Características de cada sentido exterior a) quanto ao sentido da vista
15. Ag. Assim o farei. Mas, primeiramente, eu te pergunto: Meus
sentidos corporais são os mesmos que os teus ou, pelo contrário, os meus só pertencem a mi e os teus somente a ti? Porque se assim não fosse, não poderia ver com meus olhos um objeto que tu não visses igualmente. Ev. Concordo plenamente – ainda que todos nós tenhamos sentidos
da mesma natureza, entretanto cada um possui os seus próprios sentidos: o da vista, o da audição e todos os outros. Pois qualquer homem pode não somente ver, mas também ouvir o que outro não vê nem escuta. E o mesmo acontece com todos os outros sentidos – qualquer pode perceber o que outra pessoa não percebe. É manifesto, por aí, que teus sentidos são só teus e os meus, só meus.
dada, ou outra diferente?
Ev. Sem dúvida, nenhuma outra. Porque os meus sentidos interiores percebem as minhas próprias sensações e os teus, as tuas. É por isso que, frequentemente, alguém ao ver determinado objeto pergunta-me se também eu o vejo, porque sou só eu mesmo que percebo, se enxerguei ou não, e não o meu interlocutor.
Ag. E quanto à razão? Não pensas que cada um de nós possui também a sua própria? Pois, com efeito, pode acontecer que eu compreenda alguma realidade que tu não tenhas compreendido. E
nem possas saber se eu a compreendi, ao passo que eu mesmo o sei muito bem.
Ev. Evidentemente, quanto à mente racional, cada um de nós também possui a sua própria.
b) Quanto ao sentido da audição
16. Ag. Acaso poderias também dizer que cada um de nós possui seu próprio sol, ou sua própria lua, estrelas, ou outras coisas semelhantes, posto que os contemplamos cada um com os próprios sentidos? Ev. De modo algum, eu diria isso.
Ag. Podemos, por conseguinte, muitos de nós juntos e ao mesmo
tempo ver um único objeto, embora possuindo cada um os seus próprios sentidos. Permitem-nos eles ver juntamente e ao mesmo tempo um objeto único. Assim, ainda que meus sentidos sejam uns, e outros os teus, pode acontecer que o objeto de nossa visão não seja distinto para ti da que é para mim mesmo. Que um único objeto, porém, esteja presente a nós dois, e que o vejamos igualmente e ao mesmo tempo.
Ev. Isso é bem evidente.
voz, e assim, ainda que meu ouvido seja um, e outro o teu, contudo a voz que ouvimos não será uma para ti e outra para mim. Tampouco, uma parte dessa voz vai a teu ouvido e outra, ao meu. Mas, pelo contrário, o som tal como foi emitido, em sua identidade e totalidade, faz-se ouvir igualmente e ao mesmo tempo a cada um de nós.
Ev. Isso também é evidente.
c) Quanto aos sentidos do olfato e do paladar
17. Ag. Agora, convém também notar, em relação aos demais sentidos corporais, que o que se refere à questão presente não dizemos que eles se comportam de maneira totalmente semelhante à dos dois sentidos referidos: o da vista e do ouvido; nem de maneira totalmente
diferente. Com efeito, podemos, eu e tu, encher nossas narinas com o mesmo ar, ou perceber pelo odor a qualidade deste ar. E do mesmo modo, um e outro podemos degustar um mesmo mel ou qualquer outro alimento ou bebida, e perceber seu gosto pelo paladar, ainda que esse mel seja único e que nossos sentidos nos pertençam a cada um em particular – o teu a ti e o meu, a mim. Destarte, enquanto ambos sintamos um e mesmo odor ou um só e mesmo sabor, não é, contudo, nem por um órgão único que nos poderia pertencer em comum a cada um de nós. Mas o meu sentido pertence totalmente a mim e o teu, a ti; ainda que nós dois sintamos um único odor ou sabor. Donde se segue que esses dois sentidos, o do olfato e o do paladar, possuem algumas propriedades semelhantes às que possuem os dois outros sentidos: o da vista e o da audição.
Quanto ao que se refere a nosso presente assunto, porém, eles
diferem nisto: se bem que inspiremos um e outro, pelo nariz, um único ar, ou que degustemos um mesmo alimento, contudo, eu não inspiro a mesma porção de ar que tu, e tampouco ingiro a mesma porção de alimento que tu.
Mas eu tomo uma e tu, outra. E assim, ao respirar, eu inspiro uma parte de toda a massa de ar, o quanto me é suficiente. Igualmente tu, da massa total de ar, inspiras outra parte, o quanto te convém. E quanto ao alimento, ainda que um único em sua totalidade seja absorvido por um e outro de nós, ele não pode, entretanto, ser absorvido totalmente por mim, nem totalmente por ti; da mesma maneira, uma única palavra é ouvida inteiramente por mim e por ti ao mesmo tempo. É tal como acontece quanto a qualquer imagem visual. Ela é visível tanto por mim quanto por ti, e ao mesmo tempo. Quanto ao alimento e à bebida, porém, necessariamente será uma a parte que eu recebo e outra, a que tu recebes. Talvez não
compreendas bastante tudo isso?
Ev. Muito bem, pelo contrário. Convenho que tudo está inteiramente claro e certo.
d) Quanto ao sentido do tato
18. Ag. Acaso não te parece que se pode comparar o sentido do tato ao dos olhos e dos ouvidos, do ponto de vista que ora tratamos? Pois não somente podemos nós dois perceber pelo tato um mesmo corpo, mas que poderás também tocar a mesma parte que eu tiver tocado. De sorte que não seria somente o mesmo corpo, mas também a mesma parte desse corpo que nós percebemos ambos pelo tato? Porque não sucede com o sentido do tato o mesmo que acontece com o alimento que nos é apresentado. Pois este não pode ser tomado todo inteiro por mim e por ti, quando o ingerimos. Pelo contrário, para o tato, o objeto que eu tocar tu podes também o tocar – o mesmo e todo inteiro; de modo que nós o tocamos ambos, e não cada um, apenas uma parte, mas cada um toca-o em sua totalidade.
Ev. Confesso que sob esse aspecto o sentido do tato tem muita
audição. Vejo, porém, uma diferença nisto: simultaneamente, isto é, num só e mesmo tempo é que podemos um e outro ver e ouvir totalmente uma só e mesma coisa. Ao passo que, quanto ao tato, não podemos certamente um e outro tocar no mesmo objeto por inteiro, ao mesmo, apenas em partes distintas. Quanto à minha parte, seria somente cada um em tempos
diversos. Isso porque em parte alguma onde tu tocas, eu posso aplicar o meu tato, a não ser que tenhas retirado o teu.
19. Ag. Respondeste com bastante tino. Mas deves ainda considerar o seguinte: como explicar que entre todos objetos que nós sentimos, há alguns que sentimos ao mesmo tempo que outros, e há outro que sentimos cada um separadamente? E por outro lado, quanto a nossos sentidos, eles mesmos, como cada um de nós percebe sozinho os seus, de maneira que de minha parte não percebo os teus, nem tu os meus. Uma vez isso estabelecido, convém que advirtas ainda outro fato: entre as coisas que percebemos pelos sentidos externos, isto é, entre os objetos corpóreos, aquilo que não podemos perceber juntos, mas cada um à parte, é
unicamente o que se torna nosso, a tal ponto que podemos convertê-lo e transformá-lo em nossa própria substância. Está nesse caso, por exemplo, o alimento e a bebida. Nenhuma das partes por mim absorvidas poderá sê-lo também por ti. Com efeito, ainda que seja verdade que as amas tenham mastigado os alimentos antes de os servirem às crianças, entretanto, o que o paladar assimilou e transformou em sua própria carne não poderá de forma alguma ser devolvido para servir de alimento à criança alguma. Porque quando a boca degusta com prazer algum alimento, ela reserva para si uma parte, por mínima que seja, e de modo irreversível. Isso acontece conforme as exigências da natureza do corpo. Se assim não fosse, não teria sabor algum na boca, depois de os alimentos terem sido mastigados e
dados a outros.
E pode-se dizer, com igual razão, quanto às partes do ar que
inspiramos pelas narinas. Porque ainda que possas também inspirar alguma porção do ar que eu expirei, não poderás, entretanto, inspirar também aquilo que foi convertido em algo que me é próprio, e que não pode ser devolvido. Com efeito, os médicos ensinam que nós também nos alimentamos, ao respirar. E não posso devolver o mesmo ar expirando, para que possas, por tua vez, recebê-lo, aspirando por tuas narinas. Quanto, porém, aos outros objetos sensíveis que percebemos, mas sem entretanto os mudar em nossa substância corporal, alterando-os, nós podemos, eu e tu, senti-los, ou ao mesmo tempo, ou então alternadamente, um depois do outro, de modo que podes também sentir seja a totalidade do objeto, seja a mesma parte do que eu sinto. Tais são, por exemplo, a luz, o som ou os corpos que tocamos, sem entretanto alterá-los.
Ev. Compreendo.
Ag. Está, pois, claro que os objetos percebidos por nossos sentidos
corporais, sem entretanto os transformarmos, ficam, estranhos à natureza de nossos sentidos. E assim são eles um bem comum, porque não são convertidos nem transformados em algo próprio nosso, e por assim dizer, naquilo que é de nosso uso privativo.
Ev. Concordo perfeitamente.
Ag. Portanto, é preciso entender como sendo coisa própria e de ordem privada o que pertence a cada um de nós em particular, e assim somente cada um percebe em si mesmo, como pertencente propriamente à sua natureza. E, por sua vez, é preciso entender como coisas comum e de ordem pública o que, sem nenhuma alteração nem mudança, é percebido por todos.
Ev. Assim acontece.