• Nenhum resultado encontrado

Que compõe o procedimento (ato de procedimento) e propriamente ditos

3.2 CLASSIFICAÇÃO

3.2.6 Que compõe o procedimento (ato de procedimento) e propriamente ditos

Roberto Campos Gouveia Filho entende que nem todos os atos processuais são atos da cadeia procedimental, atos do procedimento156. Apesar de serem dotados de elemento de processualidade no seu suporte fático, existem alguns atos processuais que não estão inseridos na cadeia procedimental (a demanda, o despacho de admissibilidade, a citação, a audiência de conciliação, a contestação, o despacho saneador, a sentença, a intimação, o recurso etc.)157.O referido autor apresenta os seguintes exemplos de ato processuais que não estariam inseridos na cadeia procedimental: a) a renúncia, seja a um direito processual, seja ao direito material processualizado; b) a desistência de qualquer demanda; c) as convenções ou acordos processuais.

Assim, segundo ele, “os negócios processuais, em geral, sejam típicos ou atípicos, não são componentes do procedimento”158. Logo, não obstante reconheça a existência de atos preenchidos de elementos negociais dentro da cadeia procedimental como as escolhas feitas na demanda, na contestação e nas decisões judiciais. Esses merecem um tratamento à parte. De modo que, na análise dos negócios processuais, existem aqueles que compõem o procedimento (são atos do procedimento) e aqueles que não compõem (negócios processuais propriamente ditos).

De acordo com a opinião de Roberto Campos Gouveia Filho159, o “ser processo”

do negócio jurídico não estaria no fato de ele ser praticado no processo em curso. Para ele, pode haver negócio jurídico antes do processo, mas com essência processual. Um exemplo que ilustraria essa situação é um pacto de não recorribilidade celebrado antes mesmo da existência de qualquer processo seria processual, pois a situação jurídica disposta tem natureza processual, pois o direito ao recurso é um direito processual.

Por outro lado, pode haver também negócio jurídico durante o processo, sem ter essa essência processual. Cita como exemplo uma convenção de arbitragem celebrada no curso de um processo já instaurado. Outro exemplo seria a convenção sobre o ônus da prova, pois segundo Roberto Campos Gouveia Filho, ela não teria essência processual, visto que para ele,

156 GOUVEIA FILHO, Roberto Campos. Negócios processuais. Artigo ainda pendente de publicação, gentilmente

cedido pelo autor.

157 Ibidem. 158 Ibidem.

159 Informações transmitidas pelo próprio Roberto Campos Gouveia Filho através de mensagens eletrônicas

o ônus antecede ao processo. O ônus que decorre do processo seria o ônus “imposto” pelo Estado-juiz.

Concordamos em parte com a posição defendida por Roberto Campos Gouveia. Entendemos que é possível identificar negócios processuais que não compõem o procedimento. Temos mais facilidade para compreender que existem negócios jurídicos que são celebrados fora (e até mesmo antes do procedimento) que seriam processuais em razão da indiscutível essência processual, que ele denomina “processualidade”. No entanto, temos dificuldades para negar essa mesma essência processual, ou seja, “processualidade” numa convenção sobre a prova celebrada já no curso do processo.

4 NEGÓCIOS PROCESSUAIS E O CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015

O CPC/2015 é um código completamente novo, com uma função contrafática nunca antes pretendida por um código processual brasileiro e que não pretende apenas sistematizar, simplificar ou aproximar processo e Constituição. Na verdade, o CPC/2015 almeja verdadeiramente alterar o modo de pensar e de agir dos atores processuais160.

Ele tem, declaradamente, uma espinha dorsal, a que se deu o nome de “normas fundamentais do processo civil”. Boa parte dessas normas encontra-se logo nos 12 primeiros artigos da Parte Geral, em que se pretendeu concretizar um modelo constitucional de processo civil, por meio de uma pauta mínima161. Esses artigos não exaurem o conjunto de normas fundamentais. Não obstante a destacada importância desses artigos, existem outros artigos quem também são normas fundamentais do processo civil em outras partes do referido código.

Para que se chegue às verdadeiras normas fundamentais do CPC/2015 é preciso acrescentar i) o art. 190, que trata do negócio processual; ii) o art. 489, §§ 1º e 2º, que disciplinam a fundamentação das decisões judiciais e iii) a leitura combinada dos arts. 926, 927 e 928, que tratam dos precedentes judiciais162.

A mencionada função contrafática do CPC/2015 pode ser percebida quando se lembra de que “o sistema processual brasileiro é um ambiente no qual prevalecem os interesses não cooperativos de todos os sujeitos processuais”163 e que essa “patologia de índole fática não

representa minimamente os comandos normativos impostos pelo modelo constitucional de processo”164.

Nesse contexto, ultrapassando a dicotomia adversarial vs inquisitorial165, o

CPC/2015 inaugura um novo modelo de processo: o processo cooperativo. Nesse cenário, “o juiz é isonômico na condução do processo e assimétrico na decisão das questões processuais e

160 CABALLERO, Berto Igor. LUZ, Danilo Rocha. RIBEIRO, Luiz Filipe. UCHÔA, Rostonio. LIMA, Victor

Emmanuel Cordeiro. Novo CPC: principais alterações. Teresina: Dinâmica Jurídica, 2016. p. 29.

161 Ibidem, p. 33. 162 Ibidem, p. 33.

163 THEODORO JÚNIOR, Humberto; NUNES, Dierle; BAHIA, Alexandre Melo Franco; PEDRON, Flávio

Quinaud. Novo CPC: Fundamentos e sistematização. Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 60.

164 Ibidem, p. 60.

165 A doutrina costuma identificar 02 (dois) modelos de processo na civilização ocidental influenciada pelo

iluminismo. O primeiro é o adversarial que se caracteriza pelo protagonismo das partes no processo, pois prevalece o princípio dispositivo. Assim, as partes conduzem o processo norteado pelo liberalismo clássico. Há uma visão privatística do processo, marcado pela igualdade formal. O segundo é o inquisitorial que, por sua vez, caracteriza- se pelo protagonismo do juiz que possui uma postura ativa na condução do processo, sobressai o princípio inquisitivo. Existe uma visão publicística do processo, marcado pela igualdade material. Conforme lição de Fredie Didier Jr., não há sistema totalmente dispositivo ou inquisitivo, pois os procedimentos são construídos a partir de várias combinações de elementos adversariais e inquisitoriais. DIDIER JR. Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento. vol. 1. 17.ed. Salvador: Jus Podivm, 2015. p. 120/123.

materiais da causa”166. Ademais, a colaboração e o seu principal instrumento – o diálogo – acabam por figurar como um importante fator de legitimação do processo civil no Estado Constitucional167.

Nesse aspecto, o CPC/2015 reforçou os mecanismos de autocomposição, incentivando as soluções cooperativas (art. 6º) e negociadas (art. 3º, §§ 2º e 3º); positivou diversas disposições sobre conciliação e mediação nos tribunais (art. 165 a 175); impôs ao juiz deveres de estímulo à autocomposição (art. 139, V); criou uma audiência de conciliação ou mediação, posicionando os atos de defesa para um momento posterior (art. 334-335)168.

Como bem destaca Humberto Theodoro Júnior e Dierle Nunes, “em caráter contrafático (inibidor dos referidos comportamentos) se trata de uma releitura democrática normativa da cooperação em perfil comparticipativo”169, e tal mudança de perspectiva “induz

a assunção do processo como um locus normativamente condutor de uma comunidade de trabalho”170.

É preciso repisar que o Código de Processo Civil de 2015 (Lei Federal nº 13.105/2015) manteve todas as previsões de negócios processuais que já havia no CPC anterior: a eleição negocial do foro (artigo 47 e 63); a suspensão do processo por convenção das partes (artigo 313, II); a desistência da ação (artigos 90 e 200); a convenção sobre o ônus da prova (art. 373, § 3º); e a desistência do recurso (artigo 998).

Além disso, ampliou os negócios processuais típicos, como por exemplo: saneamento consensual e saneamento compartilhado (art. 357, § 2º e §3º, respectivamente) e previsão do calendário processual contido no art. 191. Ademais, de forma inédita no ordenamento jurídico brasileiro, trouxe a cláusula geral dos negócios processuais atípicos (art. 190). Todos serão mais bem analisadas a seguir.