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4 EXERCÍCIOS EMANCIPATÓRIOS

4.4 QUARTO EXERCÍCIO: PALAVRA

De acordo com as autoras Bretas e Cruz (2015, p. 228), o “exercício” da

“palavra” não só é importante para que se desenvolva a aprendizagem como também se configura como a base para esse fim. Comunicar-se, continuam Bretas e Cruz (2015, p. 228), “[...] é a melhor prova de nossa capacidade de fazer seja o que for [...]”, pois é por meio dela, nas palavras de O Mestre Ignorante: Cinco lições sobre a emancipação intelectual, que o ser humano “[...] o poetiza, o traduz e convida seus ouvintes a fazer o mesmo” (RANCIÈRE, 2013, p. 96).

No ato de comunicação o saber é igual ao nada e o fazer é igual ao tudo:

A virtude de nossa inteligência está menos em saber, do que em fazer.

‘Saber não é nada, fazer é tudo’. Mas esse fazer é, fundamentalmente, ato de comunicação. [...]. Ele se comunica como artesão: alguém que maneja as palavras como instrumentos. O homem se comunica com o homem por meio de obras de sua mão, tanto quanto por palavras de seu discurso: ‘Quando o homem age sobre a matéria, as aventuras desse corpo tornam-se a história das aventuras de seu espírito’. ‘E a emancipação do artesão é, antes de mais nada, a retomada dessa história, a consciência de que sua atividade material é a da natureza do discurso. Ele se comunica como poeta: um ser que crê que seu pensamento é comunicável, sua emoção, partilhável. Por isso, o exercício da palavra e a concepção de qualquer obra como discurso são um prelúdio para toda aprendizagem, na lógica do Ensino Universal. É preciso que o artesão fale de suas obras para se emancipar; é preciso que o aluno fale da arte que quer aprender. ‘Falar das obras dos homens é o meio de conhecer a arte humana’’

(RANCIÈRE, 2002, p. 74, grifo do autor).

O saber fazer é igual ao querer dizer (a “palavra”) que, por sua vez, quem tem esse poder é o ser razoável de formar homens emancipados:

[...] o exercício consiste apenas em imaginar o que ele pode ter querido fazer. Verifica-se, dessa forma que todo saber fazer é um querer dizer e que esse querer dizer se dirige a todo ser razoável. [...]. A verificação da ‘unidade de sentimento’, isto é, do querer dizer da obra, será, assim, meio de emancipação para aquele que ‘não sabe’ pintar, o exato equivalente da verificação, no que respeita ao livro, da igualdade de inteligências (RANCIÈRE, 2002, p. 75, grifo do autor).

Cabe ao “exercício” da “palavra” também o “exercício” da “improvisação”.

Segundo Bretas e Cruz (2015, p. 228):

A improvisação além de ser inerente a nossa virtude poética é também o exercício pelo qual conhecemos e confirmamos a nossa natureza de seres razoáveis, capazes de fazer palavras, figuras e comparações a fim de se comunicar com nossos semelhantes.

Em Pierre Hadot (2014, p. 29-30), a “palavra” está relacionada aos “exercícios”

mais propriamente intelectuais: a leitura, a audição, a pesquisa e o exame aprofundado:

[...] a leitura poderá ser também a explicação de textos propriamente filosóficos, de obras redigidas pelos mestres da escola. E ela poderá ser feita ou ouvida no quadro do ensino filosófico dado por um professor. Graças a esse ensino, todo o edifício especulativo que sustenta e justifica a regra fundamental, todas as pesquisas físicas e lógicas, das quais ela é o resumo, poderão ser estudadas com precisão. A ‘pesquisa’ e o ‘exame aprofundado’ serão então a efetivação desse ensino. Habituar-se-á, por exemplo, a definir os objetos e os acontecimentos numa perspectiva ‘física’, a vê-los então tal como estão situados no Todo cósmico. Ou ainda eles serão divididos para se reconhecer os elementos aos quais eles se reduzem (HADOT, 2014, p. 29-30).

Além da diversidade que o “exercício” da “palavra” tem no contexto histórico, mas também no contexto prático em sala de aula com as/os estudantes, esse

“exercício” reitera permanentemente o seu poder no processo de ensino-aprendizagem e no contexto do método jacotista, que é imprescindível para a

“emancipação intelectual” de professoras/os ou de estudantes. Esse “exercício”, é base para o efetivar a aprendizagem em filosofia no campo escolar. Para que isso aconteça, uma dimensão da igualdade necessita ser desdobrada à luz de O Mestre Ignorante: Cinco lições sobre a emancipação intelectual (RANCIÈRE, 2002) e dos Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga (HADOT, 2014).

Assim, nessa subseção, de acordo com o que expusemos sobre o “exercício”

da “palavra”, do mesmo modo que os demais “exercícios” nas subseções anteriores, partimos da ideia que a “palavra” também será importante para as oficinas que pretendemos realizar com as/os estudantes.

4.5 CONSIDERAÇÕES GERAIS

A prática desses “exercícios” será com as/os estudantes da turma da 2º série A (matutino) no ensino médio, da Escola Estadual Daniel Carneiro, em Riacho dos Cavalos/PB. Faremos o convite a/o todas/os e caso mais de dez (10) aceitem o convite, selecionaremos apenas os dez (10) por meio de sorteio entre as/os que desejarem participar. Ainda a respeito dos referidos “exercícios”, ressaltamos que acontecerão por meio de oficinas no contraturno da aula de filosofia de maneira que cada uma/um delas/es desenvolva a sua própria aprendizagem a partir do que é capaz, dando respostas à tríplice questão do método da emancipação: “[...] o que vês?

O que pensas disso? O que fazes com isso?” (RANCIÈRE, 2002, p. 35, grifo do autor).

Na sequência, detalharemos os passos de como serão feitas as oficinas e que, por meio delas, professor e estudantes terão a oportunidade de pensar e colocar em prática um processo de educação no qual elas/es mesmas/os possam construir o seu próprio saber através de uma postura de quem demonstre que é capaz de se compreender e se entender. Os “exercícios” propostos serão colocados em prática nas oficinas de pensamento que, segundo Kohan (2013, p. 78), “[...] pode ser importante trabalhar por meio de oficinas, utilizando-se das dúvidas, perguntas, problemas, conceitos, ideias, projetos [...]” como forma de instigar o pensamento, conduzir as/os estudantes em busca de uma melhor aprendizagem da filosofia e, consequentemente, dos demais saberes do ensino médio e pretendem transformar a relação de professor e estudantes primeiramente com a filosofia e depois com a escola e com a vida.

Ademais, destacamos a relevância que os “exercícios” terão para a ação educativo-filosófica da nossa pesquisa e para a concretização de uma educação que seja emancipatória, em que as/os estudantes colocarão “vontade” a serviço da inteligência e “atenção” para a busca da própria aprendizagem.