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O que se afirma sobre aqueles que tiveram experiência de acolhimento institucional

4 História da institucionalização de crianças e adolescentes pobres no Brasil

4.5 O que se afirma sobre aqueles que tiveram experiência de acolhimento institucional

Todo esse histórico apresentado de classificar as famílias como incompetentes no cuidado com seus filhos, de considerar a pobreza como tendente aos maus vícios, de caracterizar as pessoas em situação de rua como potencialmente perigosas, dentre outras rotulações, traz implicações até os dias atuais. Conforme Silva (1997, p. 153),

a “cultura institucionalizada” durante os 21 anos de regime militar fincou profundas raízes no interior das instituições, impregnou diversas gerações de internos, de técnicos e de funcionários, foi incorporada pela sociedade como slogan (escola do crime) e largamente difundida pela imprensa. Isso quer dizer que esta “cultura institucionalizada” sobreviveu à derrocada do regime militar, criou vida própria e autonomizou-se, sendo que hoje a sua superação e a sua extinção definitiva constituem o principal desafio do ECA.

Decorrente de uma história de atendimento autoritário, punitivo e prolongado, as instituições de acolhimento ainda guardam imagens negativas no imaginário social, tanto de sua estrutura, quanto do público que atende. As famílias ainda são vistas como negligentes, irresponsáveis e desamorosas com seus filhos. O desamor talvez seja a acusação mais grave feita e de onde decorrem as demais faltas. Wendt (2016), para sua dissertação de mestrado, que fez uma contundente revisão bibliográfica sobre representações sociais tanto das instituições de acolhimento, quanto dos jovens atendidos, destacou alguns estudos que evidenciavam isto.

Em relação às instituições, seu estudo mostrou que elas são percebidas, de maneira geral, como “um espaço do excluído e marginalizado, do abandono e da não possibilidade (...) [e] um lugar angustiante e de intenso sofrimento, sem garantias e perspectivas” (Wendt, 2016, p. 21). O ambiente institucional é visto como um local inapropriado para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, fomentando sentimentos de inseguranças insuficiência e falta de perspectivas futuras. Com relação à estrutura física, as percepções giram em torno de sua, contratando profissionais pouco qualificados, expondo os acolhidos a mais sofrimento. Além disso, o pouco contato com a comunidade mantém a percepção ruim dos vizinhos em relação aos atendidos (Wendt, 2016).

Há relatos de percepção positiva sobre a instituição, mas esses são feitos exclusivamente por adolescentes que já haviam passado por institucionalização. Arpini (2003) explica que, ainda que não fosse desejada, a instituição era vista como um lugar de proteção das violências externas e de maiores tranquilidade e suporte. O sentimento para com a instituição como um lugar de perpetuação da violência, de negação das individualidades, como encontrado em décadas anteriores no período das Febens, não é mais pregnante, ainda que ela tenha sido considerada por muito tempo como um espaço em que as crianças deveriam ser encaminhadas ou por uma incompetência da família ou por uma ação preventiva frente à possibilidade de o jovem pobre se tornar um criminoso. Assim, a instituição, mesmo que imaginariamente, sempre esteve presente no cotidiano da população de baixa renda (Arpini, 2003).

Esta ambivalência com relação às imagens das unidades de acolhimento não é tão marcante quando se trata dos adolescentes institucionalizados. De modo amplo, os jovens são

vistos negativamente, como problemáticos, marginais, hostis, carentes e pouco qualificados. Há também a percepção de que são solitários, tristes e malcuidados (Wendt, 2016). A autora aponta que a imagem social negativa em relação a determinado grupo pode induzir os indivíduos a se comportarem de acordo com essas expectativas, promovendo sua validação e perpetuação. Veremos alguns efeitos disso ao discutirmos os casos no capítulo seguinte.

Esta má caracterização dos jovens que necessitam deste tipo de assistência social não é feita somente pela população que não tem contato com eles. Em sua revisão de literatura, Wendt (2016) encontrou que os próprios profissionais das instituições de acolhimento possuem imagens negativas em relação aos adolescentes em questão. O fato de unidades de acolhimento terem atendido, ao mesmo tempo, crianças e adolescentes que necessitavam de proteção social e que estavam em conflito com a lei pode contribuir para a percepção negativa sobre todos os acolhidos. Assim, os educadores oscilam entre esses dois polos, considerando os educandos ora como vítimas, ora como algozes (Wendt, 2016).

Em contraponto ao período da medicina higiênica que considerava a família como nefasta aos filhos, existe hoje uma idealização deste espaço como o único capaz de possibilitar o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes. Tomando isto como perspectiva de análise, a família de um jovem institucionalizado é, deste modo, vista como incapaz de cumprir sua função. O acolhido então, percebido como uma extensão de sua família, acaba carregando consigo as mesmas características associadas a ela. A desqualificação social desses jovens tem efeitos de culpabilização dos acolhidos por sua situação (Wendt, 2016). Tal culpabilização individual por situações de abandono leva a uma negação dos problemas estruturais da sociedade, como desemprego, falta de políticas efetivas de assistência social, acesso aos direitos fundamentais (Arpini, 2003). Além disso, deposita no sujeito a responsabilidade de sair dessa situação sozinho, por sua própria vontade.

É preciso considerar que muitas vezes a instituição de acolhimento representa o primeiro espaço de segurança, imposição de limites, regras e horários, possibilitando condições para um desenvolvimento saudável. Por este motivo, é preciso investir mais na qualificação profissional e, principalmente, reconsiderar a perspectiva institucional, trabalhando sobre o preconceito de que ela é uma alternativa necessariamente fracassada (Arpini, 2003).

Um ponto muito importante em relação ao momento do abrigamento de uma criança ou de um adolescente é que, por melhor que seja a instituição e seu trabalho, ele sempre representará uma marca dolorosa na vida desse sujeito. As situações que levam à institucionalização de alguém são duras, representando, por vezes em momentos precoces da vida, experiências de vida muito dramáticas (Arpini, 2003). As instituições podem funcionar

como representantes da violência familiar e daquilo que as afastou de sua casa, sendo o local por excelência de expressão da angústia. Assim, como exemplificamos na apresentação deste trabalho, as vezes os muros institucionais representam a concretização do abandono, presentificam as ausências, acentuando o desejo do acolhido de destruir aquele lugar. Não é necessariamente ao tipo de atendimento que lhe é prestado ou à atenção que lhe é dada, mas ao que a instituição representa para determinada criança/adolescente.

O distanciamento da vivência familiar propicia a reflexão sobre o que sua família representa para ele e o que ele representa para sua família, questionando-se sobre a importância que tem no desejo do outro. A possibilidade de um corte definitivo com a família de origem, mesmo que a experiência tenha sido marcada por violência e abandono, é muito assustadora, visto que se veem diante de uma completa solidão frente à vida (Arpini, 2003). Qualquer experiência de rompimento de vínculos, ainda que tenha sido um vínculo formado a partir de uma relação de violência, é vivida com angústia e medo em relação tanto ao presente quanto ao futuro (Arpini, 2003). O sujeito se constitui na relação com o outro e se ver sem referenciais imaginários sobre o que se é ou deve ser pode ser muito desestruturante. Por mais que algumas instituições forcem um sentimento familiar dentro do abrigo, chamando os acolhidos de irmãos, as crianças e os adolescentes sabem que os “tios” não são familiares e vão para sua casa no final do expediente e eles ficam.

Carregando o rótulo da família negligente, irresponsável e violadora de direitos, Arpini (2003) acredita que os funcionários dos serviços de acolhimento esperam que os acolhidos esqueçam seus familiares sem dor ou sofrimento, somente pela racionalização de que são pessoas que não agiram corretamente. A autora afirma que muitas instituições têm dificuldades em lidar com esse processo, exigindo um desafeto dos jovens com relação às suas famílias.

Outro ponto abordado por Arpini (2003) é que exige-se um comportamento exemplar desses jovens, justamente por já estarem em uma situação diferente da esperada socialmente, na expectativa de que, ao agir de modo correto, desfaçam todo o estigmaque carregam consigo. No entanto, há uma contradição institucional no momento em que se considera, de antemão, esta criança ou este adolescente como um problema, pelo simples fato de estarem necessitando de uma medida de proteção. Assim, ao mesmo tempo em que o julgam como violentos e rebeldes, esperam que, magicamente, se tornem “meninos bons”, que respeitam todas as regras institucionais, não admitindo a expressão de sua sexualidade ou de não contentamento e frustração, seja qual for o motivo (Arpini, 2003).

Estes jovens institucionalizados são considerados como estando em “situação de risco”. Esta expressão comporta ao menos duas interpretações. A primeira interpretação ressai sobre a

legalidade e sobre os direitos assegurados pela Política de Assistência Social e diz respeito à necessidade de proteção desses sujeitos por estarem expostos a situações de violência, negligência, abandono, dentre outros. A segunda interpretação, porém, pende para o lado oposto. Justamente por estarem afastados da família e terem experienciado diversas situações duras durante vários momentos da vida, são sujeitos que tendem à revolta social, ou seja, à criminalidade. Deste modo, haveria um complemento subentendido à expressão e estariam, então, em situação de risco (de se tornarem perigosos).

Neste sentido, retomo aqui a ideia defendida por Silva (1997) de que o modo de socialização impingido dentro das Febens promoveu uma criminalização do interno a partir do que o autor denomina de “pedagogia do crime”. Conforme sua pesquisa, 35,9% da amostra estudada se tornou criminosa após seu desligamento da Febem, sendo que não possuíam histórico de delinquência pregressa. Assim, crianças institucionalizadas ainda bebês, criadas e educadas exclusivamente pelo poder público, acabaram por desenvolver uma “identidade institucional” que metamorfoseou-se em uma “identidade delinquente”. O autor defende então que não era por uma “índole criminosa” que estes egressos vieram a delinquir, mas que essa identidade foi se constituindo ao longo dos anos de institucionalização em uma instituição criada e administrada por um regime militar, no qual a violência se constitui em um fator regulador das relações intra-institucionais.

Acrescente-se que, no micromundo das instituições, o componente fundamental nesse processo de interação entre pares é a disposição para o uso de violência, a capacidade de delinquir sem ser punido, e a capacidade de burlar todas as regras de segurança e de disciplina. Dizer que as instituições totais constituem-se em escolas de criminalidade, quer dizer que nesses universos instituiu-se uma contracultura, cujos valores, símbolos e representações concorrem para a construção de identidades institucionais que são, sobretudo, negativas, criminosas. (Silva, 1997, p. 147)

Por forças de todas essas questões, ainda há no imaginário social uma grande apreensão sobre a índole daqueles que precisam de acolhimento institucional, sejam eles crianças ou adolescentes, e uma indistinção sobre as instituições de acolhimento e de privação de liberdade. É importante, portanto, repensar não só a lógica de funcionamento das instituições, como a relação que elas estabelecem com sua clientela e com a comunidade em geral. As instituições são muitas vezes um espaço que oferece à criança um ambiente seguro e protetor, onde ela vai poder construir novos referenciais identificatórios. Assim, elas precisam ser vistas como um local em que pode ser possível constituir sujeitos, mesmo que longe de suas famílias. Se for mantido o ideal de que somente dentro de uma família uma identidade positiva, dentro dos padrões da moralidade, pode ser formada, as expectativas com relação ao acolhido serão sempre

negativas, visto que muitos não têm na família a acolhida desejada (Arpini, 2003). Como veremos a seguir nos casos, a forma como a instituição enxerga seu acolhido faz diferença em suas possibilidades de se colocar no mundo, de experimentar identidades.

Se acredita muitas vezes que a tarefa institucional está fadada ao fracasso porque trabalha com questões “naturalmente” sem solução, já que se trata de uma população com poucos recursos familiares e sociais aos quais se pode recorrer. A instituição não pode ser utilizada com o único argumento de que é melhor estar ali que estrar na rua. Ainda que se acredite atender aos “filhos de ninguém”, é preciso dar um novo olhar a esse sujeito, lhe garantindo um lugar de possibilidade de construção de desejos (Arpini, 2003).

5 A montagem da periculosidade e a lógica disciplinar de atendimento: J.D., o estilo