3 PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS DE PESQUISA: MÉTODO
3.2 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE E ENTREVISTAS
3.2.6 Quarto Trabalho de Campo: o Aty de Batismo Guarani
O batismo Guarani (Ykarai= imposição do nome alma) é marcado pelo início da primavera, que também é o começo do ano. Eu levei flores brancas em um vaso que usei na Lavação da Escadaria de Nossa Senhora do Rosário, ritual afro-brasileiro que acontece na semana da consciência negra no largo da ordem justamente onde era o Opy de Xume, o grande Pajé Guarani.
O ritual do Ykarai foi muito inspirado, e todos estavam com os
90 sentimentos aflorados, cheios de intenções. Awaju Poty, além da flauta e dos instrumentos de percussão, tocou a arpa Guarani. Tivemos a agradável presença de um casal uruguaio que na ocasião estavam fazendo um documentário sobre o Ñandereko (maneira de ser Guarani).
Eu toquei um instrumento aborígene chamado didgeridoo no momento de ascender o Petyngua e na hora da dança circular xamânica. Awaju retomou a questão da matemática Guarani, sobre os quatro ciclos de rituais, quatro fazes da lua, quatro estações do ano, quatro horas do dia, assim como quatro fazes da vida. Então, depois das orientações gerais, fizemos um pequeno Guata Porã (caminhada sagrada), no meio da mata, em silêncio e na escuridão.
Deveríamos ouvir o som dos passos um dos outros e caminhar em fila cuidando de quem está próximo. Foi uma caminhada peculiar, pois no escuro e em silêncio parece que os sentidos ficam aguçados. Após pararmos numa pequena clareira, ascendemos o fogo com lenha em brasa que havíamos trazido, pitamos e tomamos mate. Ainda em silêncio, Wya Poty, a madrinha do clã waerã, levou um de cada vez para fora da roda onde estávamos. Depois de um tempo se ouvia gritos de mais de uma pessoa e depois comemorações com palavras em Guarani.
Eu fui o terceiro a ser levado. Aqui tenho que encerrar a descrição do ritual, pois seus detalhes são tabu, ou seja, não podem ser partilhados. È uma experiência pessoal e única. Mas confesso que foi surreal. Num processo de morte e ressureição, deixei minha identidade de Jurua (homem branco) a recebi meu nome alma Guarani, uma nova identidade como divíduo dessa coletividade Guarani Ñandewa.
Então me tornei karai PojAwa, cujo significado profundo deve ser entendido, mais do que explicado. Ainda estou digerindo seu simbolismo, mas etimologicamente karai é tanto a divindade de outono, representada como sendo a inspiradora das boas palavras, como o nome dado aos grandes Pajés que são da linhagem karai. Os olhares silenciosos entre quem já tinha passado pelo ritual de batismo e os que estavam esperando para passarem daria um trabalho à parte. Cabe lembrar que nos relataram os mais antigos do clã que no passado os rituais eram bem mais sofridos.
Depois que todos passaram pelo Ykarai, retornamos em silêncio até o
91 Opy, onde deitamos em volta da fogueira e tentamos dormir. Novamente, deitado no chão batido, dentro saco de dormir aquecido pelo fogo, com meus novos irmãos e irmãs, ouvindo os sons da mata e tentado processar a assimilar tudo que estava acontecendo. Eu praticamente não dormi, e em jejum depois de fumar muito Pyta e aspirar o rapyká parece que estou com a consciência alterada. Mas ao mesmo tempo, tenho insights de lucidez e penso na pesquisa, nos dados coletados, e em tudo que pode ser importante para a dissertação.
Muito cedo fomos acordando aos poucos e como as kunhãs mantém o fogo aceso elas foram as primeiras a levantar. Demos início ao Aty matinal.
Depois de fazer de pytar, tomar o Kaayu e usar Rapyká em posse do Ywyraywu, bastão da palavra, que até agora eu chamava de chocalho, Yxapy nos orientou sobre como deveríamos entrar no Ma’ety (desenho onde se planta os Awajy’s , que é o milho sagrado).
Yxapy, lembrou-nos que para entrar na mandala deve-se estar em jejum, caminhar e trabalhar em silêncio, para entrar no ma”ety tem que ser pelo leste onde está kwaray e o cordão umbilical ligando ao centro onde está o ywyra (tronco em forma de forquilha) como foi citado anteriormente, sempre descalço e caminhando no sentido anti-horário e em jejum. Depois dos esclarecimentos, o bastão da palavra passou nas mãos de todos que puderam manifestar seus pensamentos e tirar dúvidas.
Em seguida retomamos o trabalho no Ma’ety aplainando a terra e de marcando o desenho onde será feito o plantio. No lado em que tivemos que encher de terra colocamos pedras grandes e madeira como escora. Então refizemos as leras e as enchemos de folhas secas por cima. Depois de adornados cada um dos troncos colocados nos pontos cardeais e o tronco em forma de forquilha do centro. Também fomos orientados à encontrar uma pedra que nos identificássemos para colocarmos no centro da mandala para nos representar.
A partir do ponto em que marcamos o centro com o Ywyra Ma’ety’ Yvy, delimitamos, um circulo usando um barbante como compasso de mais ou menos uns três metros de aro. E como a forquilha do Ywyra deve ficar voltada para o leste, olhando por ela marcamos o amba de Kwaray, a direção do sol nascente a leste, no tronco que marca esse ponto cardeal se enfeita com fitas e adornos de
92 cor amarela. A esquerda de Kwaray marcamos karai o norte, do elemento ar, representa o conhecimento e sua cor é o branco. Na direção oposta de Kwaray, o leste, está obviamente o oeste, denominado de Tupã, o sol poente, sua cor é o vermelho. E ao sul está Jkaira, sua cor é o azul, verde e seus derivados, seu elemento é o poã, as ervas e plantas que curam.
Na sequencia fizemos as leras onde serão plantados os Awajy’s e depois cobrimos as leras com folhas secas para oxigenar e adubar. Ficamos de fazer caixa de compostagem para colocar os materiais orgânicos e trazer para alimentar o Ma’ety. Como podemos ver no registro fotográfico abaixo.
FIGURA 07: MANDALA DE PLANTIO DE MILHO (MA’’ETY AWAJY’S ETE) NO PROCESSO INICIAL. Fonte: SANTOS, Elói. (2004)
Embora tenha sido um grande desgaste físico e em jejum, parecíamos todos muito satisfeitos com o trabalho e o aprendizado. Encerramos com um mais um Aty e compartilhando alimentos assados.
93