão, esse elemento demonstra uma interação social mais forte entre os presentes, mesmo que isso não signifique cordialidade nem fidelidade ao tema. Aqui, a metaconversação não aparece de forma tão expressiva. Isso não quer dizer que não haja engajamento entre os interlocutores, uma vez que existem outras formas de medir a interação nas conversações. No entanto, é um sinal de que apenas esta pequena parcela se expresse demonstrando explicitamente que está participando de um diálogo com outras pessoas, retomando elementos já apresentados ou avançando na argumentação. Na sequência, outras variáveis vão aprofundar esse recorte.

Na partícula problema – a segunda variável de corte, uma vez que as que não apresentam problema não passam para a próxima etapa de análise –, 14,6% dos comentários não abordaram algum problema e se restringiram à sociabilidade e/ou à metaconversação. Ou seja: 85,4% (4.913 comentários no total) apresenta a discussão de alguma problemática – ainda que ela não seja a temática central, como abordaremos mais adiante.

A V3 (Turno da fala) também é tida como um indicativo da presença do outro no debate, e interpreta se um comentário é monológico ou dialógico (resposta a outro). _______________

41 A partir desse ponto, os percentuais apresentados são relativos à porcentagem válida, que considera

apenas os números válidos e exclui os omissos (caracterizados na planilha de codificação pelas células que não possuem dados). Enquanto a porcentagem total é relativa ao N de 6.472, a porcentagem válida representa como 100% o total de comentários que foram codificados por aquela variável – em outras palavras, os comentários que “chegaram até ali” no percurso metodológico. Na V2, por exemplo, o total da porcentagem válida representa a fatia de 88,9% dos comentários que passaram pela V1 como inteligíveis – os 11,1% são desconsiderados para os resultados da V2. Em variáveis subsequentes, a ideia é a mesma: o total válido é o que foi codificado pela variável, e não o N de 6.472. Tal diferenciação foi feita a partir dos dados gerados no programa SPSS.

A pesquisa indica que 70,3% dos comentários são monológicos, sem apresentar sinais de diálogo com outro texto ou assunto já publicado. 29,7%, por sua vez, se tratam de comentários inseridos em uma conversa, seja réplica ou tréplica. Ou seja: quase 1/3 dos comentários se engajam na conversação existente – fração similar àquela já vista na sociabilidade.

Como vimos, este é um sinal positivo se analisarmos sob a ótica da qualidade do debate, uma vez que a troca de argumentos e/ou opiniões entre participantes faz a discussão avançar para além do olhar de uma só pessoa, exercitando a reciprocidade42.

Embora indiquem pontos diferentes, essas duas variáveis dialogam entre si pois ambas dizem respeito à compreensão do outro no debate. Uma interage explicitamente com outro interlocutor, seja através de uma saudação, um cumprimento ou mesmo através da função de marcação de nome pelo Facebook, criando um vínculo social (que pode ser positivo ou negativo, mas que existe). Já a outra é efetivamente uma resposta a algo que já foi dito, dando um passo à frente na discussão. As duas terem um índice semelhante mostra que existe uma relação entre elas.

Conforme apresentado anteriormente, esta dissertação integra uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação e Participação Política (COMPA), na qual outros “temas polêmicos” são avaliados pelas lentes da perspectiva ampliada da deliberação. Para que os dados dessa pesquisa possam ser referenciados com relação a outros tópicos de modo a compreender suas peculiaridades, vale aqui a comparação com os resultados de dois outros artigos que analisaram conversações de temas relacionados à violência contra a mulher.

Rizzotto e Saraiva (2018) analisaram 915 comentários sobre feminicídio retirados de postagens sobre esse tema na fanpage do Senado Federal no Facebook entre 2014 e 2018. Foram encontrados 17,3% de sociabilidade, 11,58% de metaconversação e 84% de problema. No turno da fala, 76,5% eram novos e 5,79% eram respostas.

Rizzotto e Belin (2019) analisaram 3.207 comentários sobre a descriminalização do aborto extraídos de postagens das páginas do Facebook dos _______________

42 Vale novamente lembrar que a reciprocidade não está relacionada à cordialidade; uma discussão

jornais El País, Estadão e O Globo que tratavam deste tema. O recorte temporal abrange os meses de junho, julho e agosto de 2018. Neste caso, a sociabilidade esteve presente em 10,2% dos comentários; a metaconversação, em 60,4%; e o problema, em 66,7%. 49,8% eram monológicos e 50,2%, dialógicos. O Gráfico 1 ajuda a visualizar a comparação entre as três temáticas:

GRÁFICO 1 – COMPARAÇÃO ENTRE DADOS DE TIPO DE COMENTÁRIO E TURNO DA FALA ENTRE CASO JOÃO DE DEUS, FEMINICÍDIO E DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO

FONTE: SARAIVA (2020), RIZZOTTO, BELIN (2019) e RIZZOTTO, SARAIVA (2018).

Com base nestes cinco primeiros resultados, já é possível inferir que o debate sobre o caso João de Deus teve altas taxas de engajamento com o tema, através da apresentação do problema, e de sociabilidade, interagindo diretamente com algum interlocutor. No entanto, apresenta um grande número de comentários monológicos e baixo índice de metaconversação, o que indica que não necessariamente exista um engajamento no conteúdo dessa interação.

Verificaremos, agora, a adesão dos comentaristas aos temas presentes na discussão e o conteúdo apresentado por eles.

10,2% 60,4% 66,7% 50,2% 49,8% 17,3% 11,6% 84% 76,5% 5,9% 30,1% 9,2% 85,4% 70,3% 29,7% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 40,0% 50,0% 60,0% 70,0% 80,0% 90,0%

Social Metaconversação Problema Monológicos Dialógicos