4. CENÁRIO DA ESTRUTURA INSTITUCIONAL PÚBLICA DE GESTÃO
5.4 O Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Ipojuca
5.4.1. Processo de constituição do Comitê
5.4.1.4 Quarto momento
Seminário “Vida para o Rio Ipojuca”, em 24 de maio de 2001, ocorrido no Auditório do Shopping Center Caruaru. Contou com a participação de ampla representação do poder público através do Governo Estadual, do Ministério do Meio Ambiente e das Prefeituras municipais, consultores técnicos de elaboração do Plano Diretor, além de outros convidados.
A solenidade transcorreu sob forte representação política com expressividade dos discursos enaltecendo a importância de preservação e proteção dos recursos naturais, particularmente dos recursos hídricos. Inicialmente tinha-se entre os representantes do poder público a proposição pré-definida de “acatamento de sugestões para a formação de uma comissão provisória, visando à futura instalação do comitê da bacia hidrográfica do rio Ipojuca” (Ofício GABIN/SRH/No. 291/01). Contudo, entre os representantes das esferas locais (prefeituras) se configurou como muita pressão para a constituição de eleição naquele momento da diretoria executiva provisória para do comitê.
Contudo, após debate entre os participantes, com questionamentos sobre a baixa expressividade de representação, com implicações de possíveis contestações jurídicas baseadas em falta de legitimidade, fundamentadas no objetivo expresso em documento de comunicação pública, em que o mesmo não era definido já para o momento a constituição final do comitê. Ainda, das ausências de participação do segmento da sociedade civil organizada, por parte de entidades de representatividade das comunidades e dos usuários, se procedeu na constituição de uma comissão encarregada de realizar a necessária identificação e mobilização dos atores sociais complementarmente ao sentido paritário previsto em legislação para a composição de colegiado de gestão hídrica dos Comitês de bacias.
Com a composição definida da comissão e os membros identificados a cada município, deram-se inicio ao processo de mobilização através de realização de plenárias. Cabe ressaltar alguns aspectos do perfil constitutivo da comissão: grande número de participantes (33), expressividade dos representantes do poder executivo municipal (25), sendo 12 municípios com sede na bacia, ausência do maior usuário individual das águas da bacia - COMPESA, apenas (1) representante de colegiado identificado com o segmento dos usuários - CONSU/Bitury, ausência de identificação de representante do poder público estadual do órgão gestor da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos - SRH, ao segmento de sociedade civil com (3) representantes dos clubes de serviços, (1) representante de associação de moradores e (1) de associação de proteção ambiental, (1) representante do poder legislativo municipal, e (1) representante de ONG.
Percebe-se que já em seu processo de mobilização para a constituição foram grandes as expectativas de participação verificadas pelo número de membros da comissão pró-comitê. Ainda, que desde o seu começo a participação foi (a exemplo do aspecto numericamente das representações na comissão) de uma relação de assimetria entre o poder público e a sociedade civil. A gênese do Comitê do Ipojuca se inicia sob ambigüidades de propósitos entre objetivos de mobilização e realização técnica-política.
Em continuidade do processo foram realizadas seis (06) plenárias preparatórias de formação do comitê de bacia hidrográfica do rio Ipojuca:
Primeira Plenária de Belo Jardim em 20/06/2001, na qual foram entregues cópias de lista dos representantes da comissão provisória e minuta de estatuto. Neste encontro foram de grande intensidade os embates entre os representantes municipais (especialmente da
sociedade civil e prefeituras da zona da mata e litoral) e os representantes do poder público estadual (SRH) quanto ao processo de comunicação. Ainda, outro momento de tensão ocorreu decorrente do posicionamento do poder público estadual em constituir 2 ou 3 sub-Comitês. Ficou deliberado o próximo evento, e firmou-se compromisso das prefeituras em assegurar o transporte necessário aos representantes da sociedade civil.
Segunda Plenária de Gravatá em 11 de julho de 2001, como dinâmica para o evento foram feitas apresentações artísticas e logo após constituíram-se grupos por municípios para discussão da minuta do estatuto. Em sessão plenária foram realizados debates dos pontos do documento com destaque para a votação das propostas de constituição de sub-Comitês, que foi rejeitada pela ampla maioria dos participantes, com a deliberação pela constituição de um único comitê para toda a bacia hidrográfica.
Cabe ressaltar que a legislação faculta e flexibiliza a constituição destas instâncias sob diferentes arranjos, no capítulo III, da legislação federal 9.433/97, em que se tem a designação das territorialidades de atuação cabíveis aos Comitês de Bacia Hidrográfica, conforme exposto pelo Artigo 37, do qual percebe-se variáveis possíveis de compatibilização territorial regional e seus respectivos conjuntos de representação, são elas:
I - a totalidade de uma bacia hidrográfica;
II - sub-bacia hidrográfica de tributário do curso de água principal da bacia, ou de tributário desse tributário; ou
III - grupo de bacias ou sub-bacias hidrográficas contíguas.
Parágrafo único. A instituição de Comitês de Bacia Hidrográfica em rios de domínio da União será efetivada por ato do Presidente da República.
No entanto foi predominante na ampla maioria das representações participantes de que a fragmentação significaria em perdas de diferentes aspectos: ambiental pela quebra do conjunto sistêmica da bacia hidrográfica, risco de reprodução em continuidade desigual dos investimentos e favorecimentos localizados por concentração de aplicação em trechos pontuais da bacia, limites aos sistemas de trocas em exercícios de convivências construídos histórica e culturalmente entre os municípios, enfraquecimento da expressão político- representativa com redução do número de municípios a cada sub-comitê, e redução da capacidade de estruturação para o funcionamento de atuação.
Outros pontos de polêmica foram os Art. 3o inciso XIII sobre a cobrança pelo uso da
água como atribuição do comitê (rejeitado), o Art. 4o sobre a distribuição dos quantitativos
Art. 9o inciso VI que previa a votação secreta (rejeitado). Ainda, foram muitos e intensos os questionamentos acerca do credenciamento para participação com direito a voto, pois aos encontros era de condição aberta (os votantes eram todos os presentes), que após debates e votação ficou deliberado pela plenária de continuidade, sob protesto dos representantes do poder público de alguns municípios.
Terceira Plenária de Escada em 09 de agosto de 2001, iniciada com grande participação popular em manifestações artísticas em ginásio esportivo. Os debates começaram marcados pela insatisfação dos participantes ao perceberem da não inclusão de alterações da minuta do estatuto aprovadas em deliberações da plenária anterior. Ainda, do descontentamento com o processo de mobilização e divulgação dos eventos com flagrantes de privilégios para com algumas prefeituras, que inclusive realizaram reuniões entre técnicos da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos - SRH e da Secretaria de Produção Rural - SPR com representantes dos executivos locais.
Grande comoção entre os presentes se deu quando o representante da SRH sugeriu proposição de suspensão das atividades de constituição do comitê, em resposta foi deliberado pela continuidade através de eleição de uma comissão Pró-Comitê segundo critérios de representatividade dos segmentos sociais e de participação paritária entre poder público e sociedade civil, com inclusão de representantes por trecho da bacia (alto, médio e baixo curo do rio principal), e representante do governo estadual através da Secretaria de Recursos Hídricos - SRH. Teria como missão para a Comissão Pró-Comitê articular e conduzir o processo de realização da mobilização social e preparativo para continuidade operacional dos eventos.
Quarta Plenária de Ipojuca em 05 de novembro de 2001 acontece sob base de estruturação e funcionamento extremamente satisfatória, com expressiva participação representativa da bacia. Se fizerem presentes representações político-partidárias de projeção local (prefeitos) e estadual (deputados), secretários de governo, representantes do segmento de usuários (complexo portuário de Suape, usineiros, etc.) e representante de universidade pública federal.
Foram realizadas exposições em contribuição a capacitação para atuação ao gerenciamento participativo dos recursos hídricos, com relatos de experiências internacionais de Comitês e colegiados em países da Europa como a França e a Espanha, e palestra sobre os
desafios à gestão de territórios sob a unidade de bacias hidrográficas. A palestra foi ministrada pela Prof. Doutora Edvânia Aguiar Torres (UFPE) sob o tema - Problematizando Escalas nas Bacias Hidrográficas.
Ainda, durante este evento foram identificados entre os participantes de alguns pontos de avaliação favoráveis de contribuição ao processo possibilitado através da Comissão Pró- Comitê: aprofundamento de estudos na preparação das plenárias, reconhecimento formal da comissão (Ofício GABIN/SRH no. 524/2001) e legitimado em eleição (Plenária de Escada) para a condução de mobilização e divulgação, definição de estratégias mais eficientes de comunicação, definição dos critérios de escolha e indicação das representações, elaboração e aprovação de regimento interno ao funcionamento das plenárias, programação negociada e comunicada com antecedência aos participantes, maior troca de informações e comunicação entre os membros da comissão, registro de memória dos eventos e dos conteúdos aprovados em sessão plenária, fortalecimento de conjunto entre os membros da comissão.
Em continuidade dos trabalhos de reunião ficaram esclarecidos os aspectos que regeriam a paridade dentre as representações do futuro comitê de bacia hidrográfica do rio Ipojuca, assegurado o direito de representação das comunidades indígenas, conforme lei federal 9.433/97, Artigo 39, § 3º:
Nos Comitês de Bacia Hidrográfica de bacias cujos territórios abranjam terras indígenas devem ser incluídos representantes:
I - da Fundação Nacional do Índio - FUNAI, como parte da representação da União; II - das comunidades indígenas ali residentes ou com interesses na bacia.
Esta plenária tinha, ainda, entre outros objetivos, principalmente, concluir alterações a minuta do estatuto, definir a composição das representações e realizar eleição, em caráter provisório, de diretoria executiva. Contudo, mediante a falta de presença do Secretário Estadual de Recursos Hídricos - SRH, e dos desentendimentos decorrentes da insistência de diretor de planejamento da SRH em constituir sub-Comitês. A reunião foi encerrada sem os entendimentos necessários à continuação do processo de constituição do comitê especialmente após a saída intempestiva do diretor de planejamento da SRH quando indagado sobre a disponibilidade de recursos (dentre eles financeiros) ao processo de criação e funcionamento do comitê.
Foram deliberações desta reunião: aprovação de logomarca, aprovação de continuidade dos trabalhos da Comissão Pró-Comitê, aprovação de solicitação à SRH na
identificação de fontes de recursos orçamentários para continuidade do processo de constituição e funcionamento do Comitê, moção de agravo pela ausência do secretário SRH e do representante enviado.
COMITÊ DE BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO IPOJUCA
Figura 3 - Logomarca do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Ipojuca
Quinta Plenária de Arcoverde em 17 de dezembro de 2001, trabalhos iniciados com a leitura de comunicação Ofício SRH/GABIN no. 135/2001, através do qual o diretor de planejamento da Secretaria de Recursos Hídricos suspendia unilateralmente o processo de mobilização para a criação do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Ipojuca. Contudo, a programação do evento foi cumprida aos pontos de visitação da área de nascente, comunicação da identificação da comunidade indígena do povo XUKURU entre os municípios de Poção e Pesqueira, lançamento de literatura sobre a formação do Comitê em modalidade literária de cordel, aprovação da diretoria executiva provisória do Comitê, e aprovação de próxima plenária a realizar-se no município de Bezerros.
Coma participação da Secretaria de Recursos Hídricos - SRH os trabalhos só foram retomados após longa e insistente negociação, e transcorridos quatro meses com os preparativos para a realização da plenária de Bezerros.
Sexta Plenária de Bezerros em 30 de abril de 2002, com os preparativos de realização reassumidos pela Comissão Pró-Comitê. A reunião cumpriu a totalidade dos seus objetivos de aprovação final do Estatuto (ANEXO) e eleição da primeira Diretoria Executiva do Comitê de Bacia Hidrográfica do rio Ipojuca. Que tomou posse em 10 de maio de 2002 no município de Caruaru. Oportunidade na qual foi entregue uma cópia do Plano Diretor de Bacia Hidrográfica.
A primeira diretoria eleita ficou assim reapresentada:
• Presidente: Severino Tomás de Aquino - representante da UNIECO -Universidade Livre do Meio Ambiente - sociedade civil;
• Vice-Presidente: Maurison da Costa Gomes - representante da Prefeitura Municipal do Ipojuca -/ poder público;
• Secretário Executivo: João Domingos Pinheiro Filho - representante do NAOP - Núcleo de Assessoria as Organizações Populares - sociedade civil.